"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, junho 29, 2005

Ossos em dois continentes

Anuncio do Museu de História Natural
Pombal: Ossadas confirmam mesma espécie de dinossauro em dois continentes
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1226876&idCanal=13
27.06.2005 - 20h16 Lusa

Várias ossadas de dinossauros encontradas em Andrés, Pombal, confirmaram a existência da mesma espécie nos continentes europeu e americano, constituindo um caso único deste género, a nível mundial, anunciou hoje o Museu de História Natural.
Numa conferência de imprensa realizada junto às escavações, vários especialistas salientaram a importância da descoberta de ossadas de allosaurus fragilis, uma espécie que só havia sido identificada nos Estados Unidos, confirmando, também através da paleontologia, as migrações destes animais entre os dois continentes, há 150 milhões de anos.Então, a Europa e a América estavam unidas numa única massa de terra, separada por um pântano de grandes dimensões, e os dinossauros circulavam livremente entre os dois continentes, explicou Fernando Barriga, o director do Museu de História Natural.Há cerca de duas semanas, uma equipa de investigadores daquele departamento da Universidade de Lisboa esteve no local, encontrando mais vestígios deste dinossauro carnívoro, nomeadamente vários ossos do crânio."Isto é muito importante porque é o primeiro caso em que se encontram os ossos do crânio" de um dinossauro terópode "tão bem conservados", disse o paleontólogo Galopim de Carvalho, que também esteve presente na reunião.De acordo com Pedro Dantas, que coordenou os trabalhos de escavação, foram também encontrados vários ossos dos membros e da zona púbica, além de várias amostras de fauna e flora da época."Os ossos apresentam-se geralmente muito bem conservados e completos", mas estavam muito separados, o que indica que existem mais achados no terreno por descobrir, considerou este responsável.Até ao momento, os achados indicam a existência de dois allosauros, que têm um comprimento entre sete a oito metros, com uma altura de dois metros.No Jurássico Superior, "as terras imersas da América do Norte e da Península Ibérica estavam muitíssimo mais próximas entre si do que se encontram hoje, dado que o Oceano Atlântico de então, na sua parte norte, estava apenas no início da sua abertura", explicou Pedro Dantas.Nessa época, alguns animais, entre os quais os allosaurus, "terão conseguido transitar de um lado para o outro", aumentando a sua área de distribuição.A história das descobertas neste lugar da aldeia de Andrés, concelho de Pombal, remonta a 1988, quando o proprietário do terreno encontrou várias ossadas durante a construção de um anexo agrícola.Então, o dono do terreno avisou o Museu de História Natural, que realizou uma primeira investigação em Setembro desse ano.Quase 17 anos depois, o museu regressou ao local para novas investigações que revelaram mais achados e durante todo este tempo, o proprietário do terreno demonstrou sempre uma "postura exemplar, aguardando pacientemente que a ciência fizesse o seu trabalho", explicou Fernando Barriga.Depois destas descobertas, o museu quer regressar ao local para analisar toda a jazida, um projecto que deverá estar concluído "dentro de poucos anos", acrescentou o director da instituição.O objectivo final é a exposição das peças, se possível através de um "espaço museológico" a instalar no concelho, acrescentou o presidente da Junta de Santiago de Litém, Guilherme Gameiro.Apesar do sucesso desta escavação, Galopim de Carvalho lamentou que o mesmo não suceda noutros casos em que os proprietários não demonstram a mesma sensibilidade para este património."É muito difícil convencer juristas economistas da importância que tem para a cultura nacional e internacional este tipo de achados", afirmou, criticando o reduzido número de expropriações devido a património paleontológico."Portugal é riquíssimo em achados mas é paupérrimo nas verbas que são atribuídas à investigação", sublinhou.