Doentes preferem morrer em casa
http://dn.sapo.pt/2006/03/04/sociedade/doentes_preferem_morrer_casa.html
4 de Março de 2006
Os portugueses morrem cada vez mais no hospital. A situação é igual em quase todo o mundo ocidental, mas contradiz, segundo vários estudos, a vontade expressa da maior parte dos doentes, que preferem a companhia dos familiares nos últimos dias de vida. Uma investigação, publicada ontem no British Medical Journal - e que contou com a participação da portuguesa Bárbara Gomes - identifica os factores mais importantes que favorecem a morte de doentes em estado terminal em casa: cuidados domiciliários intensivos e rede de suporte familiar.O envelhecimento da população traz o aumento da prevalência de doenças crónicas. E com estas vêm os internamentos prolongados em instituições hospitalares e mais custos para os sistemas nacionais de saúde. A sustentabilidade dos serviços hospitalares depende também de uma rede de cuidados continuados que possa continuar a apoiar o doente em casa. Os cuidados paliativos a nível domiciliário são um desafio, que se assume cada vez mais, explica Bárbara Gomes, investigadora do King's College London, como "um imperativo em termos de política de saúde para a sustentabilidade do sistema".A investigação desenvolvida consistiu numa revisão sistemática da literatura e é a primeira que, em termos quantitativos, aborda o tema da morte em casa. E surgiu, explica a investigadora portuguesa, porque apesar de várias medidas implementadas em alguns países - como o Reino Unidos, Canadá, Estados Unidos e Austrália - as pessoas continuam a morrer cada vez mais no hospital. Por exemplo, em Portugal essa percentagem cresceu de 64% para 67% em apenas quatro anos. Ou seja, diz Bárbara Gomes, "as políticas não têm o efeito desejado".O trabalho analisou um universo de mais de 1,5 milhões de doentes, envolvidos em 58 estudos e 13 países. Os resultados apontam que 17 factores são essenciais para que cada vez mais os doentes em estado terminal possam morrer em casa. Segundo explica Bárbara Gomes, o suporte familiar é essencial: quem tem uma rede em casa, tem sete vezes mais hipóteses de vir a morrer junto da família. Se forem assegurados cuidados domiciliários continuados de qualidade, com carácter frequente e intensivo, a probabilidade de alguém morrer em casa é até oito vezes superior. As minorias étnicas e as pessoas de estrato sócio- -económico baixo têm, por outro lado, maior probabilidade de virem a morrer nos hospitais.

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