"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

domingo, dezembro 31, 2006

Dez mil pessoas deixam Vale dos Nobres
http://dn.sapo.pt/2006/12/31/artes/dez_pessoas_deixam_vale_nobres.html
POR Paula Lobo

Os dez mil habitantes de Qurna, a aldeia situada na margem ocidental do Nilo vizinha de Luxor e do templo de Karnak, perderam a batalha de seis décadas que travavam com as autoridades. As suas casas, conhecidas pelas pinturas murais e erigidas na necrópole que alberga mais de 950 túmulos do tempo dos faraós, estão finalmente a ser demolidas, naquela que é já considerada a maior operação de realojamento no Egipto depois da construção da barragem do Alto Assuão. Mas até a UNESCO coloca reticências ao plano.A decorrer até meados de Janeiro, a polémica destruição das casas de tijolo de lama onde residiam cerca de 3200 famílias começou no início deste mês. Com honras de cerimónia oficial, perante vários ministros e altos funcionários egípcios, os bulldozers avançaram e a evacuação foi justificada pela necessidade de explorar e proteger a necrópole da degradação causada pela população (há muito acusada de dilapidar os tesouros) e pela água (a aldeia não tinha saneamento básico e o Governo proibiu há anos quaisquer obras de melhoramento).
Parte da antiga capital Tebas, a colina onde se ergueu Qurna guarda as sepulturas pintadas de nobres, altos dignatários e escribas da corte, datadas do segundo milénio antes de Cristo. De acordo com o Le Monde, a sedentarização das tribos Ben Hilal, no século XV, levou à instalação dos primeiros habitantes no interior das câmaras mortuárias, tendo a aldeia crescido em cima e em redor desta necrópole, situada junto ao Vale dos Reis.As tentativas de evacuar o local datam de 1948, recorda a Reuters, quando o Governo egípcio, a conselho do arquitecto Hassan Fathi, concebeu o plano de Nova Qurna, nas margens do Nilo. Agora, acrescenta a BBC, os ocupantes do Vale dos Nobres estão a ser reinstalados em Taref, uma aldeia a meia dúzia de quilómetros de distância construída por 31 milhões de dólares (23,6 milhões de euros).E as críticas não param. A população diz que as novas casas são demasiado pequenas para famílias tão numerosas e pergunta como vai sobrevi- ver. Porque, além de não ser permitido guardar animais domésticos junto às habitações, a nova aldeia fica fora da rota dos turistas e a venda de artesanato e imitações de antiguidades era o meio de subsistência em muitos lares.A comunidade científica também está céptica. "O problema é que a ideia de paisagem cultural não está a ser tida em conta. Tem de haver uma séria reflexão sobre a gestão de sítios [arqueológicos] como Luxor", afirmou à AFP o egiptólogo Naguib Amin. "Pelas suas tradições e a sua arte popular, os habitantes asseguravam a derradeira ligação entre o passado e o presente. Com a demolição de Qurna, é uma parte da memória de Tebas que vai desaparecer. É um património cultural que se destrói", lamentou o arqueólogo francês Christian Leblanc, em declarações ao Le Monde.
A UNESCO, por intermédio do seu Comité do Património Mundial (reunido em Julho, na Lituânia), já solicitou ao Estado egípcio que, até 1 de Fevereiro de 2007, forneça mapas topográficos e esclareça quais os seus planos para aquela área, nomeadamente a nível de novas infra-estruturas. O texto da resolução, disponível no site do organismo, refere mesmo o não fornecimento de dados por parte das autoridades e pede informações sobre o impacto visual e ambiental de novos projectos de desenvolvimento, as futuras investigações arqueológicas e a gestão turística do sítio. Recorde-se que Tebas e as suas necrópoles estão classificadas como Património Mundial desde 1979."O facto de a arqueologia estar a reconquistar aqui os seus direitos é o sonho da minha vida. Há tesouros escondidos e os túmulos de Qurna sofreram danos terríveis", disse à AFP Zahi Hawass, presidente do Conselho Supremo das Antiguidades, acusando os ocupantes de pilharem as sepulturas para vender artefactos aos turistas. "As 3500 famílias partem para uma vida melhor. Esta é mais importante operação de realojamento desde que [o templo de] Abu Simbel foi salvo na Núbia, há 40 anos", afirmou à agência o governador de Luxor, Samir Farag, sobre a transferência de pessoas e monumentos no sul do país, durante a década de 60, em virtude do alagamento de terras causado pela construção da barragem do Alto Assuão e pelo lago artificial Nasser. Segundo o ministro da Habitação egípcio, Ahmed Maghrabi, graças a um acordo com a UNESCO serão preservados os 30 edifícios mais bonitos. Segundo o governador de Luxor, só 15 escaparão aos bulldozers. E como se trata de uma zona turística, acrescentou, as lojas podem ficar.