Todos
Somos todos mutantes
http://jornal.publico.clix.pt/
11.12.2007
Desde que o Homem moderno surgiu, há 40 mil anos, pensava-se que os genes humanos pouco ou nada tinham mudado. Cientistas norte-americanos afirmam agora que a nossa evolução genética nunca foi tão rápida como nos últimos milénios - com um ritmo 100 vezes mais intenso do que em qualquer outra altura da saga humana. Por Ana Gerschenfeld
O homem (e a mulher) já não são o que eram há uns meros 1000 ou 2000 anos. Uma equipa de investigadores, que publicou ontem os seus resultados na Proceedings of the National Academy of Sciences, diz que desde que o Homo sapiens reina na Terra, foi submetido a pressões evolutivas intensíssimas devido ao crescimento populacional e às alterações culturais - e que isso tem alterado substancialmente os seus genes."Não somos as mesmas pessoas de há 1000 ou 2000 anos", diz Henry Harpending, da Universidade do Utah e um dos principais autores do trabalho, num comunicado daquela instituição. Para ele, esta evolução acelerada e recente poderá explicar, em parte, a diferença entre os ferozes Vikings e os pacíficos suecos actuais. "O dogma tem sido dizer que essas diferenças são puramente culturais", frisa Harpending, "mas quase todos os traços temperamentais observados estão sujeitos a uma forte influência genética".Um outro co-autor do estudo, Gregory Cochran, da mesma universidade, diz: "A História está a ficar cada vez mais parecida com um romance de ficção-científica, com mutantes constantemente a surgir e a substituírem os humanos normais. E nós somos esses mutantes."Estes mesmos dois cientistas já tinham suscitado controvérsia, em 2005, quando da publicação de um outro estudo, onde argumentavam que os judeus asquenazes actuais (originários da Europa do Norte) têm uma inteligência acima da média porque sofreram, durante a Idade Média, uma pressão selectiva que advinha de terem de desempenhar actividades que puxavam mais pelo cérebro. Terão sido os mais bem sucedidos deles que sobreviveram melhor, que tiveram famílias maiores e que transmitiram os seus genes às gerações seguintes. (O senão, contudo, é que também passaram na sua herança algumas doenças genéticas graves.)No presente estudo, os investigadores alegam que os humanos de diferentes continentes estão actualmente a evoluir em direcções diferentes: "As populações estão a divergir umas das outras", diz ainda Harpending (em inglês, a infeliz palavra que utiliza é races). "Os genes estão a evoluir muito depressa na Europa, Ásia e África, mas quase todos são específicos do seu continente de origem. Estamos a tornar-nos menos parecidos e não a fundirmo-nos numa única e misturada humanidade."Para que não haja dúvidas, porém, esclarecem logo, no mesmo documento, que as diferenças genéticas entre seres humanos "não podem ser usadas para justificar qualquer discriminação. Os direitos inscritos na Constituição não se baseiam na igualdade absoluta. As pessoas têm direitos e devem ter oportunidades seja qual for o grupo a que pertencem."O roteiro da evoluçãoSeja como for, estes cientistas chegaram às suas conclusões analisando certas características do genoma humano a partir dos dados obtidos por um projecto internacional de mapeamento genético designado HapMap. O objectivo principal do HapMap é identificar, através do estudo dos genes de diversas populações do globo, aqueles que afectam a saúde humana. Mas, graças a este projecto, os cientistas têm agora também à sua disposição um autêntico "roteiro" das alterações genéticas que se verificaram no ADN humano - ou seja, nos nossos cromossomas - ao longo dos últimos 80 mil anos. Diga-se já agora que, na realidade, apenas 0,1 por cento da sequência molecular do ADN é diferente de uma pessoa para outra; os restantes 99,9 por cento são comuns a toda a espécie humana.Os genomas de duas pessoas diferem ao nível de minúsculas variações, de mutações pontuais chamadas SNP (single nucleotide polymorphisms). Estima-se que os SNP sejam cerca de 10 milhões e já foram mapeados, graças ao HapMap, uns quatro milhões. O HapMap foi construído a partir dos genomas de 270 pessoas originárias da China, do Japão, da África e da Europa do Norte.Isto permitiu detectar as regiões do ADN que foram recentemente alvo de selecção evolutivas. "À medida que o tempo [e as gerações] passam, os cromossomas vão sendo segmentados e recombinados", explicou Harpending ao PÚBLICO. "Mas se, a dada altura, surge uma mutação vantajosa num dado cromossoma numa população, vai reproduzir-se mais rapidamente do que outras, atingindo uma elevada frequência - sem que tenha havido tempo para essa região ser segmentada e recombinada. E as cópias desse gene na população serão todas descendentes recentes da mutação original." Foram esses sinais, essas marcas de mutações recentes, seleccionadas pela evolução, que os cientistas procuraram. E detectaram-nos em cerca de 1800 genes: cerca de sete por cento dos genes humanos!Foi a agriculturaOs motores dessas novas mudanças são as grandes alterações culturais recentes por que tem passado a espécie humana - em particular, o aparecimento há 10 mil anos da agricultura, que modificou a nossa dieta. "Por exemplo", diz-nos ainda Harpending, "a maior parte dos europeus do norte apresenta hoje uma tolerância à lactose [porque possui um gene activo de uma enzima, a lactase, que permite digerir a lactose]. A frequência da mutação é superior a 90 por cento na Dinamarca e na região à volta. Ora, essa tolerância provém de uma mutação que aconteceu há apenas sete ou oito mil anos." As doenças têm sido um outro motor da evolução, com os seres humanos a adaptarem-se geneticamente para lhes fazer face. Um exemplo conhecido é o da resistência à malária. Um outro exemplo é o do gene CCR5, recentemente identificado porque confere resistência ao vírus da sida, mas que teve origem há uns 4000 anos e que hoje existe em cerca de 10 por cento da população da Europa. Poderá ter surgido da necessidade de o organismo lutar contra a varíola.O que faz estas alterações acontecerem tão depressa é o crescimento demográfico - algo que já tinha sido percebido por Darwin. Quanto maior a população, maior a variabilidade genética - e maiores as hipóteses de alguns indivíduos terem a conformação genética que lhes permita sobreviver às novas pragas. Ora, a população humana passou de apenas alguns milhões há 10 mil anos para 6500 milhões na actualidade...A evolução acelerada vai continuar provavelmente durante algum tempo. "Alguns genes implicados na função neuronal, no tamanho do cérebro, etc., estão a mudar rapidamente", diz-nos Harpending. "Mas ainda não sabemos bem o que eles estão a fazer. Estamos também a evoluir no sentido de lidarmos com o álcool."

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home