Notícia falsa sobre invasão russa lança o pânico na Geórgia
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/15-03-2010/noticia-falsa-sobre-invasao-russa-lanca-o-panico-na-georgia-18993551.htm
Por Cláudia Sobral
Dezenas de pessoas protestaram junto às instalações da estação televisiva que queria "mostrar como seria o pior dia da história do país"
A Guerra dos Mundos
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Tanques russos invadiam a Geórgia. O Presidente, Mikhail Saakachvili, estava morto. A notícia era emitida pela estação Imedi TV, às 20h00 de sábado. Os georgianos assistiam, de repente, a um cenário que lhes avivava a memória dos episódios do Verão de 2008. A notícia era falsa, mas já a agência noticiosa russa Interfax falava numa "alegada", embora não-confirmada, entrada de tanques russos em território da antiga república soviética. Também a rádio Echo Moskvi interrompia a programação para noticiar o início de um conflito.
Em Tbilissi, as pessoas invadiram as ruas, em pânico. Num cinema, contou um repórter da Reuters, a sala esvaziou-se, porque os jovens que assistiam ao filme correram para junto dos familiares, que imediatamente lhes ordenaram que fossem para casa. E, a certa altura, as redes das empresas operadoras de telefones móveis deixaram de funcionar, tal era a sobrecarga de chamadas e de mensagens escritas.
As imagens dos tanques eram de arquivo, da guerra de Agosto de 2008, e o Presidente estava são e salvo. Houve um aviso de que a reportagem era uma "simulação de possíveis acontecimentos". Mas quase ninguém reparara na advertência que antecedera a notícia, como contou um correspondente da BBC na antiga república soviética. O pânico já estava instalado e tornou-se bem real.
O diário britânico The Guardian contou que foi preciso um antigo repórter do Sunday Times, que agora trabalha para o Governo da Geórgia, avisar os correspondentes americanos e ingleses, já todos em alvoroço com a notícia de última hora, que se tratava de informações falsas. "Não é verdade" era o que se lia no SMS.
Muitos terão associado a simulação, passado o choque, à "brincadeira" de Orson Welles na CBS Radio, em 1938, com uma invasão de marcianos (ver caixa).
O presidente do grupo detentor da Imedi TV, Georgy Arveladze, apressou-se a pedir desculpas pela confusão que a notícia tinha causado. "A ideia", explicou à Reuters, "era apenas mostrar como seria o pior dia da história da Geórgia".
Ideia "irresponsável"
Mas as justificações de Arveladze já não puderam evitar os protestos de dezenas de pessoas, que, revoltadas, afluíram, horas depois da emissão da falsa notícia, às imediações da Imedi TV. Com os manifestantes estava o líder da oposição, Nino Burjanadze, que adjectivou a ideia da estação televisiva de "nojenta", cita a Reuters.
Membros da oposição denunciaram, segundo o The Guardian, a atitude da estação, que se diz ter uma orientação pró-Governo, considerando-a perigosa e irresponsável.
A notícia falsa surgiu dias depois de Burjanadze se ter encontrado com o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, em Moscovo, para reatar o relacionamento entre os dois países.
Já o Presidente Saakachvili limitou-se a dizer, citado pelo diário britânico, que a ameaça de um ataque russo continua a ser "muito realista".
Todos parecem condenar a ideia da Imedi TV de emitir aquela notícia na noite de sábado. "Foi uma simulação muito cruel. Uma senhora com um filho no Exército teve um ataque cardíaco e morreu. Outra senhora, que estava grávida, perdeu o bebé. Muitas crianças foram levadas para o hospital com crises de stress. Foi horrível. Trata-se de um acto criminoso que devia ser punido", contou ao The Guardian o director do jornal Georgean Messenger, Zaza Gachechiladze.

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