"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

domingo, julho 03, 2005

A prova

A prova dos nove da homofobia lisboeta
http://dn.sapo.pt/2005/07/03/sociedade/a_prova_nove_homofobia_lisboeta.html
3 de Julho de 2005

na semana em que se celebrou
um casal percorreu as ruas de maõs dadas da capital
numa acção de beijos e abraços
pública, intitulada

dispara sempre
queres que te diga qual é o macho e qual a fêmea?
condenado e esconde a cara
o mundo perdido
para perceber se não vivemos todos um bocadinho

à espreita, ouvimos aqui o que ouvimos de costas
as esplanadas não são testemunhas
comecem numa mesa de café
dois homens e rapazes
um café e uma água

já há mais comentadores
entre os turistas a indiferença
um apontamento único, em inglês
umas calças iguais às minhas
um pretexto para experimentar as vendedoras
três rosas vermelhas
a oferta feita à frente da banca
com um beijo pelo canto do olho

a distracção preferida é olhar
não fala, não usa roupa colorida nem traz sinais luminosos
mutações mas depois recua
cada um faz o que quer, e se fosse o teu filho?
uma jovem mãe adverte o filho, espantado com o beijo
as rosas na mão

um grupo de raparigas cruza-se e sorri
depois do toque no braço e de uma pergunta
obrigatória
o profissionalismo de um empregado não é beliscado durante o atendimento
vejam lá isto, e assim sobram mais mulheres
eram já evidentes, antes do teste, as reacções
é normalíssimo, tenho muitos amigos
estou habituado a vê-los
não me faz confusão
a vendedora não disse nada quando vendeu
eles compraram, pagaram
e cada um é
a mulher para o homem e o homem para a mulher
mas no meu tempo já havia
alguns são uns senhores, tem a certeza
nunca vi isto como está
sempre atendidos como pessoas normalíssimas
andamos a combater fantasmas nas nossas costas
tão invisíveis quanto uma presença
é preciso trazer para a luz