"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, agosto 30, 2005

Podem ser falsas

Análise publicada na revista PloS Medicine
Maioria dos resultados de investigações biomédicas pode ser falsa
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1231622&idCanal=13
30.08.2005 - 10h51 Teresa Firmino, (PÚBLICO)

a maioria dos resultados pode ser falsa
devido à pequena dimensão de estudo
não se trata de fraude
nem científica. "É uma preocupação crescente que os resultados falsos possam ser a maioria da investigação publicada", escreve Ioannidis. "Porém, tal não deve ser surpreendente. Pode provar-se que a maioria dos resultados é falsa."Assim, o investigador explicita os factores que contribuem para esse problema, como os estudos serem feitos com amostras pequenas. "Quanto mais pequeno é um estudo numa área científica, menos provável é que os resultados sejam verdadeiros."Também o efeito medido de alguma coisa pode ser pequeno, o que pode igualmente distorcer os resultados. "É mais provável que os resultados sejam verdadeiros quando os efeitos são grandes, como o impacte do tabaco no cancro, do que quando são pequenos, como os factores de risco genéticos, em que podem estar envolvidos muitos genes diferentes", diz um comunicado da PloS Medicine. Interesses financeiros, ou outros, são outros factores que podem causar distorções. E, paradoxalmente, quanto mais na berra está uma área científica, onde por isso a competição é maior, também mais provável é acontecer essa distorção: "Com muitas equipas a trabalhar na mesma área e com dados experimentais a serem produzidos em massa, o tempo é essencial para ganhar a competição. Por isso, cada equipa pode considerar prioritário perseguir e disseminar os seus resultados positivos mais impressionantes." Aliás, divulgar resultados favoráveis ao que se quer demonstrar - por exemplo, que uma certa substância funciona para tratar um tipo de cancro - é mais fácil do que quando os resultados são negativos ou inconclusivos. "Pode tornar-se atractivo disseminar resultados negativos apenas se outra equipa encontrou uma ligação positiva. Nesse caso, pode ser atractivo refutar uma afirmação feita nalguma revista prestigiada." Alternar entre a demonstração de algo e a sua refutação e assim sucessivamente é conhecido, lembra o investigador, por fenómeno Proteu, numa alusão ao deus com capacidade de mudar de forma. "Provas empíricas sugerem que esta sequência de opostos extremos é muito comum em genética molecular", refere Ioannidis, que analisou estatisticamente os artigos científicos à luz dos factores susceptíveis de distorcer os seus resultados. Este artigo de Ioannidis surge depois de outro sobre estas questões que publicou em Julho na revista Journal of the American Medical Association (JAMA): de 45 estudos muito publicitados e citados mais de mil vezes na literatura médica, 16 por cento foi contradito ou posto em causa por estudos posteriores, com mais voluntários ou realizados durante mais tempo, e mais bem concebidos. Portanto, os primeiros resultados acabavam por não ser reproduzidos, ou confirmados, por outras equipas, um dos aspectos fundamentais no avanço científico. Apesar de tudo isto, Ioannidis considera que estas conclusões não devem levar o público a afastar-se da ciência. A refutação faz parte do seu avanço. "É saudável admitir que o conhecimento científico não é imutável e que é provável alterar-se com o tempo. Todos devemos ter um pensamento mais crítico", dizia sobre o estudo na JAMA, citado num comunicado. Em sua opinião, não existe nada de errado em publicar resultados só promissores, mas aconselha cada pessoa a informar-se sobre as limitações ou efeitos adversos das várias terapias. Atrasar a publicação também não é a solução, porque o progresso científico depende da divulgação de resultados, defende igualmente o editorial da PloS Medicine: "A publicação de resultados preliminares, negativos, confirmativos e de refutações é uma parte essencial do processo de aproximação da verdade."