Descobrimentos (parte II) com alunos e deficientes
http://dn.sapo.pt/2006/03/06/cidades/descobrimentos_parte_ii_alunos_e_def.html
6 de Março de 2006
POR Marcos Cruz
Abreu Freire foi a primeira pessoa a viajar com deficientes em veleiros-escola, barcos preparados para que jovens estudantes possam experimentar um tipo de vida totalmente diferente daquele que a sociedade terrestre lhes oferece. Aconteceu-lhe - sim, aconteceu- -lhe, porque não estava previsto - em 1982, por insistência de uma senhora, que não recuou perante os seus receios. É que os deficientes "eram surdos", conta, e "num barco passa-se muito tempo aos berros". Mas correu bem. Aliás, melhor do que ele esperava. E as sequelas não mais cessaram. Até hoje.A 2 de Maio, se todas as condições necessárias forem satisfeitas (sobretudo, concretiza, "se os patrocínios acordados se traduzirem em cash"), estará a zarpar da zona portuária de Aveiro o Fridtjof Nansen, antigo cargueiro à vela dinamarquês, construído em 1919, hoje transformado num veleiro-escola - já depois de um restauro, em 1990, que lhe trouxe de volta o encanto original. E estará a partir com o mundo debaixo de olho, ou, pelo menos, boa parte dele.Três continentes estão, desde já, inscritos no itinerário: África, Europa e América do Sul. Da Finlândia ao Egipto, da Líbia ao Brasil, do... bem, não importa enunciar, até porque a grande novidade nem vem no mapa, é a tripulação ela própria a razão desta aventura. De um lado estarão 16 estudantes universitários, do outro 16 deficientes mentais. A ideia é que, em poucos dias, uns e outros passem a estar do mesmo lado. Isto durante cerca de dois anos, em dez etapas de dois meses cada.Sem ar de quem está a dizer uma coisa óbvia, Abreu Freire esclarece que "o objectivo não é formar marinheiros". Ficamos com a impressão de que até podia ser. Mas não. "É só uma experiência única, um desafio que estes jovens não teriam de outra forma", completa. E, ainda por cima, a reboque de um princípio humano, pouco praticado: "O mundo é de todos. Sozinhos, os estudantes podiam percorrê-lo até ao fim; os deficientes não. Mas juntos conseguem". E não se reconheça nisto uma acção de caridade. "Quem é que vai proporcionar o quê a quem?", pergunta Abreu Freire, antes de rematar: "Qualquer dos grupos proporcionará ao outro o que este nunca imaginou viver".A bordo, não faltam tarefas. "Tem de haver muita disciplina e o máximo rigor. Tudo o que não for perfeição é inadmissível, por causa do perigo. Só esses dois requisitos aplicados à segurança é que fazem com que, desde o aparecimento dos veleiros-escola, não haja um registo significativo de acidentes", sublinha o comandante, antes de desdramatizar: "Ir daqui ao Brasil neste veleiro é menos perigoso do que de Aveiro a Viseu no IP5". Mais a mais, pelo facto de haver deficientes na tripulação, "a segurança do barco foi reforçada". É que, se por acaso caísse alguém à água, "as chances de se salvar seriam poucas", diz.Mas para quê pensar em desgraças se graça é o que tem de sobra esta viagem? "Tudo o que eles fizerem vai ser aos pares: um deficiente, um universitário. Têm todos de puxar pelos cabos, lidar com as velas, fazer a limpeza do barco, participar na confecção da comida, lavar as suas roupas e ter tudo bem organizado". Depois, e só depois, é que vem o lazer, ou algo assim: "Momentos de lazer total praticamente não há. As pessoas distribuem-se pelos três turnos de trabalho definidos, ficando cada uma com dois de quatro horas. Outras oito horas são para dormir - e às vezes não chega, que isto cansa muito. Mas vamos levar diversos filmes e cerca de dois mil livros para as horas vagas."Terminada a aventura, "o importante é que todos digam o que sofreram e as alegrias que tiveram, e que em conjunto tiremos as nossas ilações", refere Abreu Freire. Isto porque, ao contrário do que se poderia esperar de um professor universitário como ele (ainda que em fase de licença sem vencimento), não há qualquer tese por comprovar na base do projecto. "É uma viagem puramente experimental. O que vamos fazer a seguir vê-se... a seguir. Não vou partir com preconceitos de espécie nenhuma", garante.

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