"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, abril 18, 2006

Já não existe

Procissão ainda percorre as ruas de uma aldeia que já não existe
http://dn.sapo.pt/2006/04/18/cidades/procissao_ainda_percorre_ruas_uma_al.html 18 de Abril de 2006
POR Roberto Dores


São Gregório já foi uma aldeia, hoje é uma aldeia turística. O único elemento de ligação à comunidade é a igreja de S. Gregório, o Santo que sai à rua todos os anos, como ontem.Para quem chega, não é fácil compreender o que leva os populares de Rio de Moinhos, de Borba, a terem tanta devoção por São Gregório. Ao ponto de a capela lá do sítio ser pequena para receber tantos fiéis em mais uma segunda-feira de Páscoa. Pelo menos metade passaram ao lado da missa. Afinal, a prioridade era mesmo marcar presença na procissão, na única vez no ano em que a capela se abre para deixar sair São Gregório à rua. A procissão está cá fora. O pendão vem à frente e logo atrás segue São Gregório, carregado por ombros femininos. A devoção está patente entre mais de 300 pessoas. O santo avança por entre as vinhas a perder de vista, enquanto a banda de Borba marca o ritmo. Lá no ar vão rebentando foguetes, para que bem se perceba que o dia é de festa na integralmente restaurada Aldeia de São Gregório ( ver caixa)."Costuma chover, mas hoje escapa", diz-nos quem melhor conhece a efeméride. E parece que sim. Mas ontem aconteceu o inverso. Ameaçou durante toda a manhã, mas o vento amainou quando o santo saiu da igreja e nem o sol quis perder o cortejo. Sempre por terra batida, a procissão deu meia-volta após percorrer os 300 metros e regressou à capela. Não sem antes ser licitado o pendão. Um ritual que serve para ajudar à manutenção da igreja. "São 50 euros, para começar", gritou alguém, mas rapidamente a parada subiu e chegou aos 2500 euros. Foi Marcolino Sebo que arrematou o pendão, mas entregou-o a uma senhora que tem a filha desempregada. "É para ver se ajuda", justificou, explicando o padre António Silva ser este "convívio humano e grande camaradagem", que torna esta festa especial. "Sem a parte humana, a parte religiosa não faz sentido", admite o pároco, para quem sem um rol de boas vontades "era impossível manter estas tradições e aldeias com vida, porque as contribuições que se pagam ao Estado inviabilizam e desmotivam as pessoas", diz o padre António Santos.Mas o que leva alguém a arrematar o pendão por 2500 euros? Marcolino Sebo confirma que a ideia é não deixar acabar esta tradição, revelando ter comprado a propriedade que circunda a aldeia de São Gregório e, como tal, acha-se no dever de contribuir para animar a terra. É verdade que após o 25 de Abril a tradição sofreu uma quebra, mas o pessoal da terra não desistiu. Aos poucos retomou a tradição e reconstruiu a capela. As dezenas de fiéis que apareciam nas "páscoas" dos anos 80, deram lugar às centenas actuais, que em dias de bom tempo já chegaram perto do milhar. É que depois da procissão, os fiéis espalham-se pelos campos da zona, onde comem o borrego. "Cuidem desse campo como se fosse o vosso quintal!", apelou uma voz ao megafone. Era o Sr. Vivas, um dos principais responsáveis pelo fenómeno de popularidade que hoje caracteriza São Gregório. Foi ele que há 15 anos iniciou as obras na igreja, com recursos do próprio bolso. Houve mesmo um ano em que o pendão deu pouco, mas logo alguém avançou com o que faltava.