"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, março 16, 2007

Polónia purifica passado comunista
http://dn.sapo.pt/2007/03/16/internacional/polonia_purifica_passado_comunista.html
16 de Marco de 2007
POR Luis Naves

Entrou ontem em vigor na Polónia a nova lei da purificação, que obrigará 700 mil polacos a confessarem qualquer ligação ao regime comunista. A medida aplica-se a funcionários com mais de 35 anos e destina-se a detectar antigos informadores ou membros dos serviços secretos que estejam hoje em funções sociais importantes, como ensino e jornalismo, ou a tomar decisões na administração pública.Podem estar em causa milhares de carreiras. A obrigação de confessar ligações ao antigo aparelho comunista também se aplicará aos administradores das empresas cotadas na bolsa de Varsóvia, nomeadamente bancos. Os críticos acusam a lei de ser anti-constitucional (ela está a ser desafiada no Tribunal Constitucional), ou de poder servir para intimidar os que contestam o Governo conservador de Jaroslaw Kaczynski, que dirige o país com o seu irmão gémeo, o Presidente Lech Kaczynski.A nova purificação agrava um diploma anterior, que se aplica a cerca de 27 mil cargos, nomeadamente a todos os lugares eleitos, membros do Governo, altos funcionários do Estado e oficiais superiores das forças armadas.Estima-se que a análise do enorme número de novos casos crie um pesadelo burocrático. O estudo de cada dossier poderá estender-se até 2023, afirmam os críticos da iniciativa. Quem não cumprir as regras, arrisca-se a ser afastado por dez anos da respectiva profissão, embora ninguém se atreva a prever os efeitos dos saneamentos, já que a lei abrange os serviços públicos, as universidades, os institutos científicos e toda a comunicação social. Revisão da HistóriaA lei da purificação surge no âmbito da revisão da História lançada pelo Governo conservador, uma coligação dominada pelo Partido da Lei e da Justiça, PiS, dos gémeos Kaczynski. A direita polaca considera que o país nunca fez o seu ajuste de contas com o comunismo. O período pós-comunista foi marcado por privatizações que beneficiaram os membros do antigo regime (o que justifica a inclusão das empresas cotadas), além de manobras que comprometeram políticos democratas. Jaroslaw Kaczynski não hesitou em decapitar os serviços militares de informação, por considerar que estes estavam cheios de "infiltrados".Para a oposição, está lançado um processo de "caça às bruxas", sem contemplações, como demonstra o projecto que envolve os antigos brigadistas (ver peça nesta página). A questão da História é também o tema da crescente má relação da Polónia com Alemanha e Rússia.Não há estimativas sobre o número de informadores da polícia secreta comunista polaca. Na Alemanha de Leste, onde os arquivos da Stasi ficaram nas mãos das autoridades alemãs, calcula-se que um quarto da população (4 milhões de pessoas) colaborava activa ou passivamente. Na Polónia, a proporção é certamente inferior, mas a divulgação selvagem de pormenores já destruiu a reputação de muitos polacos que lutaram pela democracia, mas que constavam dos ficheiros como informadores passivos.