"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, março 13, 2007

Robert Mugabe justifica a demonização?
http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain%2Easp%3Fdt%3D20070313%26id%3D10996194
13.03.2007,
Ana Dias Cordeiro

Mugabe, Presidente do Zimbabwe há quase 30 anos, mandou prender o seu principal rival político este fim-de-semana. Nada de novo em África. Mas porquê, então, é que o antigo herói é persona non grata no Ocidente?
a aquilo que há pouco tempo parecia impossível está afinal bem presente na mente do presidente do zimbabwe. robert mugabe, que lidera o país há 27 anos, quer concorrer a um novo mandato nas eleições presidenciais de 2008. terá 84 anos.
se o seu partido concordar, não vê razões para não avançar, declarou mugabe ao the southern times, da região, este domingo. e se o aparelho do estado, controlado pelo seu partido zanu-pf, instalar um sistema de fraude tão eficaz como aquele que a oposição e a comunidade internacional dizem ter vigorado nas legislativas de 2005 ou nas anteriores presidenciais de 2002, mugabe terá fortes probabilidades de continuar na presidência por mais seis anos. até 2014, quando fizer 90 anos.antes disso, porém, terá que fazer uma pequena emenda... na constituição. o que não será difícil: tem uma maioria de dois terços no parlamento desde 2005, quando a oposição, muito fragilizada, recusou aceitar os resultados eleitorais perante a "fraude" e a "violência política".os sinais são desde já preocupantes com a nova onda de repressão contra membros da oposição este fim-de-semana. morgan tsvangirai, que lidera o principal partido da oposição, mdc, foi detido no domingo com dezenas de opositores, e segundo o seu advogado, violentamente agredido na prisão.episódios como este não são novos no zimbabwe, onde são também comuns as proibições impostas à imprensa privada - quase inexistente -; as fraudes em eleições onde é proibida a presença de observadores ocidentais; as prisões arbitrárias de jornalistas, políticos e sindicalistas em acções de protesto contra o regime; ou os despejos forçados, em 2005, de 700 mil pessoas dos bairros degradados das cidades, zona tradicional da base social de apoio da oposição.muito antes disso, já eram evidentes os sinais de mugabe - eleito em 1990, 1996 e 2002 - de querer perpetuar-se na presidência do zimbabwe.mas foi a campanha de ocupação das terras dos fazendeiros brancos que mais chamou a atenção internacional para a violência do seu regime - o pico da campanha foi em 2002.suspensãoa grã-bretanha, de onde são originários muitos dos fazendeiros brancos do zimbabwe, liderou a campanha para o isolamento internacional de harare, com resultados concretos logo nesse ano. a commonwealth suspendeu o zimbabwe como membro da organização. a união europeia impôs sanções direccionadas a 20 figuras próximas do regime de mugabe, que ficaram impossibilitadas de se deslocar à europa e viram as suas contas bancárias congeladas. meses depois, as sanções passaram a abranger mais 52 pessoas, incluindo familiares de mugabe, como a sua actual mulher. grace, a antiga secretária (sua) que mugabe escolheu para sua segunda mulher, 40 anos mais nova, tem sido especialmente criticada pela imprensa local e ocidental por ser uma pessoa de hábitos luxuosos ao mesmo tempo que a pobreza alastra. grace é associada à corrupção do regime; a primeira mulher do presidente, sally hayfron, que morreu em 1992, liderava o movimento das mulheres pela independência.observadores associam esta viragem pessoal de mugabe à sua viragem política. a mesma que pôs fim ao seu estado de graça de herói da libertação; a viragem que abriu o ciclo do "típico ditador africano", como lhe chamou o bispo sul-africano desmond tutu (nos mesmos anos em que tutu lutava contra o apartheid, mugabe lutava contra o regime branco na rodésia de ian smith).entre os três vitalícios no seu país e em toda a áfrica, mugabe foi um herói, como outros líderes históricos dos movimentos pela independência. mas enquanto outros aceitaram o sentido da história, saíram do poder, por vontade própria, por derrotas eleitorais ou porque morreram, mugabe mantém-se no mesmo lugar. "mugabe foi um herói. hoje já não é", disse ontem por telefone john gambanga, director do daily news, jornal independente de harare, encerrado por ordem judicial há quatro anos. "hoje é o responsável pelo colapso da economia."o líder, que esta semana reconheceu que assim quer permanecer, está entre os três chefes de estado há mais tempo no poder na áfrica subsariana. os outros são omar bongo, presidente do gabão desde 1967, e josé eduardo dos santos, que substituiu agostinho neto em 1979 na presidência de angola.ditadura de uma pessoaestá então mugabe à frente de uma das piores ditaduras do mundo? justifica-se que a europa imponha sanções ao seu regime? ou que os eua incluam o zimbabwe na lista dos seis "postos avançados de tirania", a par da coreia do norte, birmânia, irão, bielorússia e cuba?ou, pelo contrário, o regime do zimbabwe não é tão repressivo como os de outros líderes aceites pelas diplomacias ocidentais? existem, dentro e fora de áfrica, regimes mais próximos da definição de ditadura do que o zimbabwe, diz o professor e investigador para áfrica do instituto de estudos estratégicos internacionais, fernando jorge cardoso. regimes com os quais a europa se relaciona ou liderados por figuras que os europeus chegam a apontar como modelos de uma nova geração de dirigentes. meles zenawi da etiópia, onde se dão graves violações dos direitos humanos. ou o regime de partido único de isaías afewerki na eritreia, onde a actividade política está vedada a outras forças."mugabe é um ditador. o regime é uma ditadura pessoal", começa por dizer fernando jorge cardoso. mas ao contrário de outros países, as instituições do zimbabwe funcionam, a justiça é mais independente do que seria de esperar numa ditadura, há eleições, embora com fraudes, e partidos da oposição, embora com fortes restrições. há prisões arbitrárias e violência política, mas fernando jorge cardoso não duvida que, a aplicarem-se os mesmos critérios que a europa aplica a harare, muitos líderes seriam alvo de sanções e muitos países estariam isolados como hoje está o zimbabwe.a impossibilidade de mugabe se deslocar à europa, devido às sanções impostas pela ue, tem sido um dos principais obstáculos à realização da cimeira europa-áfrica. londres recusa a sentar-se à mesa com mugabe. a união europeia apoia londres. ao mesmo tempo, a união africana tem recusado participar numa cimeira sem robert mugabe. agora lisboa dá como certa a realização da cimeira em lisboa, no segundo semestre deste ano, durante a presidência portuguesa da ue. é um sinal de que o impasse estará ultrapassado e de que a europa poderá abrir uma excepção às sanções, invocando a importância do encontro internacional.as sanções europeias ao zimbabwe explicam-se mais pela deterioração das relações bilaterais entre a grã-bretanha e o zimbabwe e menos como uma justificação para a demonização, diz fernando jorge cardoso. para isso, contribuiu a capacidade de londres arrastar consigo toda a europa no isolamento de mugabe e o facto de a opinião pública britânica - "a mais forte de todo o mundo" - ter conseguido "apoiar e ao mesmo tempo pressionar" o governo britânico nesta política anti-mugabe.há pesos e medidas diferentes para analisar áfrica? a comunidade internacional não se tem pronunciado sobre a ausência de eleições em angola desde 1992; e no gabão acolheu como livres e justas as últimas presidenciais de 2005 que deram a omar bongo uma vitória de 80 por cento dos votos.no zimbabwe, as eleições preocupam dentro e fora do país, como factor que legitima um regime autoritário que levou o estado, antes próspero, a mergulhar num abismo. a inflação ronda os 1700 por cento, o desemprego afecta 80 por cento da população. a produção industrial acompanhou a queda da produção agrícola e das exportações.ontem, o zimbabwe standard, de harare, tinha uma certeza: o anúncio de mugabe vir a recandidatar-se acaba com as esperanças de uma retoma da economia e da normalização das relações diplomáticas com o exterior.