"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Acusação de plágio agita mundo da música clássica
http://dn.sapo.pt/2007/02/21/artes/acusacao_plagio_agita_mundo_musica_c.html
21 de Fevereiro de 2007
POR José Mário Silva

Até ao início deste ano, o nome de Joyce Hatto era uma espécie de segredo que certos melómanos partilhavam com o fervor e a entrega típica dos fenómenos de culto. Pianista discreta, Hatto abandonara os palcos na década de 70, devido a um cancro, dedicando desde essa altura toda a sua energia à gravação em estúdio de um repertório vastíssimo, que ia de Scarlatti a Messiaen, passando pelos grandes ciclos de sonatas (Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Prokofiev) e por interpretações "miraculosas" dos compositores considerados mais difíceis (como Liszt ou Rachmaninov).Após uma primeira onda de euforia, em que os discos de Hatto, publicados pela minúscula etiqueta Concert Artist (pertencente a William Barrington-Coupe, seu marido), foram postos nos píncaros pela crítica das revistas especializadas, chegou o balde de água fria. Já depois da sua morte em Junho de 2006, aos 77 anos, começaram a surgir rumores na internet que punham em causa as suas interpretações. Como é que uma mulher doente conseguiu gravar num período tão curto (cerca de dez anos) um número superior a cem discos de alta qualidade, com obras dos compositores mais diversos?No auge da especulação, um crítico da Gramophone, Jeremy Nicholas, escreveu um artigo em que pedia, a quem as tivesse, provas materiais de alguma ilicitude relacionada com Hatto e os seus discos. Mas ninguém se chegou à frente.Foi preciso esperar por um golpe do acaso para que o escândalo rebentasse. Na semana passada, Jed Distler, outro crítico da Gramophone, ao colocar o disco com os 12 Estudos Transcendentais de Liszt, por Hatto, no seu computador, viu o software iTunes identificar correctamente a obra, mas não a intérprete. Segundo a máquina, o ficheiro de som pertenceria antes a um disco de Lászlo Simon - informação que Distler confirmou, ao ouvir a gravação original do pianista húngaro.Para tirar tudo a limpo, a Gramophone pediu a Andrew Rose, um engenheiro de som, que comparasse as ondas sonoras dos discos "suspeitos" de Hatto com as dos registos supostamente plagiados ou manipulados. O veredicto foi arrasador: para além de Simon, Hatto terá clonado interpretações de Carlo Grante, Bronfman ou Ashkenazy, diz Rose. E a investigação ainda agora começou. Perplexo com a polémica, Barrington-Coupe nega todas as acusações, prometendo apresentar em breve as provas da sua inocência.