Histórias arcaicas de amor e de morte
http://dn.sapo.pt/2007/02/14/artes/historias_arcaicas_amor_e_morte.html
14 de Fevereiro de 2007
Miguel-Pedro Quadrio
Dez anos depois de Contos do Ócio, o seu primeiro projecto, o encenador Francisco Salgado e o produtor Nuno Ricou Salgado regressam à Comuna, onde se estrearam, celebrando uma frutuosa parceria artística com este Cerejal para dois actores.Liubov, a proprietária arruinada que volta ao cerejal, e Ermolai Lopákhin, um enriquecido descendente de servos de Liubov, que lho compra, são os rostos deste par, neles se subsumindo as doze personagens nomeadas na última peça do dramaturgo russo (estreou-se em Janeiro de 1904, morrendo Tchékhov em Junho).Esta desestruturação da urdidura plural do texto sinaliza-se, primeiro, através do contraste cromático que transforma o palco num ilusório prisma de luz (paralelamente à plateia, pinta-se um feixe branco na parede e no chão que contrasta com o negro dominante). Por único adereço, escolhe-se um móvel tosco, também branco, com várias gavetas (remissão óbvia para o "querido armariozinho" que Liubov reencontra, comovida, no "quarto das crianças").A vincada recriação abstracta da queda da protagonista - e da concomitante ascensão da nova classe que Lopákhin corporiza - situa-nos, pois, num rarefeito horizonte simbolista. Ora a vaga, mas irrecusável, sombra de morte com que Tchékhov brincou - não se esqueça que O Cerejal é "uma comédia em quatro actos" - transfere-se, aqui, para o luto pesado envergado pelos actores, que os muda em espectros dum passado por resolver (a venda do cerejal e da mansão rural onde Liubov cresceu, viu morrer o seu filho e regressa quando de si mesma se perde, privá-la-á de memória e de sentido, ao mesmo tempo que Lopákhin, resgatando o seu passado de servidão, desbarata a hipótese de Liubov vir a corresponder ao seu amor).Os fragmentos textuais seleccionados são suficientes para clarificar esta arrebatada perspectiva passional, onde o tempo esmaga tudo. Os silêncios pesados, a vertiginosa lentidão de movimentos estilizados, a alternância com picos de histeria (sublinhados pelo som alucinatório e arcaico duma "orquestra judaica", como Tchékhov desejou), as imagens fortíssimas da orgia emocional provocada pela manipulação selvagem da terra arrancada às gavetas são algumas das estratégias inteligente e eficazmente transdisciplinares que esta dupla de criadores tão bem domina. Pena é que a imaturidade artística de Mia Farr e Wagner Borges comprometa irremediavelmente os objectivos interpeladores e arrojados da proposta.

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