"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Suicídios, humor negro ou publicidade ilegal? Sónia Morais Santos
http://dn.sapo.pt/2007/02/14/sociedade/suicidios_humor_negro_publicidade_il.html
14 de Fevereiro de 2007
POR Sónia Morais Santos

"A vida não é fácil, e nem sempre corre como queremos. A pergunta subsiste: vale a pena? " António estacou no meio da rua, com o prospecto na mão. Olhou para trás, em direcção a quem lho havia entregue, ergueu o sobrolho e não quis acreditar. Seria possível haver em Portugal uma empresa dedicada a suicídios por encomenda? O prospecto que começou a ser distribuído anteontem ao fim do dia em Lisboa e no Porto surpreendeu uns, inquietou outros, e deixou a curiosidade no ar. Em menos de 10 horas, o site que o folheto recomendava (www.suicidoencomendado.com) foi visitado por mais de mil pessoas. Ao aceder à página na internet, o suspense persiste. Há promoções de suicídio - "Traga um amigo e beneficie de um desconto de 50%" -, a definição da empresa não ajuda ao esclarecimento - "Somos uma empresa jovem, obstinada por prestar um novo serviço à sociedade condizente com o motivo pelo qual cada cliente deseja pôr termo à vida" - e apesar do humor presente em todo o site, não se chega a perceber do que se trata, afinal.Na origem de tudo isto não está uma empresa de morte a mando mas sim... um filme. "Suicídio Encomendado" é a primeira longa-metragem de Artur Serra Araújo e é o filme que vai dar início, no dia 23 deste mês, a mais uma edição do Fantasporto. Francisco Bravo Ferreira, da FBF Filmes, responsável pela produção do Suicídio Encomendado, explica que a campanha demorou mais de dois meses a ser pensada e que se distribuíram 30 mil folhetos. As visitas à página na internet foram tantas que o site chegou a ficar indisponível. "Esperamos que todas essas pessoas vão depois ver o filme", afirmou Francisco Bravo Ferreira.Para Margarida Moura, especialista em publicidade da Deco, a campanha pisa o risco: "Além do nítido mau gosto e de ser eticamente reprovável, ainda viola o princípio da identificabilidade. Toda a publicidade tem de estar identificada como tal. E ainda pode violar o princípio da licitude, porque o valor da vida está consagrado na Constituição. Apesar do conteúdo do site ser humorístico, não é possível saber se não haverá quem o leve a sério. Com todos os perigos inerentes." A polémica está criada. Como seria de prever.