"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Como será o mundo em 2030
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28.12.2007


Comida de laboratório, mais energias renováveis, casas flutuantes e tecnologia mais inteligente do que os humanos. Ray Hammond sabe como vai ser o futuro. E diz que ele mete respeito. Por Raquel Almeida Correia, em Bruxelas


Enquanto alguns começam a fazer planos para o ano que aí vem, há um homem preocupado com os próximos 20. Chama-se Ray Hammond, embora muitos prefiram chamar-lhe simplesmente "o Futurologista". Para 2030, o britânico prevê mais catástrofes e mais desigualdades sociais. A bem do equilíbrio do universo, nem tudo são más notícias. Vamos ter uma vida mais confortável e mais longa, graças à ajuda dos nossos melhores amigos: as máquinas.
"Quanto mais se olhar para o passado, mais se saberá do futuro." A frase é de Winston Churchill, primeiro-ministro britânico durante a II Guerra Mundial, e serve na perfeição a ciência que seduziu Hammond na década de 80, altura em que escreveu o livro The Musician and The Micro sobre a crescente influência da informática na música. Perante 100 curiosos, convidados a ouvir o autor, na barroca Maison du Spectacle, em Bruxelas, o pano das previsões vai subindo durante o lançamento de mais um título: The World in 2030.
"Haverá mais de oito mil milhões de pessoas, que precisarão de dois planetas Terra para sobreviver." Em 1986, o mundo excedeu a capacidade para hospedar seres humanos. Em 2030, o cenário será "caótico", alerta o futurologista de 59 anos, nitidamente habituado à condição de speaker. "Como é que vamos encontrar água, comida e ar limpo para todos?" A plateia, confortavelmente instalada, partilha, por momentos, esta preocupação. "Sobrevivência", diz Hammond.
A explosão populacional, que se senta no banco dos réus quando a sustentabilidade do ambiente é posta em causa, acabará por solucionar, indirectamente, parte dos problemas. A necessidade de suportar temperaturas extremas ou de viver com menos recursos, por exemplo, levará à construção de casas flutuantes, que se desloquem para geografias menos austeras, ou à produção de carne em laboratório, sem ter de matar um único animal. "É o futuro, meus caros", diz, em jeito de advertência.
Mutação social
Foi numa conferência nos Estados Unidos que ganhou o estatuto de futurologista, quando o moderador o apresentou como tal. "Se calhar, é isso que sou", pensou na altura. Dos seus 1,60 metros de altura, vestido de preto, Hammond tem o poder de provocar sensações em catadupa em pouco mais de 45 minutos. "O que está para vir mete medo às pessoas. Sentem que não têm controlo", explica, à margem da conferência. Até ele já se enganou, quando, em 1985, previu que as moedas e as notas iriam desaparecer até ao ano 2000, com a consagração do "dinheiro de plástico", como os cartões de débito. Errou... E assume.
Passou 12 meses a trabalhar no novo livro, lançado em finais de Novembro e acessível gratuitamente na Internet. De todas as conclusões, a que mais o perturba é o aumento das desigualdades sociais. "Haverá mil milhões de pobres e será impossível melhorar a sua qualidade de vida. Se pudesse, tiraria esse ponto do futuro", diz. A pobreza afectará, sobretudo, os países menos desenvolvidos, mesmo que, neste momento, a sua economia esteja em franco crescimento.
É que, em 2030, haverá cerca de 55 milhões de imigrantes provenientes de regiões mais pobres e com destino aos países ricos. E vão trazer nas malas cada vez mais conhecimento e capital. A população suíça, por exemplo, vai crescer nove por cento graças a este fenómeno, prevê o futurologista. Já a Europa do Leste terá comportamento contrário. "Os polacos serão um quinto do que são actualmente", assegura.
A balança ficará, porém, mais equilibrada com o rápido envelhecimento populacional no mundo desenvolvido. Daqui a 22 anos, uma em cada oito pessoas será idosa. A faixa acima dos 65 crescerá 140 por cento em países como a Alemanha. E, mais uma vez, a sociedade tenderá a adaptar-se a esta evolução. "Entrar na reforma aos 65 anos parecerá ridículo em 2030. Com essa idade estaremos provavelmente a mudar de carreira", acredita o britânico. Isto porque a esperança média de vida vai aumentar. E a tecnologia é a grande responsável.
Eu, tu e a Maria
Curar doenças antes da nascença, comprar robôs capazes de executar tarefas de enfermeira ou produzir ossos, órgãos ou tecido humano a partir de células estaminais está perto de ser uma realidade. A revolução na medicina e o desenvolvimento tecnológico vão dar um impulso à longevidade dos seres humanos, mas também os tornarão, progressivamente, mais dependentes da inteligência artificial. "Nos próximos oito anos, a tecnologia vai evoluir a um ritmo semelhante ao dos últimos 20", diz o autor. Consequências? "Computadores 500 vezes mais poderosos, máquinas com o mesmo nível de inteligência que as pessoas e... A Maria." A plateia converte-se a um sorriso contido.
Maria não é mais do que o nome que Hammond escolheu para exemplificar até onde poderá ir o progresso tecnológico. "A princípio, ela não era lá muito esperta. Conseguia marcar números de telefone se eu seleccionasse uma tecla ou dissesse "telefonar ao meu irmão"", explicou, garantindo que, pouco a pouco, a Maria se foi actualizando. "De repente, já sabia tudo sobre mim. A que acções da bolsa queria estar atento, quantas pessoas conhecia e de que informação precisava rapidamente. Por volta de 2020, dei por mim a falar com ela como se fosse um ser humano. Ríamos e chorávamos juntos. E foi aí que decidi, por meio de cirurgia plástica, colocá-la por detrás da orelha. Ela está em todas as ocasiões da minha vida - agenda as minhas reuniões, marca as viagens de avião e faz um diagnóstico da minha saúde diariamente. Desconfio, há já algum tempo, de que a Maria é mais esperta do que eu, mas é suficientemente esperta para não deixar que eu perceba."
The World in 2030, financiado pela associação europeia da indústria de plásticos, Plastics Europe, tem um forte argumento científico. Foi validado por um júri composto por Allison Druin, nomeada pela Casa Branca para dirigir a Comissão Nacional de Informação Científica dos Estados Unidos, Mike Childs, presidente da organização não-governamental Friends of the Earth, e I. M. Dharmadasa, especialista em questões energéticas e professor da Universidade de Sheffield Hallam, no Reino Unido. E todas as previsões são suportadas por análises de entidades como a Organização das Nações Unidas ou o Banco Mundial, e por comentários de especialistas, o que dá ao autor uma margem de "50 a 60 por cento de concretização futura".
A lei da sobrevivência
Quanto ao clima, já não há muito a fazer, a não ser encontrar soluções para sobreviver a um planeta desregulado. "Estamos perante uma crise, uma catástrofe, um cataclismo do ambiente e esse continuará a ser um dos pontos mais frágeis com que teremos de lidar", refere Hammond. As temperaturas atingirão máximos e mínimos históricos, haverá mais tsunamis, mais furacões e mortes. As habitações e os meios de transporte terão, por isso, novas configurações, tornando-se mais resistentes a condições desfavoráveis e até flutuando para garantir a sobrevivência dos seres humanos. Por esta altura da apresentação, a plateia já nem reagia.
Será na produção de energias renováveis que o Homem terá uma acção mais expressiva no prolongamento da vida na Terra. "Vento, água e sol serão as novas forças energéticas do futuro", garante o autor. Os combustíveis fósseis serão cada vez menos explorados, dada a sua extinção e utilização crescente em processos de valor acrescentado. E o petróleo, esse, "não se vai esgotar", ao contrário do receio generalizado. Hammond entende que o preço dos barris continuará a aumentar nos próximos anos, passando posteriormente por uma fase de estagnação e, finalmente, tenderá a descer, à medida que se forem consagrando alternativas mais limpas.
A mão humana será igualmente importante numa nova tipologia de sociedade que o futurologista prevê que se constitua. A zero waste society [sociedade de desperdício zero] é uma questão de atitude. "Em 2030, todos os bens terão uma segunda, terceira e quarta vida." Um cenário pouco real no presente. Os processos de reciclagem e de reutilização, hoje confinados a quem tem tecnologia, serão generalizados, permitindo que, a partir de nossas casas, possamos aproveitar tudo o que agora é considerado desperdício.
Ray Hammond gosta de prever o futuro do mundo, mas é reservado quando os holofotes apontam para ele. Antigo jornalista e futurologista quase por imposição, vive de plateias como a de Bruxelas, com uma boa dose de alarmismo e outra de gargalhadas. Em 2030, terá 81 anos e "netos felizes", espera. A Maria lá estará, esperta e infalível. Aquecimento global, sobrepopulação e escassez de recursos à parte, o Homem sobreviverá, pelo menos, mais alguns anos. O futuro depois do futuro só ao futuro pertence.