Memórias
Memórias de um oficial nazi
por Jonathan Littell http://dn.sapo.pt/2007/12/16/artes/memorias_um_oficial_nazi_jonathan_li.html
JOÃO CÉU E SILVA
Memórias de um oficial nazi por Jonathan Littell
O relato "autobiográfico" e desgraçado de um actor da II Guerra Mundial
Está há uma meia dúzia de dias nas livrarias um calhamaço de 895 páginas de capa vermelho/bordeaux, dividido em oito capítulos sem muitos parágrafos e dois apêndices, que tem na capa, além do cavaleiro símbolo da editora Dom Quixote, mais vinte e nove letras que compõem o nome do autor e o título do livro: Jonathan Littell - As Benevolentes. É um volume que não deverá passar despercebido ao leitor português, quanto mais não seja pela sua espessura, e que surge traduzido por Miguel Serras Pereira um ano depois da sua publicação em França. Uma edição que surpreendeu os habitantes daquele país por ser inesperado o aparecimento de um "primeiro romance" de um autor desconhecido - não fosse o apelo do nome paterno (Robert Littell), ninguém imaginaria de onde surgia esta estrela cadente - que chocou os sobreviventes do segundo grande conflito bélico do século passado pela recuperação de uma temática que já se considerava enterrada e suficientemente (de)cantada em romances, biografias, memórias e ensaios; que espantou os leitores de meia idade por terem à mão um novo e denso texto que revela particularidades inesperadas sobre factos da vida que os seus pais e avós não lhes tinham contado; que aos mais novos fez descobrir um momento da história do planeta que apenas é um bom ponto de partida para uma óptima trama livresca... E que deixou em estado de aflição o mercado literário gaulês por ser grandioso, inesperado e arrebatador de todas as atenções da rentrée literária de 2006, visto não ser normal um livro escrito por alguém nascido em Nova Iorque (em 1967) vir baralhar o momento mais aguardado pelos editores daquele país.Confesso que, tal como os críticos da revista Lire se surpreenderam e, decorrentemente, abriram o apetite aos que ainda lêem magazines literários, fiquei extremamente curioso em ler Les Bienveillants. Fiz a primeira leitura por meio livro importado, um dos habituais volumes de capa amarela editados pela Gallimard, e terminei-o agora nesta edição nacional de capa discreta mas sedutora. E a leitura que se completou mostra que este será um dos livros do ano editados em Portugal, porque é impossível resistir à dramática descrição dos últimos meses da vida de guerra contados na primeira pessoa por um oficial nazi que colaborou na escrita das páginas mais negras de um regime totalitário que um senhor de bigodeco e nariz pouco ariano (como bem e ferinamente descreve o autor à página 871) tentou implantar na década de 30 a partir da Alemanha.É bom que esta tradução intitulada As Benevolentes tenha sido apenas publicada por cá neste período de Natal e em fim de ano para que o interesse que venha a despertar não provoque o mesmo fenómeno de sucção que criou em França, onde a habitual onda de interesse criada pelos novos livros lançados após as férias de Verão se esfarelou ainda em mar alto porque os leitores franceses ficaram submersos pela grandiosidade do livro e ignoraram a maioria dos outros volumes publicados em simultâneo, tal foi a ocupação mental que este livro de Littell fez nos cérebros franceses. Por cá, decerto que não superará em vendas os êxitos de José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares e J. K. Rowling e não se tornará, por isso, um dos quatro cavaleiros do Apocalipse ao serviço dos lucros do mercado editorial. Mas, com toda a certeza, será um livro que irá despertar interesse porque é impossível ignorá-lo tal é a força da sua prosa. O plot que Jonathan Littell descreve ao correr de tantas páginas é imperdível e faz lembrar que existe na nossa história mais recente uma guerra colonial que merecia ser contada deste modo, com todos os seus pormenores sórdidos. Diga-se que este As Benevolentes nasce de um longo período de maturação por parte de Jonathan Littell. Segundo o autor, a sua génese está nos tempos de faculdade, quando se deparou com uma fotografia que mostrava um russo morto pelas tropas nazis, uma imagem que servia de ícone à propaganda de guerra soviética. Uma dúzia de anos de maturação serviram de incubadora para o romance que viria a escrever após um ano e meio de pesquisa e num fôlego de (apenas) quatro meses para uma primeira versão. A estrutura do livro foi buscá-la a Ésquilo e à sua Oréstia, a vivência dos tormentos da guerra vieram de uma viagem de seis meses pela Ásia Central, de seis meses de entrega ao cuidado de órfãos russos, de quinze meses a ver de perto o conflito com a Chechénia e de uma passagem por Sarajevo. Depois destas visões do mundo actual, o filho do escritor de romances de espionagem Robert Littell (que alguns apontaram como sendo o verdadeiro autor da obra) estava pronto para fazer a descrição dos últimos dias de guerra do oficial alemão, de origem francesa, Maximilien Aue e contar as suas memórias ao serviço das SS. E assim nasceu As Benevolentes que, inesperadamente, ganhou o Prémio Goncourt e o da Academia Francesa, galardões que os franceses não estão acostumados a dar a estrangeiros e que este mereceu por ter sido escrito na sua cada vez mais ignorada língua.Um livro para começar a ser lido ainda antes do fim deste ano de 2007!

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