"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, março 04, 2008

Elas pensam no abstracto... ... Eles têm imagens e sons
http://dn.sapo.pt/2008/03/04/ciencia/elas_pensam_abstracto__eles_imagens_.html
FILOMENA NAVES

Já se sabia que as competências linguísticas de rapazes e raparigas não são exactamente iguais: as raparigas mostram em geral mais aptidões a este nível. Mas não havia qualquer prova de uma base biológica para esta realidade. Uma experiência realizada por investigadores dos Estados Unidos e de Israel, com rapazes e raparigas entre os nove e e os 15 anos, veio agora demonstrar que isso é mesmo assim. E apresentam pela primeira vez prova disso.

"Os nossos resultados sugerem que o processamento da linguagem é mais sensorial nos rapazes e mais abstracto nas raparigas, o que pode ter implicações importantes no ensino dos jovens, e funcionar como um argumento de peso a favor dos que defendem turmas separadas de rapazes e raparigas nestas idades", adiantou Douglas Burman, da universidade Northwestern (EUA) e um dos autores do estudo, que é publicado na edição de Março da revista Neuropsychologia.

A equipa estudou a actividade cerebral de 31 rapazes e 31 raparigas utilizando ressonância magnética funcional (para visualizar a actividade cerebral in vivo) enquanto os jovens desenvolviam tarefas de ortografia e de escrita. As palavras eram apresentadas por estímulo auditivo (eram ditas), ou visual (por escrito) e apenas sob uma forma de cada vez, nunca as duas juntas.

Utilizando métodos estatísticos, os investigadores verificaram as diferenças associadas à idade, sexo, tipo de raciocínio linguístico e desempenho verbal e descobriram que as raparigas mostravam ter uma maior activação nas áreas cerebrais da linguagem do que os rapazes durante as tarefas. E, sobretudo, as áreas cerebrais activadas nas raparigas estavam associadas com o pensamento abstracto.

Com os rapazes, no entanto, as coisas não se passaram assim e o seu desempenho linguístico mostrou estar mais ligado à activação das áreas sensoriais da visão ou da audição, consoante as palavras eram apresentadas por escrito ou ouvidas.

A explicação para isto não é clara. Uma possibilidade, dizem os investigadores, é que o processamento sensorial nos rapazes retém a informação, o que torna mais lenta a chegada do estímulo às áreas da linguagem. Outra hipótese é que nos rapazes sejam criadas associações visuais ou auditivas, de forma que a simples audição ou visualização das palavras evoque os seus significados. Não é ainda claro no entanto, se estas diferenças permanecem na idade adulta. Isso será certamente tema para outros estudos. |