Como se pode contar o número de fiéis de uma religião?
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14.04.2008, Alexandra Prado Coelho
Em Portugal, a pergunta sobre a identidade religiosa foi incluída no censo da população mas com resposta facultativa.
Se uma família muçulmana quiser, em Portugal, registar com um nome islâmico uma criança recém-nascida terá que pedir na mesquita uma carta confirmando que a sua religião é o Islão e que esse nome está ligado à tradição islâmica. Não existindo no Islão nenhuma cerimónia equivalente ao baptismo cristão, estes pedidos para o registo de nomes são, segundo o xeque David Munir, da Mesquita Central de Lisboa, o único tipo de dados ligados aos nascimentos islâmicos em Portugal recolhidos na mesquita.
Num país onde a esmagadora maioria da população é católica, que tipo de dados existem em Portugal sobre as outras religiões, os ateus e agnósticos, e as práticas religiosas dos católicos? "Temos dados muito escassos", afirma Alfredo Teixeira, do Centro de Estudos de Religiões e Culturas da Universidade Católica. "O censo da população usou uma grelha que não é muito fina, mas provavelmente teria dificuldade em usar outra, porque os outros grupos são acentuadamente minoritários em relação aos católicos. Para conseguirmos uma amostra representativa, a amostragem tornar-se-ia quase incomportável ".
O estudo mais actualizado, segundo Alfredo Teixeira, é o de Helena Vilaça, publicado em 2006 com o título Da Torre de Babel às Terras Prometidas: Pluralismo Religioso em Portugal (Ed. Afrontamento), no qual se faz um levantamento das religiões minoritárias.
A pergunta relativa à religião foi introduzida pela primeira vez no censo da população em 1991 e voltou a ser repetida no de 2001, mas sempre com carácter facultativo. Em 1991, dos pouco mais de oito milhões de inquiridos, perto de um milhão e meio preferiu não responder. Curiosamente, dez anos depois esse número desceu drasticamente, e foram já só 786 mil que não responderam.
Só judeus descem
Do último censo conclui-se que, a seguir aos 7.353.548 que se dizem católicos, o segundo maior grupo é o dos que não têm religião (342.987), seguido por outras religiões cristãs (122.745), protestantes (48.301), ortodoxos (17.443), outras religiões não cristãs (13.882), muçulmanos (12.014) e judeus (1773). A comparação com o censo de 1991 será pouco interessante: o facto de muito mais pessoas terem respondido a esta pergunta em 2001 fez aumentar todos os grupos (à excepção dos judeus, que em 1991 eram 3523).
O problema, sublinha Alfredo Teixeira, é que se olharmos para todos os dados disponíveis, desde os censos às sondagens (o registo dos baptismos, por exemplo, é pouco fiável, porque pode haver cristãos que não se baptizaram e pessoas que foram baptizadas em crianças e se afastaram da religião), os números são muito diferentes. "Será um problema das categorias usadas, das questões que são colocadas?". É para tentar perceber isso que o Centro de Estudos de Religiões da Católica está actualmente a fazer um estudo comparativo entre todos esses inquéritos.
"No quadro social em que vivemos, o facto de alguém se dizer católico diz-nos muito pouco do que é realmente em termos religiosos", explica. Por isso é que há uma diferença entre perguntar a alguém se se assume como católico e perguntar-lhe quantas vezes vai à missa ou que tipo de rituais segue.
Crentes sem religião
Alfredo Teixeira cita um outro estudo, de 2000, elaborado pelo centro da Universidade Católica e analisado por Manuel Luís Marinho Antunes, que tem dados significativos. Os católicos surgem aí como 97 por cento da população, e destes 61,1 por cento dizem-se praticantes, o que não se confirma nos números de frequência das igrejas. Isto significa que "há uma larga maioria que se auto-classifica como praticante", mas que terá desse termo um entendimento diferente do da Igreja Católica. Quando a pergunta se centra nas práticas que mantêm, percebe-se que "tem havido uma transferência dos praticantes regulares para os praticantes não regulares".
Curioso também é o aumento de uma "categoria nova na sociologia, mas significativa", a dos crentes sem religião (2,1 por cento), com grande peso nas camadas mais escolarizadas e mais urbanizadas. Nesse estudo, só 2,7 por cento se diziam ateus, 1,7 por cento agnósticos e 1,7 por cento indiferentes. Dentro dos grupos minoritários, estão em claro crescimento, de acordo com estes dados, os grupos evangélicos, e as Testemunhas de Jeová, que, atingindo 1 por cento, "são já o segundo maior grupo religioso em Portugal".
O xeque David Munir diz que os pedidos para uso de nomes muçulmanos são a única estatística existente

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