"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Quinze segundos para chegar à caixa de betão
http://dn.sapo.pt/2009/01/08/internacional/quinze_segundos_para_chegar_a_caixa_.html

ELMANO MADAÍL em Sderot e Ashkelon
Serviço Especial JN/DN
Israelitas correm quanto podem para entrar nos abrigos contra os mísseis lançados pelos integristas palestinianos do Hamas quando as sirenes alertam novo ataque

Cerca de 30% das crianças de Sderot sofrem de 'stress' pós-traumático

Inesperado e agudo, o uivo das sirenes sobrepõe-se a qualquer prioridade. Gritam alertas cuja eficácia se demora em 15 segundos apenas, incitando à corrida imediata em busca de protecção. E as pessoas correm. Muito. De tal modo que, num ápice, ficam as ruas vazias de transeuntes e cheias de carros com motores expectantes pelo regresso de quem os deixou assim, à deriva no alcatrão. Porque esse será o curto hiato concedido aos residentes nas cidades israelitas do Sul que debruam a Faixa de Gaza, para encontrar o equipamento urbano mais característico daquelas urbes: os abrigos.

São cubos de betão sem estética, estruturas rudimentares com quatro metros quadrados, na maioria, que se tornaram indispensáveis a um quotidiano exposto, de há oito anos para cá, aos morteiros e aos Qassam - mísseis artesanais do Hamas - que já mataram 24 judeus. Em 2008, foram mais de três mil, que averbaram quatro baixas. Horríveis à vista, mas eficazes nos seus propósitos, tais abrigos acabam por ser, como diz Yaakov Shushan, de Sderot, "muito mais agradáveis do que um caixão". Mesmo que plantados em jardins de infância, ao lado de cada paragem de autocarro, nos recreios de escolas similares a bunkers e nos anexos das casas particulares. Reflexo de um país blindado e em mobilização permanente.

Ontem, suplantando as deflagrações que massacram, há 12 dias e sem qualquer misericórdia, os árabes aprisionados na Faixa de Gaza, as macabras sirenes volveram a Sderot, Ofakim, Netivot e Ashkelon. Aqui, cedo pela manhã, um rocket estilhaçou dois carros e todos os vidros de um prédio na rua Hatayasim, zona habitacional sem interesse militar. Não fez vítimas, como é quase regra, "mas rebenta com os nervos", garante Moshe Skital, inquilino de há 40 anos. As estatísticas do Ministério da Saúde confirmam-no: Cerca de 30% das crianças de Sderot, por exemplo, sofrem de stress pós-traumático.

E terá sido para neutralizar essa ameaça constante que Israel decidiu a operação "Chumbo derretido" em curso na Faixa de Gaza, como explica, na forma crua dos brutos, o coronel do Exército Olivier Rafowicz: "Os terroristas do Hamas conseguiram a 'betonagem' de Israel, forçaram à multiplicação dos abrigos. Só que, como não se pode blindar um país inteiro e fechar toda a gente numa caixa de betão, o Governo de Telavive decidiu tomar uma atitude para eliminar a necessidade de mais abrigos", diz o reservista de 42 anos.

A acção tem apoio da maioria israelita (71%, segundo o Haaretz), que a entende como dissuasora e punitiva. Mesmo que custe a vida aos filhos de uma nação forjada a ferro e fogo, com sete mil reservistas convocados à marcha na primeira fase, e mais dez mil no sábado. E no domingo era ver os conscritos - eles imberbes, elas inseguras -, enchendo os autocarros a caminho da frente, alguns ensaiando a paixão juvenil em beijos que a metralhadora atrapalha.

Foi o caso do varão de Skital: "Está lá, como o pai já esteve, a conduzir tanques contra os terroristas", diz, orgulhoso mas sem notícias do rebento. "Manda sms a dizer que está bem." E é tudo, que o exército não autoriza mais. E, no dia em que o telemóvel não bulir, Skital aceitará o destino com o arrepiante pragmatismo dos veteranos: "Melhor morrer a lutar do que a caminho de um abrigo." Essas caixas de betão que os palestinianos da Faixa de Gaza não tiveram o ensejo de construir.