Adoramos previsões, quase nunca acertamos
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08.01.2009, Duncan Watts
O mundo - como os indivíduos - é difícil de perceber e de prever. Quase nunca se acerta. E no entanto a tentação é grande e continuamos a tentar. Teme-se que a falta de previsibilidade corresponda a uma ausência de sentido. Uma certeza pode desde já ser adiantada: ninguém sabe onde estaremos daqui a um ano
Os seres humanos adoram fazer previsões - seja acerca dos movimentos das estrelas, das alterações da Bolsa de valores ou da cor que vai estar na moda na próxima estação -, e o começo de um novo ano evidencia esta tendência ainda mais do que é normal. Infelizmente, as previsões que a maior parte de nós faz estão erradas. Quando eu era miúdo, supunha-se que o futuro estaria cheio de carros voadores, de cidades espaciais em órbita da Terra e de uma infinidade de tempo livre; em vez disso, trabalhamos mais horas do que nunca, conduzimos carros de combustão interna em auto-estradas congestionadas e em mau estado, e aguentamos infindáveis reduções do nível de serviços prestados pelas companhias aéreas.
Por outro lado, a busca na Internet, os sistemas portáteis de GPS e as compras online - as tecnologias que, de facto, mudaram as nossas vidas - surgiram mais ou menos do nada. Não são apenas as grandes tendências que são difíceis de prever - eleições, recessões e avaliação de riscos são também terrenos escorregadios. E os editores, produtores e responsáveis pelo marketing normalmente não conseguem prever que livros, filmes ou produtos se tornarão nos próximos grandes êxitos.
Por que razão
é tão difícil fazer previsões?
Bem, por muitas e variadas razões, mas fundamentalmente por duas. Em primeiro lugar, os indivíduos são muito mais difíceis de perceber do que parecem à primeira vista, não apenas por serem infinitamente complexos, mas também porque as formas que escolhemos para nos comportarmos dependem de subtis detalhes da situação. Nas décadas mais recentes, os psicólogos conduziram inúmeras experiências que mostram que pequenas mudanças na forma como a situação é definida, ou até factores à primeira vista irrelevantes, como a música ambiente ou o tipo de letra, podem todos ter impacto na tomada de decisão de uma pessoa. Em segundo lugar, os fenómenos sociais nunca são apenas o produto de pessoas individuais a tomar decisões, mas emergem de muitas pessoas a tomar decisões em conjunto e em ligação umas com as com as outras.
Graças à Web, é possível assistir a este fenómeno. Os meus colaboradores Matthew Salganik e Peter Dodds e eu dirigimos uma série de experiências para tentar perceber como e por que razão algumas canções se tornam êxitos enquanto tantas outras nunca conseguem entrar para o Top 100. Recrutámos dezenas de milhares de pessoas para um site em que podiam fazer as suas escolhas em relação às músicas de que gostavam. Algumas pessoas apenas viam os nomes das canções e as bandas que as interpretavam, mas outras também reparavam em quantas vezes cada canção tinha sido descarregada anteriormente.
Para além disso, dividimos este segundo grupo numa série de universos paralelos em que o historial se podia mostrar muitas vezes, revelando quanto do sucesso de uma canção depende das suas qualidades intrínsecas e quanto depende da influência dos nossos pares. Quando os participantes sabiam do que outros gostavam, as canções populares tornavam-se ainda mais populares e as canções impopulares ainda menos populares do que quando as pessoas faziam as suas escolhas de forma independente. Mas mais surpreendente ainda foi termos descoberto que se tornava também cada vez mais imprevisível perceber o que tornava determinadas canções nas mais populares - nalguns casos, a influência social levou a que a sorte e o acaso suplantassem o apelo intrínseco enquanto principais factores de criação de sucesso.
As implicações destas experiências estendem-se para além da especulação acerca dos méritos de Madonna ou Justin Timberlake. O que realmente interessa é que, sempre que as pessoas tomam decisões baseadas parcialmente no que outras pessoas estão a fazer, prever o resultado será sempre susceptível de conter erros graves, independentemente de quão cuidadosos formos. Em muitos casos, provavelmente é impossível.
Então, por que razão continuamos a pensar que podemos prever
os eventos futuros?
Suspeito que estamos tão agarrados à ideia de previsão que, mesmo quando cometemos erros, pensamos que poderíamos ter previsto o futuro de forma acertada se tivéssemos prestado atenção à informação correcta. A artimanha habitual que usamos para manter esta ilusão é encontrar alguém que efectivamente previu o resultado correctamente e assumir que se toda a gente tivesse sabido o que essa pessoa soube, então tudo teria acabado bem.
É uma óptima artimanha, e funciona quase sempre, porque em qualquer altura há sempre tanta gente por aí a fazer previsões sobre tantas coisas que, aconteça o que acontecer, é quase certo que alguém algures terá dito o que iria acontecer.
Mas isso apenas acontece em retrospectiva, e o que idealmente queremos das previsões é conhecimento sobre o futuro que possamos utilizar antes que este chegue. Se quiséssemos saber a sério que peritos podem prever o quê, insistiríamos em que eles escrevessem todas as suas previsões antecipadamente e acompanharíamos toda a sua actuação enquanto os acontecimentos se desenvolviam.
Acreditem ou não, alguém já fez exactamente este tipo de monitorização. Num engenhoso estudo de vinte anos, o psicólogo Philip Tetlock pediu a cada um de 284 analistas para fazer cem previsões relativamente a acontecimentos políticos e económicos futuros. Os resultados não foram famosos. No geral, Tetlock descobriu que os seus peritos estavam apenas ligeiramente mais correctos do que as regras do simples bom senso, como "a equipa da casa ganha em 60 por cento das vezes, por isso aposte sempre na equipa que jogue em casa". Mais perturbador ainda: eles eram melhores a fazer previsões fora das suas áreas de especialidade do que dentro delas.
Em parte devido a conclusões decepcionantes como estas, um cada vez mais popular substituto para as opiniões dos peritos são os chamados "mercados de previsão/futuros", nos quais pessoas compram e vendem contratos sobre vários resultados, como de jogos de futebol, margens de spread ou eleições presidenciais. Os preços de mercado destes contratos efectivamente juntam o conhecimento e discernimento de muitas pessoas numa simples previsão, que muitas vezes se revela mais acertada do que qualquer dos palpites individuais.
Mas mesmo que estes mercados funcionem melhor do que os especialistas, tal não significa necessariamente que fazem um trabalho suficientemente bom para que possamos confiar nele. Recentemente, os meus colegas começaram a seguir o desempenho do Intrade, um popular mercado de previsão, no que toca a prever os resultados dos jogos semanais da liga de futebol americano. Até agora, o que descobriram é que as previsões do mercado são mais acertadas do que a simples regra de apostar na equipa que joga em casa, mas pouco mais acertadas - o que, curiosamente, é muito parecido com o que Tetlock concluiu quanto aos seus peritos. Por outras palavras, tais resultados, e possivelmente os resultados que mais nos interessam, simplesmente não são "previsíveis" da forma que gostaríamos.
Muitas pessoas consideram estas conclusões um pouco deprimentes, porque associam uma falta de previsibilidade a uma ausência de sentido. Mas só porque os resultados não são previsíveis, tal não significa que não se possa fazer nada. Vejamos as empresas de capital de risco. Elas despendem muitos esforços tentando reconhecer o próximo "cisne negro" no meio das muitas dicas que recebem. Mas também reconhecem que, por mais que se esforcem, a maioria dos cisnes serão brancos, e que uma grande percentagem dos seus investimentos não conseguirá gerar receitas.
Estas estatísticas parecem más, mas muitas dessas empresas estão bem na vida, muito obrigado, e a maioria delas está perfeitamente à vontade com a sua aparente incapacidade para identificar vencedores. A imprevisibilidade faz parte do seu modelo de negócios.
Naturalmente, não se pode aplicar este modelo a tudo: os Estados Unidos não podem investir em seis diferentes políticas internacionais e esperar para ver qual é que se aguenta. Mesmo assim, há muitas circunstâncias que permitem muito mais experimentação do que é actualmente o habitual. E, simplesmente reconhecendo os limites da previsibilidade, podemos pelo menos estar prevenidos contra o risco do excesso de confiança.
Assim, agora que embarcamos naquele que muitos prognosticadores proclamam ir ser um ano negro, agarrem-se aos vossos lugares e tentem apreciar a viagem - porque ninguém sabe onde estaremos daqui a um ano.
Duncan Watts é pesquisador sénior do Yahoo! Research, professor de Sociologia na Universidade de Columbia, e autor do livro Six Degrees: The Science of a Connected Age.
Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

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