"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Extintos para sempre por acção do homem
http://dn.sapo.pt/2008/12/15/ciencia/extintos_para_sempre_accao_homem.html
MARIA JOÃO PINTO

Biodiversidade. Se nada for feito, mais de metade das espécies, de fauna e flora, conhecidas no mundo desaparecerão nos próximos cem anos. Para a comunidade científica internacional, travar este flagelo exigirá, antes de mais, vontade política

Sexta grande extinção está em marcha

A manter-se o ritmo actual de perda de biodiversidade, mais de metade das espécies de fauna e flora conhecidas extinguir-se-ão nos próximos cem anos. À beira do ponto de não retorno, sucedem-se os alertas da comunidade científica: a sexta grande extinção está em marcha, desta vez por acção exclusiva do homem, e terá de ser ele a travá-la. A boa notícia é que vamos ainda a tempo de o fazer. E com custos verdadeiramente simbólicos.

Em Outubro, com base em dados da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), a revista Science traduzia essa realidade em números: 25% dos mamíferos, 33% dos anfíbios e 20% das aves encontram-se em risco de extinção. Globalmente, cerca de um milhão e 750 mil espécies foram descritas até hoje, mas esse número deverá ficar bastante aquém da realidade, apontando as estimativas dos especialistas para 15 milhões.

"Há 65 milhões de anos, a queda de um asteróide desencadeou a extinção dos dinossáurios. Hoje, o asteróide é a nossa espécie", afirma o biólogo espanhol Miguel Delibes de Castro. "Eliminamos as restantes espécies, alimentamo-nos delas e arriscamo-nos a aquecer o planeta a tal ponto que nenhuma delas conseguirá aqui viver."

Em declarações ao jornal El Mundo, o investigador salienta que, "ao longo da História da Terra, registaram-se mais de 20 extinções, cinco das quais consideradas de larga escala. A actual tem uma taxa típica de extinção em massa mil vezes mais rápida que as extinções ditas de fundo", processadas "em centenas de milhares ou de milhões de anos".

O aumento da esperança de vida poderá explicar, em parte, por que razão chegámos a este ponto. "Há 30 mil anos, as expectativas de sobrevivência de um caçador-recolector eram idênticas às de qualquer espécie de ave e constantes ao longo da vida, excepção feita aos primeiros meses, em que eram mais baixas", recorda Robert May, professor de Zoologia na Universidade de Oxford, ouvido pelo mesmo jornal. Nos nossos dias, tudo mudou: "Nos anos 50 do século passado, a esperança média de vida do ser humano era de 46 anos; actualmente ronda os 65."

"Pai" do termo biodiversidade, o biólogo Edward O. Wilson sublinha, por seu turno, que a vida na Terra "necessita de uma atenção muito maior: conhecê-la em toda a sua extensão e geri-la de forma sustentável deveria merecer atenção e recursos idênticos aos que foram conferidos ao Projecto Genoma Humano (PGH). Afinal, estamos a falar da Enciclopédia da Vida." Um trabalho dessa envergadura, diz Wilson, exigiria verbas da ordem dos 3900 milhões de euros ao longo de 20 anos, valor "comparável ao do PGH".

Progressivamente, estão a ser dados passos nesse sentido. Também biólogo, Harold Mooney, da Universidade de Stanford, coordena uma rede de profissionais da área que estão a desenvolver esforços no sentido de ver a questão abordada sob a égide das Nações Unidas, "à semelhança do que aconteceu no campo das alterações climáticas". Para que o trágico destino do dodó, erradicado das ilhas Maurícias em pouco mais de 80 anos, no século XVII, não se torne uma profecia. Com jornal El Mundo