"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Se um negro enriquece, pode tornar-se branco
http://jornal.publico.clix.pt/
11.12.2008


Nos EUA, onde a cor da pele condiciona tão fortemente o estatuto social de cada cidadão, a mesma pessoa pode ser considerada negra ou branca conforme as circunstâncias sociais


No romance A Mancha Humana, de Philip Roth, a personagem central, o professor universitário de literatura clássica Coleman Silk, é supostamente branco e judeu: olhando para a sua pele e os seus olhos claros, ninguém jamais desconfiou que assim não fosse. A tal ponto que, na história, começa por ser acusado de racismo por dois estudantes negros devido a uma palavra cujo significado real desconhecia. E uns capítulos mais tarde, para a nossa surpresa, ficamos de repente a saber - no início sem perceber o que se passou - que Silk é na realidade... negro. A dada altura da sua vida, decidiu que ser branco é que lhe iria permitir fazer o que queria com a sua vida. Ser negro nos EUA seria um empecilho para a sua carreira académica - e não só. Por isso, renegou pais e irmãos e fingiu que era algo que não era - para ser livre, reconhecido, respeitado, até amado.
O caso pode parecer descabelado, mas é totalmente plausível - aliás, há quem diga que Roth se inspirou num caso real para construir a sua personagem. Não é difícil imaginar que, em muitos casos, não seja claro se uma pessoa é branca ou negra - há muita gente que poderia passar por uma coisa ou outra sem esforço.
Mas agora, com a eleição de Barack Obama para Presidente, será que as coisas vão mudar? E o próprio Obama, o que é ele? Negro ou branco? Afinal de contas, tem um pai negro queniano e uma mãe branca norte-americana. Será que o seu êxito na vida faz dele um branco, mesmo que a sua pele não seja tão clara como a da personagem de Roth? "O que mais me fascina no caso Obama é que as pessoas façam este tipo de perguntas", diz Aliya Saperstein, socióloga da Universidade do Oregon, num comunicado da instituição. "No passado, ninguém teria colocado a questão nem perguntado como é que devemos falar dele. Não teria havido debate."
Juntamente com Andrew Penner, sociólogo da Universidade da Califórnia, esta cientista andava a estudar há algum tempo a "coloração" conferida às pessoas não apenas pela cor física da sua pele, mas também pelo seu estatuto social e económico. Os resultados do estudo, publicado on-line esta semana pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences - "oportunamente", diz Saperstein -, sugerem que a noção de "raça" pode não ser assim tão simples - não se reduz a uns meros traços físicos. Não é um atributo fixo com o qual nascemos, mas algo que está intimamente ligado ao que somos... na sociedade.
"A raça é uma combinação extremamente complexa de factores que incluem sem dúvida coisas como a tonalidade da pele, o tipo de cabelo e a genealogia", diz Saperstein. "Mas também inclui o estatuto social e os nossos próprios estereótipos sobre as pessoas. O nosso estudo sugere que, em parte, a forma como determinamos quem é branco se baseia nos nossos pressupostos sobre o que as pessoas brancas fazem e o que as pessoas negras fazem." Essencialmente, salienta, "definimos as pessoas de sucesso como brancas e as pessoas sem sucesso como negras".
Percepção é variável
No estudo, essa conotação negativa "colada" ao facto de se ser negro é gritante: os norte-americanos que tenham ficado desempregados ou empobrecidos, ou sido condenados a penas de prisão, são mais susceptíveis de ser classificados e identificados como negros por eles próprios e pelos outros! E isso independentemente da maneira como se classificavam ou eram identificados por outros no passado. Mais: essa classificação perdura, no caso da prisão nomeadamente, mesmo depois de a pessoa em causa ter cumprido a pena e ter sido libertada.
Mais precisamente, os investigadores analisaram um inquérito à escala do país - o National Longitudinal Survey of Youth -, que teve início em 1979 e ainda está em curso actualmente. Os 12.686 participantes no inquérito têm sido os mesmos desde o início e têm sido acompanhados, através de entrevistas anuais, durante as últimas duas décadas. A utilidade do estudo provém do facto de que tanto os próprios inquiridos como os seus entrevistadores registaram, por várias vezes, a classificação racial dos inquiridos. Foi essa informação que os dois cientistas escrutinaram agora.
Os voluntários declararam o seu estatuto racial por duas vezes: a primeira em 1979 e a segunda em 2002, quando a classificação oficial utilizada nos EUA foi alterada. Por seu lado, os entrevistadores registaram a raça uma vez por ano entre 1979 e 1998, aquando de cada nova entrevista.
Em 20 por cento dos casos, revelam os autores do estudo, a percepção da raça pelos entrevistadores mudou pelo menos uma vez ao longo desses anos, principalmente entre as pessoas de etnicidade mista. E enquanto 96 por cento dos que tinham inicialmente sido classificados como brancos e não tinham sido presos continuaram a ser classificados da mesma forma, os números descem até aos 90 por cento para aqueles que entretanto cumpriram uma pena de prisão. Quanto à autoclassificação dos inquiridos, 97 por cento dos que se consideravam brancos em 1979 ainda se consideravam brancos em 2002 se a sua condição económica fosse a mesma, ao passo que os números baixaram até aos 93 por cento nos que entretanto ficaram pobres.
Ao mesmo tempo, os participantes que diziam ser negros em 1979 e que mais tarde viriam a ser presos eram mais susceptíveis de tornar a dizer que eram negros da segunda vez (em 2002) do que os que nunca tinham sido presos. "Os que tinham sido presos ficavam mais frequentemente na categoria dos negros, mas os que não tinham sido presos eram capazes de alterar a sua identidade racial", salienta Saperstein.
Para os autores, uma coisa parece clara: a identificação racial, pelos próprios e por outrem, pode variar com as mudanças de posição social, "tal como uma mudança na dieta ou nos níveis de stress", escrevem, "pode alterar a propensão de uma pessoa morrer de doença cardíaca em vez de cancro".
Os estereótipos raciais podem transformar-se em "profecias auto-realizadoras", concluem os dois sociólogos. Assim, embora os negros estejam sobre-representados entre os pobres, os presos e os desempregados, parte dessa sobre-representação provém do facto que as pessoas que são presas, pobres ou desempregadas são vistas e classificadas como negras mais amiúde do que como brancas. Não só a cor da pele condiciona o estatuto social, mas tudo se passa também como se o estatuto social conseguisse escurecer ou clarificar a cor da pele - como se as circunstâncias puramente conjunturais da vida das pessoas pudessem tingir "positiva" ou "negativamente" a sua epiderme, conforme os casos.
Amon Emeka, perito em demografia social da Universidade da Califórnia do Sul, disse ao Washington Post que considera que os resultados evidenciam "o carácter omnipresente da estratificação racial na sociedade", acrescentando que "as associações negativas com a negritude dizem imenso sobre o impacto ainda patente da estratificação racial na sociedade norte-americana".
Robert Carter, psicólogo do Columbia Teachers College de Nova Iorque, citado pelo mesmo diário, não acredita, por seu lado, que os estereótipos sejam capazes de alterar a percepção da raça. "Não é o estatuto social que influi sobre a raça, é a raça que influi sobre o estatuto social. A estratificação baseada na pertença a um grupo racial tem sido uma parte integrante da nossa sociedade desde antes do nascimento dos Estados Unidos. É assim há séculos." Ao que Saperstein responde que, "embora os dados não permitam dizer o que está a acontecer na cabeça dessas pessoas, a história que contam demonstra que existe um preconceito implícito".