"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

segunda-feira, dezembro 01, 2008

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01.12.2008




Termina o pequeno-almoço nos hotéis de cinco estrelas. Em carros de alta cilindrada, os convidados são levados através de uma cidade com tecto de chumbo até um hotel dourado.
Na sala da conferência de imprensa, comenta-se o cancelamento das festas de apresentação em cada país. Os jornais são categóricos: a Pirelli está a atravessar um processo de reestruturação que envolve despedimentos. Um desempregado dificilmente entende o marketing milionário, mas sabe que o cachet para dez dias de uma modelo lhe paga o ordenado de um ano inteiro.
As modelos estão atrasadas. Os jornalistas esperam.
Grande burburinho. Elas chegam, finalmente. Desfilam seguras, os corpos esguios, através da sala. Os fotógrafos e operadores de câmara atropelam-se. Elas sentam-se, baixam o olhar oblíquo e fitam a câmara. Olhos grandes e azuis que enfeitiçam. São modelos em trabalho.
- Por favor, sentem-se que vai começar a apresentação.
Ninguém ouve a anfitriã anafada. Os disparos sucedem-se. Os seguranças começam o trabalho e empurram os jornalistas. Um finge cair e dá com a câmara na cabeça do segurança quadrado.
- Por favor, sentem-se. Temos mesmo de começar!
Três minutos de desespero e as pessoas começam a obedecer.
No centro do palco, fala o director-geral da Pirelli. Está nervoso. "Estivemos para cancelar a edição deste ano. Foi um ano muito difícil, muitas pessoas estão a sofrer..." Hesita, mas continua: "... no final, entendemos que a mensagem de alerta e de esperança do calendário era fundamental e devia ser transmitida. Esta é uma edição especial, diferente de todas as outras." Conclui com confiança.
- Senhoras e senhoras, o fotógrafo: Peter Beard.
O americano decidiu imortalizar as sete modelos conhecidas internacionalmente no Botswana. Peter Beard viveu três anos no Quénia e é considerado um dos maiores intérpretes do mistério e charme de África. Fala com voz grossa. "Neste trabalho, quero que os elefantes sejam entendidos como uma metáfora da raça humana e África como uma metáfora de um mundo destruído que deve recuperar a harmonia."
Fala do ambiente, do homem, apresenta argumentos, diz que se ofereceu para fazer o trabalho de graça. No fim, solta uma gargalhada. "Gostava mesmo era de ver o making off."
- Senhoras e senhoras, o Calendário Pirelli 2009.
As luzes apagam-se. Começam os tambores. Na parede ao fundo, surge um enorme globo a rodar.
Montagem rápida de elefantes, búfalos e gazelas a correr por planícies acastanhadas.
De repente, verde e azul no ecrã. Estamos num oásis aquático. No delta do rio Okavango.
Duas modelos estão com água até aos joelhos. Uma loura e outra morena. Atrás delas, correm dois elefantes que fazem uma nuvem de pó. "Tive medo. Não sabia o que podia acontecer." A loura cai.
Click. A primeira foto está feita.
A viagem continua.
Num charco, um elefante arranca as extensões de cabelo a uma modelo.
"Foi a primeira vez que toquei na pele de um elefante."
Uma rapariga chora e contorce-se quando o fotógrafo lhe coloca um enorme insecto sobre o rosto.
"Foi o melhor trabalho que já fiz."
Completamente nua, uma modelo brasileira deita-se sobre um elefante em movimento. "Tivemos a possibilidade de passar uma mensagem mais profunda do que costumamos fazer."
Três jovens seguram o cadáver de uma águia e esboçam um esgar de nojo.
"Foi mais profundo e bonito do que estava à espera."
Num instante é de madrugada. Estamos no deserto do Calaári.
Beard grita. "Rápido, rápido. Não temos muito tempo!"
Uma modelo trepa uma árvore gigante e sem folhas. Atrás dela outra, e depois outra. São sete modelos, nenhuma africana. Um jornalista italiano comenta. "Na Pirelli não há efeito Obama."
As modelos estão no cimo da árvore.
Silêncio.
Em câmara lenta, contorcem os seus corpos leitosos. Vão-se confundindo com os troncos da árvore.
Click.
De um momento para o outro, acontece poesia. Homem e natureza, outra vez um só.
Terminou a apresentação.
Peter Beard: "Tudo o que vimos foi real: as raparigas, a paisagem, a mensagem... a mensagem é real."
As pessoas dispersam. No interior das viaturas negras, os convidados voltam aos seus ninhos de ouro.
De África para a sala de imprensa, daí para as ruas de Berlim e para o interior dos hotéis luxuosos. Um mundo dentro de um mundo dentro de outro. Uma matrioska à escala da vida.
Logo à noite, há jantar de gala para 700 pessoas.