Daniel Rocha (arquivo)
Shchepinov defende que isótopos pesados podem ser a solução para o avanço
da idade
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1351592
30 de Novembro de 2008
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Cientista russo pensa que o envelhecimento pode ser combatido tomando água
pesada
Será que existe um elixir da juventude?
28.11.2008 - 19h11 Inês Subtil
Pôr uma colher do líquido “mágico” na boca e engolir. Este é um ritual
diário para o cientista russo Mikhail Shchepinov que, todos os dias, sorve
aquela que considera poder a ser a solução para prolongar a vida humana,
uma colher de água pesada – D2O, em que o “D” da fórmula química
representa o deutério, um isótopo do hidrogénio de massa atómica 2, em vez
de 1. O sabor é ligeiramente adocicado e se um cubo deste líquido fosse
colocado num copo, afundar-se-ia em água normal.
Já lá vão 18 meses desde que o bioquímico russo anunciou pela primeira vez
que tinha descoberto o elixir da juventude, uma maneira de beber (ou
comer) para conseguir ter uma vida mais longa. Segundo noticia a revista
“New Scientist”, Shchepinov começou a interessar-se por esta área há dois
anos através da leitura de artigos científicos sobre as causas do
envelhecimento.
A teoria mais bem aceite pela comunidade científica é a dos radicais
livres, que defende que o corpo humano vai envelhecendo devido a danos
irreversíveis provocados às biomoléculas. Os responsáveis por esta
destruição são os radicais de oxigénio livres, compostos químicos
agressivos que são um produto inevitável resultante do metabolismo das
células.
Os “estragos” vão sendo acumulados ao longo da vida até que chega o ponto
em que os processos bioquímicos básicos do corpo deixam de funcionar.
Estes processos estão associados a doenças ligadas à velhice, incluindo
Parkinson, Alzheimer, cancro, falhas renais crónicas e diabetes.
O corpo humano produz antioxidantes que eliminam os radicais livres antes
que estes possam causar danos. À medida que a idade avança, estes sistemas
defensivos acabam também por ser destruídos e o corpo entra num declínio
inevitável.
”Comer” juventude
Até agora a maioria dos medicamentos para lutar contra o envelhecimento
eram compostos por antioxidantes, como a vitamina C ou beta-caroteno, que
serviam para ajudar estes sistemas de defesa, apesar de não haver
evidências que o resultado fosse positivo.
O bioquímico russo decidiu seguir um caminho diferente. Aproveitando a
investigação que já fazia na área dos efeitos dos isótopos, decidiu
conjugá-los com os conhecimentos que ia adquirindo sobre as causas do
envelhecimento.
O conceito por detrás desta área é o de que a presença de isótopos pesados
numa molécula pode diminuir as reacções químicas com outros compostos.
Isto acontece porque são formadas ligações mais fortes na molécula. No
caso do isótopo de hidrogénio escolhido por Shchepinov, o deutério, as
ligações estabelecidas são 80 vezes mais fortes do que aquelas que são
estabelecidas com hidrogénio normal.
A ideia é usar este efeito para tornar as biomoléculas mais resistentes
aos ataques dos radicais livres. Para isso, o bioquímico defende que
apenas seria necessário colocar deutério ou carbono-13 (outro isótopo
pesado) nas ligações mais vulneráveis.
O deutério e o carbono-13 parecem ser não tóxicos, portanto a sua ingestão
deixa de ser um problema.
Há 18 meses, quando Shchepinov apresentou esta ideia fez questão de frisar
as inúmeras experiências científicas que já provaram que as proteínas, os
ácidos gordos e o ADN podem ser ajudados a resistir a danos provocados
pelos ataques dos radicais livres recorrendo ao efeito dos isótopos.
Carne, ovos e leite enriquecidos
No entanto, algumas experiências indicam que a água pesada não é
completamente segura. Por isso, a ideia de Shchepinov é a de incorporar
isótopos pesados na chamada “iFood”. Este método consistiria em adicionar
à nossa dieta aminoácidos (constituintes das proteínas) essenciais - dos
20 aminoácidos utilizados pelos humanos, dez não podem ser produzidos e
têm que ser ingeridos na forma de alimentos -, cujas ligações já tivessem
sido previamente “fortalecidas”.
Segundo o bioquímico russo esta estratégia é completamente segura, porque
os átomos de deutério ligados ao carbono nos aminoácidos não são
“trocáveis” e portanto não se ligariam à água do corpo. Uma das propostas
seria a produção de carne, ovos ou leite enriquecido com deutério ou
carbono-13, que seriam dados aos animais como alimento. Por enquanto, a
“iFood” continua a ser apenas uma ideia. Até porque, como explica
Shchepinov, citado pela “New Scientist”, “os isótopos são caros”.
Mas uma empresa, a Retrotope, não quis dar-se por vencida e lançou um
programa de investigação para testar a teoria do bioquímico russo.
Uma equipa do Instituto de Biologia do Envelhecimento em Moscovo, Rússia,
realizou experiências com moscas da fruta em que os animais foram
alimentados com diferentes quantidades de água pesada. Apesar das grandes
porções terem provocado a morte da maioria das moscas, aquelas que
receberam pequenas quantidades de água viram a sua expectativa de vida
aumentar 30 por cento.
Um pequena parte do puzzle do envelhecimento
É, contudo, ainda muito cedo para saber se no caso dos humanos o efeito
seria o mesmo. Shchepinov diz que “estes são testes preliminares e tem que
ser reproduzido debaixo de grande leque de condições”: “É possível que o
que estamos a observar nas moscas seja o efeito da restrição calórica (a
única estratégia até hoje provada que aumenta a expectativa de vida em
animais de laboratório), temos que fazer mais experiências”.
Nem toda a gente parece receber esta nova teoria entusiasmado. Alguns
cientistas alertam que os danos causados pelos radicais livres sozinhos
não podem explicar todas as mudanças biológicas que ocorrem durante o
envelhecimento humano. Tom Kirkwood, investigador da Universidade de
Newcastle, no Reino Unido, citado pela “New Scientist”, considera que “a
ideia de Shchepinov é interessante, mas já descobrimos que só faz sentido
pensar no envelhecimento como resultado de múltiplas causas. O mecanismo
por ele sugerido é provavelmente apenas uma pequena parte do puzzle”.
Já Judith Campisi, do Instituto de Investigação do Envelhecimento em
Novato, na Califórnia, é mais optimista: “Tenho ouvido algumas ideias
bastante malucas sobre como podemos viver mais tempo, mas esta (de
Schepinov) intrigou-me realmente”.
O bioquímico russo quer estender esta teoria a várias áreas além do estudo
do combate ao envelhecimento. Um das aplicações possíveis pode ser a
exploração espacial, na protecção dos astronautas contra o efeito dos
raios cósmicos e outras radiações iónicas, cujos efeitos são similares ao
do avanço da idade.
Os bebés é que sabem
A natureza parece já se ter adiantado ao homem no recurso a isótopos
químicos na protecção contra os ataques dos radicais livres. Os bebés e os
ratos nascem com uma quantidade muito maior de carbono-13 nos seus corpos
do que as mães, ao mesmo tempo que as mulheres quando estão grávidas
passam a ter muito menos deste composto. Isto indica que parece haver uma
transferência do isótopo para os fetos. Segundo Shchepinov, o que acontece
é que o feto em crescimento incorpora de forma selectiva o carbono-13 nas
suas proteínas, ADN e outras biomoléculas, para que assim estas se tornem
mais resistentes aos ataques dos radicais livres. O bioquímico russo
reitera que muitas destas proteínas e moléculas de ADN têm que durar
durante toda a vida: “Cada um dos átomos do cérebro de um homem de 100
anos é exactamente o mesmo que ele tinha aos 15 anos".

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