Entrevista Alexandre Kalache
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25.11.2008, José Vítor Malheiros
Em 2006 havia 650 milhões de pessoas no mundo com mais de 60 anos: eram 11 por cento da população. Em 2025 serão 1200 milhões. Em 2050 serão dois mil milhões: 22 por cento da população. E a esmagadora maioria vai viver em cidades. A sociedade vai ter de se adaptar para responder às necessidades de uma população mais idosa, mas estes idosos não vão ser como os nossos avós. Mais autónomos, activos e exigentes que os idosos de ontem, eles vão ajudar a moldar o futuro
Poucas pessoas conhecem melhor o fenómeno do envelhecimento da sociedade do que Alexandre Kalache. Director do programa de Envelhecimento da Organização Mundial de Saúde durante 12 anos, este epidemiologista carioca doutorado em Londres, hoje com 63 anos e aposentado da OMS, divide o seu tempo entre o Brasil, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos e é consultor da Academia das Ciências de Nova Iorque, da HelpAge International, uma federação de ONG na área do envelhecimento, e está a instalar no Rio de Janeiro o Centro Internacional de Políticas para o Envelhecimento, uma instituição que funcionará junto da Universidade do Rio de Janeiro, financiada com dinheiros públicos e privados. O seu "filhote", como ele diz, é porém o programa de Cidades Amigas do Idoso que veio ontem apresentar na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, na conferência Uma Sociedade Madura Num Mundo Global, incluída no Fórum Gulbenkian de Saúde dedicado ao envelhecimento.
Em geral, quando há uma minoria numa sociedade que cresce numericamente isso traduz-se numa aquisição de poder político - com maioria de razão numa democracia. Mas não estamos a ver nas decisões políticas o reflexo dessa influência dos idosos, que devia ser crescente. Ou acha que ela já começa a manifestar-se?
O problema é a mobilização. É mais fácil mobilizar um contingente que trabalha numa fábrica ou que está ligado a um determinado sindicato do que mobilizar uma camada da população como os idosos, que não vivem nem trabalham todos debaixo do mesmo tecto. Mas já existem sinais importantes desse poder crescente - por várias razões, entre as quais a razão numérica.
Pode dar-me um exemplo desses sinais?
Nos EUA há uma associação de pessoas aposentadas, a AARP, que tem 39 milhões de membros, quase quatro vezes a população de Portugal. A associação edita uma revista semanal, que é a revista com maior circulação do mundo. A AARP fornece serviços aos seus sócios, desde turismo a seguros de saúde e de vida, e possui imenso poder político, com uma intensa actividade de lobbying junto da Câmara de Representantes e do Senado. Não é possível eleger um Presidente nos EUA com a oposição da AARP - Obama não teria sido eleito, se tivesse tido a AARP contra ele. Isso não quer dizer que a AARP possa fazer eleger um Presidente, um senador ou um governador. Mas, se se manifestarem abertamente contra, podem impedir uma eleição. O voto destes 39 milhões - ainda que nem todos rezem a mesma cartilha - tem uma influência enorme.
A AARP é criticada por representar os interesses da classe média e não atender suficientemente aos interesses da classe mais desfavorecida e por não ter uma acção política mais determinada, mas há muitas outras organizações, com outros tipos de activismo. Os Grey Panthers, por exemplo, são outra organização muito dinâmica, de muito menor dimensão mas de um enorme activismo, muito mais agressivos. Isto é uma antevisão do que vem aí...
São ambos exemplos dos Estados Unidos... Como é que se pode promover esse empowerment dos idosos de uma forma generalizada?
Não é só nos EUA. Posso falar-lhe do Brasil e da minha geração, onde está a acontecer a mesma coisa. Tem muito a ver com a história das pessoas. Eu fui activista, fui dirigente estudantil... eu não vou envelhecer da mesma maneira que o meu avó ou o meu pai. Em todo o mundo há uma massa de pessoas que foram activistas, que viveram os movimentos cívicos dos anos 60 e posteriores e que vão reinventar o envelhecimento. Por uma questão numérica - porque vamos ser muitos mais - e porque temos um passado de participação política que não nos permite negar a nossa identidade, aquilo que nós somos.
O meu avô tinha pouco mais anos do que eu quando morreu e era um velhinho. Eu não me vejo como um velhinho. Os idosos de hoje e amanhã tiveram mais acesso à informação, adquiriram competências sociais e profissionais, comprometeram-se politicamente, têm de facto mais poder e assumem esse poder. Não estão à espera de ninguém para tomar esse poder. Eu não esperei a ajuda de ninguém. Eu aposentei-me da OMS e reinventei-me como consultor. Não esperei que ninguém me oferecesse esse poder, magnanimamente. É evidente que eu tenho uma experiência de vida privilegiada, mas como eu há uma geração inteira de mais de 60 anos que está já a reinventar-se, sem esperar por ninguém. As pessoas de 50 ou 60 anos e que terão 60 anos em 2025 vão ser muito mais influentes do que eram os idosos no passado, vão exigir mudanças e vão lutar por elas.
Não é essa ainda a situação em Portugal. Não existe nada remotamente semelhante à AARP.
É verdade que a situação é diferente nos países anglo-saxónicos, onde há uma tradição associativa muito forte, mas a situação está a mudar em todo o mundo. Não é um fenómeno local, é global.
Mas a par do aparecimento desses neo-idosos - chamemos-lhes assim - acontece, no extremo oposto, que os valores julgados positivos nas nossas sociedades são valores associados à juventude: a agilidade, a inovação, a rapidez, a produtividade... não a experiência, ou a reflexão, ou a paciência, ou a profundidade. As empresas querem gente nova. Os partidos políticos querem gente nova. É preciso mudar esses valores? Ou podem coexistir com esta nova estrutura etária das nossas sociedades?
Acho que é preciso mudar tudo isso e acho que vai mudar. Precisamos de redefinir a produtividade como a capacidade que as pessoas têm de acrescentar alguma coisa. Tudo isso é um preconceito - aquilo que em inglês se chama ageism e que é difícil traduzir para português - a discriminação contra pessoas por causa da sua idade.
Mas esse tipo de preconceito começa a ser politicamente inadmissível. A luta contra a discriminação pela idade na Europa é ainda mais forte que nos Estados Unidos. A cultura americana é ainda muito reverencial em relação à juventude - ainda que eles já não tenham a idade de reforma obrigatória que ainda continua a predominar na maioria dos países europeus. Há contradições, mas há mudanças importantes já em curso. É uma questão de tempo.
Hoje há, por exemplo, um lobby como a AGE, a Plataforma Europeia das Pessoas de Idade, com sede em Bruxelas, que é um watchdog que observa cada gesto da Comissão Europeia. E quando suspeitam de um gesto de discriminação em relação a uma pessoa por uma questão de idade não se calam, vão falar aos comissários, mobilizam os países-membros... A situação está a mudar.
Nós estamos a lutar em Nova Iorque pela adopção da Convenção dos Direitos das Pessoas Idosas. A Declaração dos Direitos Humanos vai fazer 60 anos no dia 10 de Dezembro, mas é claro que, em 1948, o envelhecimento não era um preocupação - como também não era há 30 anos. Mas está na hora de abrir os olhos e perceber que temos de proteger os direitos específicos dos idosos, o acesso ao trabalho, aos serviços de saúde, a um rendimento mínimo.
Uma das razões da sua presença em Lisboa é a apresentação do programa Cidades Amigas do Idoso, que lançou quando estava na OMS e ao qual continua ligado. O que são as Cidades Amigas do Idoso?
"Cidade Amiga do Idoso" é uma péssima tradução, mas é o que temos. Em inglês soa melhor: Age-friendly Cities. É que a cidade amiga do idoso é amiga de todas as idades.
O programa é uma forma de traduzir na prática a filosofia do envelhecimento activo, levando em conta as duas grandes forças que estão a moldar o mundo: o envelhecimento e a urbanização.
Em 2005 fui convidado para abrir o Congresso Mundial de Gerontologia, no Rio de Janeiro, e pediram-me que lançasse uma ideia que conseguisse mobilizar o interesse dos media. E eu lancei aí a ideia de fazer de Copacabana a cidade amiga do idoso. Fomos ouvir as pessoas de mais de 60 anos para ver o que sugeriam para o bairro que pudesse melhorar a sua qualidade de vida e desenhámos o programa de baixo para cima, dando o poder de decisão às pessoas. Abordámos os temas que afectam a qualidade de vida de qualquer pessoa, mas que são especialmente importantes à medida que se envelhece: transportes, habitação, acesso a serviços de saúde e outros, oportunidades de participação cívica, acesso à informação, oportunidades de trabalho, qualidade dos espaços públicos, etc.
Mas o programa alargou-se a muitas outras cidades...
Copacabana é um tambor: se você bate, o som repercute-se e todo o país ouve. A ideia teve muito impacto.
E no congresso, que tinha uma audiência internacional, as pessoas também se interessaram muito. E aí eu pensei: porquê só Copacabana, porque não um projecto internacional de Age-friendly Cities? E apareceram Xangai, Tóquio, Melbourne, Vancouver, Londres, Nova Iorque, grandes cidades capazes de influenciar os seus países como um todo, Moscovo, Nairobi, Deli... Com base no estudo-piloto de Copacabana tivemos uma reunião com cidades interessadas em participar e assentámos num protocolo. O que acontece é que, depois de ouvir as populações, recolhemos contribuições de peritos de várias áreas e, na fase final, fizemos reuniões com as autoridades locais. Arrancámos com 35 cidades, mas neste momento já são mais de 170. Um dos elementos centrais do programa é um guia da Cidade Amiga do Idoso onde existem checklists que cobrem as várias áreas e que permitem identificar, depois de adaptados localmente com a colaboração de grupos focais de idosos, as áreas onde se pretende intervir.
Lisboa vai aderir?
Espero que sim. Tenho vindo a Lisboa regularmente para discutir essa questão e há pessoas interessadas, mas isso ainda não aconteceu. Tenho tido contactos com o Ministério da Saúde e autoridades locais em Lisboa, Porto, Évora, com vista à criação de uma rede de cidades amigas do idoso em Portugal. A Fundação Gulbenkian também já demonstrou interesse. Não há dificuldades de maior, os materiais estão todos traduzidos - ainda que seja necessário um trabalho de adaptação.
É preciso falar com os idosos de Lisboa, porque eles é que devem dizer o que é que é prioritário e o que é que faz falta incluir. Depois é preciso envolver as autoridades municipais, a iniciativa privada, as ONG, as fundações, o sector académico. No dia 9 de Dezembro temos uma cimeira em Nova Iorque com o mayor, Michael Bloomberg, para discutir a implementação do programa nessa cidade, e estamos a fazer o mesmo no Rio, em Buenos Aires, na Cidade do México, em Nairobi, Istambul. A mesma abordagem pode ser adaptada a um país altamente sofisticado ou a um país pobre.

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