A Rússia a seus pés
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09.11.2008
Vladimir Putin tem a aura de líder, o culto de personalidade e os corações dos russos.
O país que quer voltar a ser um império acredita que precisa de um imperador.
Irá São Petersburgo chamar-se Putinburgo? Por Dulce Furtado
Passaram seis meses desde que Vladimir Putin deixou a presidência da Federação Russa, dando ao protegido Dmitri Medvedev a formalidade institucional de primeira figura de Estado. Mas da forma à prática vai larga distância. E continua a ser Putin, com a aura de quem reergueu o poderio militar e económico da Rússia, que mantém as mãos no leme moscovita.
É nos corações de quase todos os russos, e por todas as razões, o líder de facto da Rússia moderna. Como José Estaline e, antes, o fundador da União Soviética, Vladimir Lenine, o ex-Presidente e agora primeiro-ministro russo goza de enorme culto de personalidade, construído para, e em muito por, ele - numa zelosa e permanente mise en scène que o apresenta com imagem imperial.
A sua fotografia está presente em todos os edifícios governamentais e escolas e serviços públicos; consta que ainda não pendurou na parede do seu novo gabinete, na Casa Branca russa (sede do Governo), a fotografia de Medvedev. O seu nome é marca de vodkas e enlatados de peixe, dois produtos de elevadíssimo consumo no país. Tem clubes juvenis de fãs e corre desde o ano passado uma petição online para que a sua cidade natal, São Petersburgo, mude de nome para Putinburgo.
Simultaneamente, como outros líderes russos antes dele - desde os czares a Lenine e a Estaline - o culto de Putin baseia-se na ideia de que ele é um homem do povo. É uma premissa de modéstia testada e acarinhada pelos spin doctors do Kremlin: o líder é "um como nós".
Por isso foi permitido conhecer-lhe a infância pobre e austera num apartamento comunitário, por cujas escadarias corriam ratos conforme Putin descreveu numa entrevista em 2000. Amiúde é possível vislumbrar-lhe a fé ortodoxa, abraçada pela esmagadora maioria dos russos: Putin a acender velas em frente de ícones religiosos e a fazer o sinal da cruz, muito embora não existam registos credíveis de participar nos sacramentos. Quando a revista Time o questionou se acredita em Deus, respondeu: "Há coisas em que acredito que não devem, pela minha posição, ser para consumo generalizado porque tal pareceria um striptease político".
Embora seja sempre generoso com os jornalistas para uma boa foto em pose imperial, Putin não aceita intromissão na vida privada. E os media, controlados pelo Estado, aquiescem. Mantêm respeitosa distância das filhas - Maria, de 23 anos, e Iekateriana, de 22 - e a mulher, Liudmila, permanece em recato. Rumores sobre a vida amorosa do líder são implacavelmente castigados com despedimentos de jornalistas e ameaças de encerramento de jornais.
Dos seus hábitos e rotinas pessoais pouco se sabe além da paixão pelo desporto, num país que endeusa os seus campeões olímpicos. Putin tem orgulho na boa forma física que possui aos 56 anos e não se coíbe de o mostrar. Em particular no judo, modalidade em que é cinturão negro e sobre a qual lançou um vídeo didáctico, pelo início de Outubro, no qual faz demonstrações - parece ser ele sempre a sair-se melhor no tapete.
Um tigre de presente
Não é muito comum Putin chamar os jornalistas a visitá-lo na luxuosa residência oficial que ocupa há mais de oito anos no distrito rural de Novo-Ogariovo, nas imediações de Moscovo. Mas fê-lo, sem revelar a razão, na noite de 9 de Outubro, dois dias após o seu aniversário.
A julgar pela reacção de surpresa que mostraram perante as câmaras, nenhum suspeitou que Putin lhes iria apresentar, enlevado, o presente que mais apreciou: uma cria de dois meses do raríssimo tigre siberiano, de que apenas uns 400 espécimes vivem em liberdade. Da mesma espécie da fêmea adulta que, em Agosto, Putin terá impedido de atacar uma equipa de filmagens na Reserva Natural de Ussuriski, disparando sobre ela um dardo tranquilizador.
Ficou por dizer quem lhe ofereceu o animal, mas a imprensa russa apontou como mais provável origem o zoo privado do Presidente da Tchetchénia, Ramzan Kadirov, que pelo início da década olhava Putin à distância de uma trincheira inimiga.
Uma semana antes, Kadirov prestara homenagem ao antigo rival de guerra dando o seu nome à principal rua de Grozni: a Avenida da Vitória, deixada em escombros nas duas guerras secessionistas travadas entre tchetchenos e russos, a segunda numa operação militar lançada por Putin a 26 de Agosto de 1999, então primeiro-ministro do Presidente Boris Ieltsin.
"[Putin] disse que não pode nem deve pressionar ninguém. Mas preferia que isto não acontecesse", asseverou Dmitri Peskov, porta-voz do primeiro-ministro, sugerindo que a modéstia do líder não se enquadrava bem com ruas com o seu nome. Nenhum comentário de distanciação foi feito, porém, em relação à pequena cria de tigre siberiano. Nalguns casos, Putin preferirá que nem se saiba que o "escudo do chefe inimigo" lhe foi deposto aos pés.
Tem manifestado clara preferência pela aclamação dos votos, mesmo nas expressões mais incríveis como a dos resultados das legislativas de Dezembro de 2007 na Tchetchénia. O sufrágio teve ali uma taxa de participação de 99 por cento, e 99 por cento dos votos foram para o partido Rússia Unida, cuja lista era encabeçada por Putin.
Um jornalista britânico confrontou-o com tais números, na última grande conferência anual que deu como chefe de Estado, em Fevereiro: eram credíveis? O líder preferiu que a resposta fosse dada por um jornalista de Grozni presente na sala. "São números absolutamente realistas", asseverou o tchetcheno, terminando a frase com uma obsequiosa cortesia da cabeça.
"Putin observava com uma expressão que tinha parte de satisfação e parte de enfado, o próprio rosto do poder que não responde perante ninguém", descrevia a revista Esquire em Setembro, numa edição dedicada às mais influentes figuras mundiais do século XXI. Em Dezembro de 2007, a Time elegera Putin Personalidade do Ano.
E agora algo diferente
Vladimir Putin, impedido pela Constituição de cumprir um terceiro mandato presidencial consecutivo, pode voltar à chefia de Estado já no próximo ano - logo após uma saída de cena de Dmitri Medvedev, tão graciosa quanto o mentor lhe quiser conceder.
Disse o ex-tenente do KGB, e depois chefe dos sucedâneos Serviços Federais de Segurança, que não pretendia promover uma revisão constitucional para afastar aquele obstáculo e perpetuar-se no poder. Habilmente, não é esse o impedimento que agora está prestes a ser derrubado. E nem sequer é Putin a tomar a iniciativa, mas sim o sucessor que escolheu há 11 meses: foi Medvedev quem propôs o alargamento dos mandatos presidenciais na Rússia de quatro para seis anos, no primeiro discurso anual de Estado, quarta-feira perante a Assembleia Federal.
"Medvedev pode demitir-se já no início do próximo ano, justificando-se com a alteração do enquadramento constitucional, o que conduzirá a eleições presidenciais antecipadas ainda em 2009", admitia no dia seguinte fonte do Kremlin citada, mas não identificada, pelo diário russo Vedomosti. Apressou-se o Kremlin a explicar que a extensão de mandato presidencial não é para já, que não se aplicará ao que Medvedev começou a cumprir em Maio. Não, seis anos na presidência é para depois.
Mesmo que Putin não se importe de ficar no segundo plano institucional por mais três anos - enquanto Medvedev se tenta desembaraçar de uma brutal crise financeira global e põe em marcha reformas sociais impopulares - nada o obriga realmente a ficar a ver o protegido no cadeirão do Kremlin outros seis anos.
No terreno de guerra
Vladimir Putin continua hoje a ser o mais popular líder político do país, com uma taxa de aprovação de 83 por cento (em Outubro). É ele - orgulhoso portador da identidade eslava, homem dinâmico, seguro, capaz de responder de cabeça erguida a toda e qualquer ameaça à Rússia, interna ou externa, real ou imaginária - que os russos mais querem ver a protagonizar os noticiários.
São rituais eximiamente encenados na rotina das transmissões televisivas: Putin a reunir com subordinados no Kremlin e na Casa Branca, amiúde acompanhado por Koni, a sua cadela Labrador Retriever preta, ou a supervisionar pessoalmente os preparativos para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 nas paisagens invernosas de Sotchi, ou ainda a receber outros líderes políticos na dacha de Novo-Ogariovo.
Durante a guerra de cinco dias de Agosto passado na Geórgia, o primeiro a ser mostrado com os pés no terreno e as mãos na massa foi Putin, que voou de imediato de Pequim para a frente de combate. Medvedev permaneceu em Moscovo.
Esta imagem de herói de acção é um contraste brutal com a que mais frequentemente foi vista ao antecessor de Putin no Kremlin, Boris Ieltsin: um homem envelhecido, doente e quase sempre bêbado. A mística de Putin visa dar "substância visual" à história recente da Rússia que agora fala de olhos nos olhos com as maiores potências do mundo, depois do colapso financeiro e da humilhação sofrida no palco internacional na década de 1990, fruto do falhanço do projecto democrático de Mikhail Gorbachov, de Ieltsin e dos liberais russos.
"Desde que Putin chegou ao poder que há esta sensação de ele querer cumprir uma missão messiânica para tornar a Rússia grande", avalia a analista política russa Natalia Gevorkian. A ideia é partilhada pelo investigador Emil Dabagian, da Academia Russa de Ciências, que sublinhou ao diário Moscow Times a "linha muito fina, por vezes invisível, que separa o populismo do autoritarismo": "Quando um líder está no poder durante muito tempo, começa a acreditar que tem uma missão messiânica de governação. Encorajado por aduladores que o rodeiam, esforça-se para se elevar acima de tudo e tornar-se no árbitro supremo".
Messias de tronco nu
Alicerçado nos ganhos obtidos com a expansão do sector energético, Putin retomou as grandiosas paradas na Praça Vermelha e a produção de armamento, dando renovada força ao músculo militar do país. Mais. Ele é o protagonista desse fortalecimento, sendo fotografado e filmado em uniforme militar, a pilotar jactos de combate, junto a tanques armados ou aos comandos de submarinos.
Os russos aplaudem, gostam de um líder forte - um terço são até favoráveis a regimes autoritários. Em Agosto de 2007, fotografias do musculado líder, a pescar de tronco nu, a caçar e a andar a cavalo por trilhos das montanhas siberianas de Tuva fizeram as delícias do prime time.
As imagens encheram páginas do tablóide russo Komsomolskaia Pravda sob um título que sugeria "Sê como Putin". Segundo o jornal, o site do diário foi prontamente inundado por comentários de mulheres a elogiarem o "torso vigoroso" de Putin.
Comentando aquelas fotografias na rádio Eco de Moscovo - rara voz independente que permanece na Rússia - a politóloga Ievgenia Albats afirmou que eram pouco apropriadas para um Presidente. De imediato a estação foi inundada por telefonemas e emails de protesto de ouvintes, maioritariamente mulheres.
Inevitavelmente, os "kremlinologistas" procuraram destrinçar a mensagem política inerente às imagens. Alguns, como Ievgenia Albats, leram ali uma operação para aumentar a força de atracção de Putin junto dos eleitores, num sinal de que não estava ainda disposto a largar o poder, mesmo que abandonasse o Kremlin. Outros, como Stanislav Belkovski, director do think tank moscovita Instituto de Estratégia Nacional, viram nas fotografias um esforço para mostrar que "Putin sabe relaxar" e que estava a "preparar-se para se afastar da cena política".
Os meses seguintes dariam razão a Albats e resposta às ansiedades da esmagadora maioria dos russos que consideram Putin insubstituível na liderança da Rússia. A prazo poderá até assumir um estatuto quase mitológico de "pai da nação" - como antes dele os czares foram chamados "paizinhos", representantes de Deus Pai na Terra.
É esse, de resto, o propósito de um movimento cívico que juntou mais de 30 milhões de aderentes em apenas um ano: dar a Putin o cargo institucional de "líder nacional", acima do sistema político estabelecido, incluindo primeiro-ministro e Presidente eleitos, e, para mais, liberto dos constrangimentos constitucionais de mandato.
A ideia é partilhada pelo Rússia Unida, que detém maioria constitucional no Parlamento. O coordenador de política nacional do partido, Abdul-Khakim Sultigov, instou à criação de um Conselho Cívico da Nação para aprovar um Pacto de Unidade Civil que "formalize a instituição de líder nacional como elemento de base da nova configuração de governação". Para não restarem dúvidas de interpretação, Sultigov estabeleceu paralelo com a Assembleia da Nação que, em 1613, elegeu Mikhail Romanov czar.

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