Investigação da assimetria que criou o Universo galardoada com Nobel da Física
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08.10.2008, Clara Barata
Estudos de japoneses sobre mistério da matéria foram distinguidos, mas em Itália diz-se que ficou de fora o trabalho de Nicola Cabibbo
Se algum dia nos encontrarmos face a face com um extraterrestre, será que poderíamos dar-lhe um passou-bem interplanetário? Há sempre a possibilidade de ele ser feito de antimatéria, e não da matéria normal de que somos feitos, nós e as estrelas. Se ele fosse de antimatéria, nós e o ET acabaríamos por aniquilar-nos mutuamente. Deste encontro fatal restaria apenas radiação.
Mas o Universo só existe porque a matéria pesou ligeiramente mais no prato da balança do que a antimatéria - algo que seria o oposto exacto da matéria - há coisa de 14.000 milhões de anos, quando aconteceu o Big Bang. E qual a razão desse desequilíbrio? Não se sabe, mas os três cientistas galardoados com o Nobel da Física de 2008 foram pioneiros na investigação deste segredo fundador do Universo.
Um minúsculo desvio
Os cientistas descrevem o Universo como sendo feito pontinho a pontinho, por partículas mais pequenas que os átomos (como uma imagem digital é composta por pixels). Com o Big Bang, foi criada tanta matéria como antimatéria - que pode ser definida como o seu inverso, ou o reflexo no espelho. Houve uma ligeira desproporção que favoreceu a matéria: um desvio da simetria perfeita de apenas uma partícula extra de matéria por cada 10.000 milhões de partículas de antimatéria.
Mas essa ligeira diferença lançou as sementes do nosso Universo; bastou para criar as galáxias, as estrelas e os planetas, e permitiu a nossa própria existência.
Yoichiro Nambu, de 87 anos, um norte-americano nascido em 1921 no Japão, foi recompensado com metade do valor do prémio pela "descoberta do mecanismo de ruptura espontânea da simetria na física subatómica", diz o comunicado de imprensa da Academia de Ciências Sueca. Essa ruptura da simetria é precisamente o facto de haver mais matéria do que antimatéria no Universo.
Atrás de uma teoria de tudo
As ideias de Nambu são uma base importante do Modelo Standard da Física, a teoria com que os cientistas tentam descrever, de forma unificada, todas as forças e partículas dos Universo. Mas esta ambição da física de desenvolver uma "teoria de tudo" continua por satisfazer: ainda não consegue explicar a gravidade nem por que é que as coisas têm massa.
Aliás, o novo acelerador de partículas do CERN, na fronteira entre a França e a Suíça, tem como principal objectivo tentar descobrir uma partícula (o bosão de Higgs) que poderá explicar como as outras partículas têm massa.
Os japoneses Makoto Kobayashi, de 64 anos, e Toshihide Maskawa, de 68, recebem um quarto do milhão de euros do Nobel por terem prosseguido os estudos de Nambu, explicando que a ruptura da simetria supõe a existência de pelo menos três famílias de quarks - as partículas mais elementares da natureza, de que se compõem os protões e neutrões do núcleo dos átomos.
O trabalho destes três investigadores contribuiu para explicar a assimetria que resultou num Universo constituído sobretudo por matéria - a antimatéria continua a existir, mas é muito instável, por causa das interações com a matéria. Através do estudo das partículas subatómicas chamadas kaões, previram a existência de uma nova família de quarks. Os aceleradores de partículas confirmaram as suas previsões: o quark charm foi descoberto em 1974, o bottom em 1977 e o top em 1994.
Italiano de fora?
Mas o prémio deste ano não escapa a uma polémica: em Itália, dizem que ficou de fora o físico Nicola Cabibbo, que o jornal La Reppublica diz ser considerado o precursor da área de estudo dos japoneses (e norte-americano) galardoados.
"Estou feliz por ver o Nobel atribuído a esta área da física. Mas não posso esconder um pormenor que me enche de amargura: Kobayashi e Maskawa têm como único mérito terem generalizado, ou simplificado, uma ideia central cuja paternidade é atribuída ao físico italiano Nicola Cabibbo", disse ao La Repubblica Roberto Petronzio, presidente do Instituto Nacional de Física Nuclear de Itália.

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