"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, setembro 30, 2008

A paz de Munique levou à guerra no ano seguinte
http://dn.sapo.pt/2008/09/30/internacional/a_de_munique_levou_a_guerra_ano_segu.html

ABEL COELHO DE MORAIS
Efeméride. Em Setembro de 1938, Londres e Paris cediam perante Hitler

Churchill, então quase isolado, definiu o acordo como uma "derrota total"

Há precisamente 70 anos o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain regressava a Londres convicto de ter alcançado "uma paz honrosa" - a "paz para o nosso tempo", como proclamou ao desembarcar na capital britânica.

Horas antes, de madrugada, assinara com o führer alemão Adolfo Hitler, o duce italiano Mussolini, e o chefe do Governo francês Édouard Daladier, o Pacto de Munique, o instrumento diplomático que visava substituir a lógica das relações europeias resultante do Tratado de Versalhes, imposto à Alemanha derrotada em 1918.

O acordo permitia a Hitler anexar a região dos Sudetas, que correspondia a partes das províncias checoslovacas da Boémia e Morávia, habitada por uma população de extracção alemã. Hitler ameaçara tomar pela força esta região e as negociações em Munique, mediadas por Mussolini por insistência de Londres, destinavam-se a impedir um confronto. Para Chamberlain evitara-se o "cavar trincheiras" por causa de uma "desavença numa terra distante entre povos dos quais nada sabemos".

Quando Chamberlain se reuniu a 29 de Setembro em Munique com os outros dirigentes europeus tinha presente o relatório das chefias militares britânicas com um sombrio ponto da situação - "não estamos preparados para a guerra" - e as preocupações de defender um império que se estendia da América à África, do Médio Oriente à Ásia. Além disso, Chamberlain e Daladier temiam nova guerra na Europa, um cenário que a retórica belicista de Hitler não cessava de cultivar.

O julgamento histórico sobre Chamberlain é duro e das conclusões do encontro em Munique vai surgir, com conotações negativas, o termo "apaziguamento". No seu Executivo, só uma minoria se opõe ao acordo: o ministro dos Negócios Estrangeiros, Anthony Eden, e o responsável pela Marinha de Guerra, Duff Cooper, que se demitem. Voltarão ao Governo com Winston Churchill, em 1940.

Na oposição, será Churchill quem define o sucedido como uma "derrota total". Entre apupos de uma Câmara dos Comuns que votará por larga maioria o acordo, dirá : "Isto é apenas o princípio (...) de tempos amargos, que se irão suceder ano após ano".

Pouco menos de um ano após a assinatura do acordo de Munique, a 1 de Setembro de 1939, começava a II Guerra Mundial.