"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, setembro 19, 2008

Programa de software estuda a manipulação dos discursos
Investigadores criam mecanismo para saber se os políticos dizem a verdade
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1343381
19.09.2008 - 17h17 Inês Subtil

Chegou o momento da verdade para os políticos. Saber se estão ou não a mentir será possível sem que para isso tenham que responder a perguntas embaraçosas sobre a sua vida pessoal. Uma equipa de investigadores canadianos tem uma proposta bem mais simples. Através de um programa de "software" os cientistas analisam o discurso, a voz e as expressões faciais e descobrem se há manipulação ou não da verdade.

“O mais importante é reconhecer que os políticos não são normalmente bons a mentir sobre tudo, mas são muito adeptos da ‘dança em torno’ da verdade”, explicou David Skillicorn, matemático e investigador de ciências da computação na Queen’s University em Kingston, Ontário, no Canadá, citado na revista "New Scientist".

O investigador diz que as eleições de 2008 para a presidência dos Estados Unidos da América (EUA) têm dado muitas oportunidades aos cientistas para ver os políticos em acção. Um bom exemplo de manipulação da verdade foi a expressão de repulsa do ex-presidente norte-americano, Bill Clinton, durante a convenção nacional dos Democratas quando disse a palavra “Obama”, referindo-se ao candidato do partido que venceu a sua mulher, Hillary Clinton, nas eleições para a corrida à casa Branca. Durou uma fracção de segundo. Quase ninguém reparou.

Mas, o que passou despercebido ao comum dos mortais, foi facilmente detectado por Paul Ekman, que estuda as expressões faciais e a maneira como actuam os políticos, em relação ao que pensam, há 40 anos. “Tendo em conta que Clinton provavelmente sentiu rejeição por a sua mulher não ter conseguido a nomeação, eu diria que todo o discurso foi na verdade dado de uma maneira muito graciosa”, explicou Ekman, citado pela "New Scientist".

’O Jogo da Sedução’

Apesar deste pequeno percalço continua a ser muito difícil para a maioria das pessoas perceber se os políticos dizem o que realmente pensam ou não. Por isso, Skillicorn criou um programa informático que funciona como uma espécie de detector do ‘verbal spin’, ou seja, da manipulação verbal nos discursos, que determina quando a pessoa “se apresenta a si mesma ou o conteúdo do que diz de uma maneira que não reflecte necessariamente o que sabe ser a verdade”, explicou, citado pelo “El Mundo”.

Trata-se portanto de uma maneira de analisar não a mentira, mas sim a tendência dos políticos para apresentar uma imagem que lhes convém no processo de sedução do eleitor. O "software" analisa indicadores de ‘verbal spin’: o recurso a frases generalistas, sem acrescentar muitos detalhes ou precisar o que se diz; o uso do pronome pessoal “nós”, em vez do “eu”; e a utilização de verbos de acção como “vou” ou “vamos” e de palavras de grande conteúdo emocional, como “ódio” ou “inimigo”, apontam para maiores níveis de manipulação dos discursos.

Objecto de estudo: Eleições dos EUA

O investigador canadiano e a sua equipa analisaram um conjunto de 150 discursos de políticos envolvidos na corrida eleitoral para a presidência norte-americana de 2008, que inclui candidatos que ficaram pelo caminho como Hillary Clinton, do partido democrata, ou Mitt Romney, do partido republicano.

Skillicorn descobriu que apesar de todos os discursos serem ensaiados e escritos por profissionais da retórica, apresentavam diferenças substanciais: “É óbvio que os discursos ainda são muito individualizados”, disse o investigador, citado pela "New Scientist". Outra das conclusões é que todos os candidatos tiveram oscilações no seu ‘verbal spin’, dependendo da ocasião.

O mais curioso é reparar que no caso do uso de pronomes como “nós” e “eu”, a escolha é feita a nível subconsciente, não interessando qual é a forma escrita no discurso.

Os resultados não deixam dúvidas quanto ao candidato que mais manipula o que diz: Barack Obama, o candidato democrata, aparece destacado com um ‘verbal spin’ de 6,7 – onde 0 é o valor médio de todos os discursos políticos analisados, e os valores positivos representam uma maior manipulação.

Por seu lado, John McCain, o representante republicano, registou -7,58 valores, enquanto o discurso de Hillary Clinton durante a convenção nacional dos democratas alcançou os 0,15. Da mesma forma, Skillicorn concluiu que Sarah Palin, a candidata republicana à vice-presidência, apresenta um ‘verbal spin’ ligeiramente mais alto do que o valor médio.

O discurso de McCain parece de “alguém que está deprimido”

O cientista canadiano concluiu, citado pelo “El Mundo”, que “Obama é muito hábil na hora de recorrer a uma retórica emotiva, quando fala dos diferentes temas em jogo nas eleições, e que as sondagens reflectem que essa estratégia lhe está a ser muito vantajosa”.

Já McCain, ao recorrer a uma linguagem mais directa e a um tom calmo, é claramente prejudicado. No artigo da "New Scientist", Branka Zei Pollermann, fundadora do Vox Institute em Genebra, na Suíça, que analisou os discursos do candidato republicano, sugere que isso acontece porque os seus discursos falham a nível emocional.

A investigadora vai inclusive mais longe e diz que “a análise do tom de voz de McCain é muito semelhante à de alguém que está clinicamente deprimida”. Pollerman é psicóloga e usa "software" de análise auditiva para mapear o discurso de cada pessoa, que depois compara com o perfil das expressões faciais, usando para isso os indicadores definidos por Ekman.

Segundo Skillicorn, citado pelo “El Mundo”, “as pessoas têm tendência a ver os políticos como vendedores de carros”, o que acaba por tornar o ‘jogo político’ numa questão de eficácia da manipulação verbal, o que melhor souber vender, mais eleitores consegue.

O mesmo investigador explica, na "New Scientist", que “os candidatos acreditam claramente no que estão a dizer, mesmo que estejam a dar mais atenção a alguns factos do que a outros. Nesse sentido, apanhar alguém a mentir descaradamente é relativamente raro”.