"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

domingo, dezembro 07, 2008

"Pais procuram promover crianças copiando os ricos"
http://dn.sapo.pt/2008/12/07/centrais/pais_procuram_promover_criancas_copi.html
CÉU NEVES

Escolhas. Os nomes que damos às nossas crianças parecem obedecer mais a uma lógica de moda do que a um sinal de pertença de classe social. Por isso se repetem tanto ao longo das décadas, diz antropólogo. Só que em Portugal existe um "conformismo nominativo" levado a extremos pouco comuns noutros países

"Pais procuram promover crianças copiando os ricos"

João e Maria são nomes que têm resistido a todas as modas. Os papás e as mamãs adoram-nos e os padrinhos subscrevem-nos, ou vice-versa, e há sempre milhares de crianças assim chamadas todos os anos. Sozinhas ou acompanhadas, as Marias só são ultrapassadas pelas Anas na década de 1985/95, sem nunca deixarem de surgir na lista dos dez mais. E o mesmo acontece com os Joões entre 1900 e 1980, com uma excepção nos anos 50. Nesse ano, os Augustos, e outros nomes iniciados por A, os Ruis e os Júlios arredaram-nos do pódio.

Porque será que os portugueses são tão pouco criativos? O sistema de atribuição de nomes não evolui? "Vai evoluindo (lentamente e na base de um passado histórico longo), mas o fenómeno de nomeação nas sociedades europeias está ligado a modas e, por isso, observamos tanta repetitividade nos nomes", responde o antropólogo João de Pina Cabral, co-organizador do livro Nomes: Género, Etnicidade e Família. Só que, em Portugal, "esta propensão para o conformismo nominativo é levado a extremos pouco comuns noutros países". E justifica: "Os pais procuram promover as criança em termos de classe copiando os nomes que os ricos e os famosos dão".

Então e as Vanessas e os Sandros? Não existem em todas as classes! É verdade, mas não estão entre os mais escolhidos. E, depois, parece que os eleitos pelas classes sociais altas acabam por se alargar a todas as classes. E não existem sinais de pertença social na escolha dos nomes dos filhos? "Existem, mas não se distingue dessa forma. Aqui há que distinguir entre nomes próprios e nomes de família", responde Pina Cabral. E explica: "Os nomes próprios, numa altura em que havia uma clara separação entre meios populares/rurais e meios de classe média, assinalavam diferenças de classe, mas isso tem vindo a alterar-se. Devido ao impacto da escolarização e dos mass media, as classes menos protegidas querem dar aos filhos os nomes que têm os filhos dos mais ricos. No que remete para nomes de família, ainda há algumas formas de diferenciação, mas isso também está a mudar muito rapidamente."

Os mass media aceleraram esse contágio, o que faz com que as listas dos dez mais sejam muito idênticas a partir da década de 60, precisamente quando é introduzida a televisão em Portugal. E existe um outro fenómeno: o nome de um familiar (os pais ou padrinhos) que vai passando de geração em geração e que já não está tanto na moda.

Mas há modas e modas, nomes e nomes, e pais que fazem questão de escolher designações completamente fora dos registos habituais. Tão fora desses registos que estão mesmo proibidos. A página do Instituto dos Registos e do Notariado (INR) indica os admitidos e não admitidos até 30 de Junho de 2008 ( http/www.irn.mj.pt/IRN/sections/irn/a_registral/registos-centrais/ /docs-da-nacionalidade/vocabulos-admitidos), uma lista que é actualizada todos os seis meses. É que os "nomes portugueses deve respeitar a onomástica portuguesa, designadamente a que está estabelecida no Vocabulário Onomástico da Academia das Ciências", esclarecem os serviços do IRN. E acrescentam: "Quando surgem dúvidas, é realizada uma consulta a um especialista em linguística. A lista é o resultado dessas consultas Daí que nas listas não constem nomes em relação aos quais não existem dúvidas sobre a admissibilidade." Como João e Maria! |