Jovens gregos vendem três pedras por um euro
http://dn.sapo.pt/2008/12/15/internacional/jovens_gregos_vendem_tres_pedras_um_.html
PATRÍCIA VIEGAS
Violência. Após uma semana de protestos são muitos os especialistas que tentam compreender a mistura explosiva entre jovens anarquistas, desempregados, mal pagos e, até mesmo, de classe média. Por estes dias, reportou o 'Observer', já se vendem pedras, enquanto a polícia compra gás lacrimogéneo
Gregos falam em "levantamento popular"
"Os jovens, que, normalmente, não se veriam como revolucionários, começaram a armazenar pedras, rochas e pedaços de mármore trazidos de Salónica, Corfu e Creta. Também começaram a vendê-las - três pedras pelo preço de um euro - a outros manifestantes cujos pais tanto vivem na opulência ao estilo de Hollywood como numa situação de carência social, mas que estão unidos pelo desejo comum de as arremessar contra o odioso símbolo da autoridade: a polícia."
O relato é de Helena Smith, correspondente do Observer a viver na Grécia há mais de duas décadas, chamando a atenção para os protagonistas da violência juvenil que ao longo da última semana tem abalado aquele Estado membro da UE. O catalisador da onda de protesto foi a morte de um adolescente de 15 anos, Alexandros Grigoropoulos, às mãos de um agente da polícia grega, no bairro boémio de Exarchia. Mas agora, depois de centenas de detenções, lojas, carros e bancos destruídos, os jovens continuam com o protesto, alguns deles barricados na universidade onde, em 1973, a junta militar matou vários estudantes (mas onde desde então a polícia está proibida de entrar pela Constituição).
"A ira dos jovens está directamente ligada à sua angústia. Têm um sistema educativo do século passado e a educação é totalmente estranha às suas necessidades e às questões que os preocupam", escreveu no jornal Avghi, Alexis Dimaras, historiador na área da educação. "O desemprego nos jovens e a sua dificuldade em entrar no mundo do trabalho juntam-se ao baixo nível dos salários que estagnaram nos últimos anos entre os 700 e os 900 euros", disse, à AFP, Manolis Hadzidakis, analista económico da empresa Pigasos.
Numa sondagem ontem publicada pelo jornal Kathimérini, seis em cada dez gregos interrogados consideraram que o país vive actualmente "um levantamento popular". A maioria, 69%, acredita que o Governo conservador de Costas Caramanlis geriu muito mal a crise. Mesmo assim, o primeiro-ministro já avisou que recusa demitir-se e convocar eleições legislativas antecipadas. O Pasok, há quatro anos na oposição, mas em recuperação nas sondagens, tenta entretanto colher dividendos. "Nós temos um Governo que ignora o grito da sociedade, incapaz de conduzir o país com firmeza à mudança, que tem medo do povo", declarou ontem Georges Papandreou, perante militantes socialistas gregos.
Mas o problema é que há neste momento uma crise de regime. "A angústia tornou-se endémica e os partidos políticos não apresentam nenhuma perspectiva credível", escreveu, no Elefthérotypia, o sociólogo Constantin Tsoukalas. Numa altura em que os protestos estão longe de serem controlados, a polícia mantém-se em alerta, com o stock de gás lacrimogéneo em baixa. O Governo já encomendou mais a Israel.

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