Se alguém num court de ténis parece ter tiques, isso é treino
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10.05.2009
Basta ver um encontro de ténis, qualquer um, para detectar comportamentos repetitivos dos tenistas entre os pontos.
Parecem tiques. São rotinas. E depois há as superstições... Por Luís Francisco
Dia 3 de Maio de 2009: em Roma, após a final do Open de ténis da capital italiana, a apresentadora do evento, a antiga tenista italiana Lea Pericolli, quebra o protocolo na cerimónia da entrega de prémios. Perante o entusiasmo do público, pede ao sérvio Novak Djokovic, finalista vencido, que faça a sua imitação do espanhol Rafael Nadal, vencedor do torneio. O sérvio é um conhecido clown do circuito, mas hesita. "Normalmente faço isto sem ele estar a ver..." Mas Nadal quer ver. O público também. Djokovic arregaça as mangas para cima dos ombros, desce os calções até aos joelhos e mima alguns dos gestos típicos do espanhol no court. É um sucesso.
Quando a coisa chega a este nível, o assunto já não pode ser tabu. É verdade que muitos tenistas têm tiques em campo, uns mais do que outros, alguns ao ponto de se tornarem irritantes para os adversários e cansativos para os espectadores, mas o tema, agora, pode ser abordado sem medo de ferir susceptibilidades. Mesmo que se leve o assunto ainda mais longe, inquirindo sobre as superstições de cada um, ninguém parece ofender-se com a pergunta.
Ponto de partida: há que distinguir entre o que, no campo, é um comportamento repetitivo e alguma superstição mais disfarçada. Porque uma coisa é o tenista fazer sempre os mesmos movimentos entre os pontos; outra, bem diferente, é ele não fazer a barba durante um torneio, como confessa abertamente o norte-americano James Blake, um dos animadores do Estoril Open.
No primeiro caso, estamos perante rotinas e essas rotinas são encorajadas pelos técnicos. Cristina Rolo, doutorada em Psicologia do Desporto e co-autora, com Dave de Haan, do livro Treino Mental no Ténis: Estratégias Práticas para o Sucesso, que acaba de ser lançado no Estoril Open, diz mesmo que as rotinas "são muito importantes, não só para os profissionais, mas para qualquer um, como forma de potenciar a concentração e a confiança durante os jogos". E explica porquê: "As rotinas entre os pontos são fundamentais para o tenista se abstrair e preparar o ponto seguinte".
O primeiro passo, após perder ou ganhar um ponto, é denominado "Resposta Física", consistindo em virar costas ao adversário, aplaudir uma excelente jogada do oponente ou celebrar com linguagem corporal a conquista de um excelente ponto. A etapa seguinte, "Relaxação", engloba caminhar, relaxar os braços e respirar eficientemente. A terceira etapa, "Preparação", tem início a dois ou três passos da linha de fundo, em que o tenista projecta uma linguagem corporal positiva, pensa ou verbaliza a pontuação, decide para onde pretende servir ou responder e planeia o próximo ponto. A última etapa da rotina entre pontos, denominada "Rituais", inclui o conjunto de rituais automatizados que facilitam a aquisição de um nível óptimo de activação e concentração para o jogador disputar o ponto seguinte.
Em relação às rotinas, Pedro Felner, treinador de ténis, acrescenta: "Há cerca de 20 segundos entre os pontos. É preciso respirar fundo, recuperar fisicamente, esquecer o ponto anterior. E depois, digamos, durante cinco segundos, encontrar concentração para o ponto seguinte. Para o conseguir, cada tenista encontra o seu ritual. Estes comportamentos são consequência do que treinamos para melhorar a concentração", diz Felner. Mas cada atleta tem de encontrar sozinho a sua zona de conforto.
As cuecas de Nadal
É por isso que Nadal dá sempre um jeitinho nas cuecas ou Federer mexe no cabelo. No Estoril Open, vemos Juan Monaco puxar para cima a manga direita antes de receber o serviço do adversário, enquanto Florent Serra caminha decidido até ao final do campo após cada ponto, como se se fosse embora, antes de se voltar para continuar o jogo. Albert Montanes está continuamente a ir buscar a toalha para limpar a cara, Marc Gicquel roda a raqueta duas vezes enquanto espera que o adversário bata a bola de saída.
Elas não são diferentes. A belga Yanina Wickmayer, a campeã desta edição do Estoril Open, parece não saber o que fazer da mão esquerda quando não está a servir: ajeita o chapéu, acaricia a barriga, dá palmadas na coxa... A romena Sorana Cirstea dá uma voltinha no fundo do court entre cada ponto, a eslovaca Jarmila Groth está constantemente a enfiar as unhas nas cordas da raqueta, a israelita Shahar Peer dá palmadas na coxa esquerda. Cada um procura a rotina que lhe permita concentrar-se no jogo. Cristina Rolo: "A rotina certa é a que funciona para um jogador. Isto independentemente do número ou do tipo de gestos. Cada caso é um caso".
E até há casos em que parece não haver qualquer rotina, embora, na verdade, ela exista sempre. James Blake limita-se a caminhar para o outro lado do court quando os pontos terminam. "Acho que as pessoas pagam bilhete para me verem jogar, não para perder 25 segundos entre cada ponto. Eu estou em forma, não preciso de fazer pausas..."
Entram as superstições
Haverá quem precise, talvez, mas nem é tanto uma questão física. É mesmo um exercício de concentração mental, num desporto com encontros muito longos e constantes interrupções. Pode este comportamento "normal" evoluir para algo de doentio? Sim, não é comum, mas acontece. Ou porque o tenista, propositadamente, usa estes expedientes para irritar o adversário e ganhar tempo; ou porque o somatório de pequenos gestos se torna um peso excessivo para o próprio jogador.
Ainda mais raro, este cenário. João Cunha e Silva era particularmente conhecido pelas suas rotinas cerradas durante os jogos, mas fez carreira e teve sucesso. Muito mais problemáticas do que os comportamentos repetitivos podem ser as superstições - e mesmo nessas, técnicos e psicólogos tentam não mexer a não ser que a situação se complique.
"O nosso treino psicológico focaliza-se na prevenção/educação, destina-se exactamente a prevenir que haja pensamentos e comportamentos nocivos. Se eles se instalam, então há que remediar e, por vezes, há mesmo necessidade de recorrer a psicólogos clínicos", salienta Cristina Rolo. Uma das superstições mais comuns entre os jogadores é evitarem pisar as linhas, explica Pedro Felner, que conclui: "Se forem coisas normais, como essa, o treinador não intervem. Só o fará se influenciarem negativamente a prestação dos atletas."
Os desportistas são muitas vezes supersticiosos. E no ténis, uma modalidade individual, isso pode tornar-se particularmente notório. Será superstição ou rotina a forma, ferozmente metódica, com que Rafael Nadal alinha as garrafas junto à cadeira antes de voltar para o campo? Não sabemos. Mas sabemos, porque ela o assume, que a portuguesa Michelle Brito bebe sempre uma bebida isotónica e água alternadamente durante as pausas. Três vezes de cada garrafa.
Parece estranho? Não é nada comparado com o facto de James Blake nunca se barbear durante um torneio, comer sempre o mesmo ao pequeno-almoço e procurar tomar banho no mesmo chuveiro. Ou o francês Richard Gasquet querer usar a mesma bola quando ganha um ponto e serve a seguir. Ou a francesa Tatiana Golovin usar uma jóia diferente para cada torneio. Ou o norte-americano Andre Agassi "estar constantemente a mandar os apanha-bolas para os seus sítios", recorda o jornalista Manuel Perez.
Podíamos continuar quase eternamente. A jovem portuguesa Maria João Koehler confessa que gosta de se sentar "na cadeira à direita do árbitro". "Mas", continua, "se alguém ganhou antes naquele campo sentando-se do lado esquerdo, então quero essa". Então e quando não dá? "Se não dá, não há crise!"
Mas nem todos encaram estas contrariedades sem crispações. Há muitas manias e estranhos hábitos à volta e dentro dos courts. O que não se pode é confundir o que é superstição com o que são rotinas. Nem sempre é fácil. Na dúvida, e como o assunto parece não ofender ninguém, o melhor é perguntar.

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