"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sábado, maio 09, 2009

"O lado bom da política é ter de inventar o futuro"
http://jornal.publico.clix.pt/
09.05.2009,
Teresa de Sousa (PÚBLICO) e Graça Franco (Rádio Renascença)


Vê a actual crise com preocupação mas também vê nela oportunidades de mudança. O antigo Presidente fala do papel do Brasil, dos EUA e da Europa no mundo de hoje


O antigo Presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, que é também um dos intelectuais mais prestigiados do mundo, veio participar nas Conferências do Estoril sobre os desafios da globalização. Falou da forma como vê a actual crise mundial, das suas origens, dos problemas que coloca mas também das oportunidades que abre. Diz que o Brasil já está no presente e que a Europa tem (também) de ser capaz de colocar a sua carta na mesa de um mundo em profunda mutação. Seguem-se extractos da entrevista que deu ao programa Diga Lá, Excelência.
Como é que vê esta crise?
Como todo o mundo - com uma grande preocupação. Ela tem os aspectos característicos de qualquer crise, mas não é uma crise banal. Porque pegou o coração do sistema capitalista, que é o sistema financeiro. Pegou o banco. E porque pegou num momento em que tem imensa globalização, em que você tem a capacidade de transmissão de fluxos e de recursos através da Internet a uma velocidade incrível e numa proporção gigantesca. Quando paralisa esse sistema, dá um choque imenso no paciente, que é a economia. A economia paralisou. As pessoas assustaram-se e interrogam-se como foi possível chegar a este ponto. Espero que, como consequência deste abalo, haja uma reformulação dos termos em que se dá o jogo do sistema financeiro.
Além de abalar o coração do sistema, ela acontece num mundo em profunda mutação, com uma transferência acelerada de riqueza de ocidente para leste. No mundo que vai emergir, já não será o Ocidente a ditar as regras? Isto também é novo?
Sim, sem dúvida. Por isso também não é igual às outras. Esse processo vem de longe. A grande modificação começou nos anos 70, com o computador e a Internet. Isso fez com que houvesse a possibilidade da globalização. Nesse processo, os EUA entraram num mecanismo de auto-endividamento. O sistema financeiro americano e o sistema de produção viveu no "compra, compra, compra, consome, consome, consome, que eu te dou crédito, crédito, crédito". Isso levou a uma expansão enorme da economia americana, que também beneficiou o resto do mudo.
Toda a gente beneficiou...
É, toda a gente. Houve uma redução do nível de pobreza. A China entrou. Foi um modelo capitalista que estava baseado nessa expansão violenta, induzida pelas tecnologias modernas. E quando houve um desfasamento entre o sistema financeiro e a realidade da economia, quando emitiram muitos títulos sem olhar à capacidade de pagamento das pessoas, chegou o momento em que o castelo de cartas caiu. E, quando caiu, os americanos olharam em volta e disseram: "Ai, meu Deus, aqui caiu, mas será que caiu na China, será que caiu na Índia, será que caiu no Brasil?"
E o Ocidente pode já não ter capacidade de ditar as regras...
Por consequência, pode acontecer isso. Até hoje, os americanos ainda podem emitir títulos de tesouro, que toda a gente quer comprar, porque acha que é seguro. Agora, os chineses acabam de dizer uma coisa curiosa: temos tantos títulos do tesouro americanos, será que eles vão valer mesmo ou virá a inflação? Começa uma dúvida sobre a força do sistema americano. Claro que os americanos vão reagir. Se houver inflação, aumentam as taxas de juro. O risco é voltarmos àquela coisa do stop and go, cresce um trimestre, pára no outro. E parece que a China está a reagir mais depressa, aumentando o mercado interno. Se isso acontecer, e tendo a China as reservas que tem, e o Japão as reservas que tem, então eles vão começar a fazer a pergunta que os chineses já fazem: porque não temos uma cesta de moedas em vez de ser o dólar?
O que diz é que o mundo que vai emergir em termos económicos e políticos vai ser outro?
Será outro. O G20 já indica isso. Pôs mais parceiros no jogo. Mas não é só isso. Há um bilião de muçulmanos no mundo. O que podemos fazer com eles?
Na sua conferência em Portugal referiu que vai ser preciso renegociar o poder mundial sem guerra. Com guerra era mais fácil, os vencedores diziam como era... Exclui completamente essa hipótese?
Nunca se exclui a guerra. Guerras localizadas há o tempo todo. A grande guerra é que eu espero que não vamos ver. Mas quais são as áreas "quentes" do mundo? Vão da borda do Mediterrâneo até à Índia, passando pelo Paquistão e subindo até à Ásia Central.
O mundo muçulmano?
O mundo muçulmano e o mundo russo, eslavo, também. Acho que o Presidente Obama percebeu isso. Percebeu que tem de conversar. Mandou enviados especiais, dirigiu-se ao Irão. Não pensa que se pode resolver essa questão bombardeando. Mas vai ser longa, essa negociação. E a Rússia vai ter de entrar nela. A posição ocidental foi um pouco tentar isolar a Rússia e eu acho isso um perigo. Tem de conversar com a Rússia, limitá-la mas colocá-la no jogo.
Disse também que vivemos todos numa grande ilusão. Acha que esta crise marca igualmente uma ruptura no domínio das ideologias? Que vamos ter de inventar ideias novas, à esquerda e à direita, ou pode haver um regresso às velhas soluções?
Há que inventar coisas novas. É óbvio que o liberalismo solto não funciona. Os mercados não têm capacidade para se auto-regularem. O que não significa dizer que os Estados têm. Então, tem de se inventar alguma coisa que não seja nem uma imposição estatal, nem uma liberdade de mercado. Agências reguladoras, maior participação da sociedade. Algo de novo tem de ser criado. E tem de ter alguma utopia, para inventar o futuro.
Falou muito de Keynes, mas nunca se referiu a Marx. Há quem considere que há uma segunda oportunidade para uma velha ideologia.
Ninguém está propondo nada semelhante ao marxismo. Marx tinha o quê? Uma análise crítica do capitalismo, aliás muito bem feita. E havia no lado político a ideia de que era preciso substituir a propriedade privada dos meios de produção pela propriedade colectiva. Ninguém propõe isso hoje. Vamos ter de ter algum tipo de controlo social, algum mecanismo para gerar mais bem-estar social, não pela via só do mercado mas pela via da redistribuição.
Isso obriga a um regresso do Estado, e passámos os últimos tempos a dizer que era preciso reduzir o Estado.
Isso, sem dúvida. O Estado tem que ter um papel maior. Tem que ter. Mas que Estado? O Estado democrático. Se o Estado for totalitário, também não resolve. E esse Estado democrático hoje exige participação da sociedade, mecanismos de parceria, órgãos de Estado e não de governo.
Esses novos mecanismos de participação passam por alternativas ao sistema estritamente partidário?
Acho que sim. A Internet produziu uma revolução no mundo e o sistema partidário está "ilhado", não responde a boa parte da demanda da população porque ela não passa por aí, passa por outros mecanismos. Tenho cinco netos e vivem o dia inteiro no computador. Estão perdendo tempo? Não. Estão conectados. Com quê? Com o mundo. E cada um deles forma opinião e isso não passa pelos partidos.
A eleição de Obama já é isso?
Já é isso. Ele teve o dom de mobilizar a força jovem e os jovens não vêm mais pelo partido ou pelo jornal. [O jovem] quer ter opinião. Ele está isolado mas não está sem compromisso. Não é individualismo. Ele tem um compromisso mas quer saber qual é o compromisso dele, não quer transferir para o partido esse compromisso.
Obama ainda conseguiu trazer isso para o sistema clássico?
A um dado momento, é preciso fazer isso mesmo, porque também não existe democracia sem o esquema clássico. Mas a conexão é que tem de ser feita com novos mecanismos.
Disse que era preciso que os Estados Unidos entendessem que tinham de partilhar as decisões com o mundo, e não impô-las ao mundo. O Presidente Obama já leva mais de cem dias na Casa Branca. Qual é a sua avaliação?
Nessa área, andou pouco. Fez o G20, encontrou-se com os presidentes da América do Sul, mas isso não são instituições. Houve um reforço do FMI em termos de dinheiro, mas não houve mudança no comando, que é dos EUA. Mas também não se pode esperar que o Presidente Obama mude tudo do dia para a noite. Além do mais, ele tem uma batata quente imensa: está botando dinheiro, dinheiro e dinheiro e ainda não acabou de pagar o incêndio. Vai ter de resolver essa questão financeira que é absorvente, e eu acho que vai ter de resolver outra questão: o que vai fazer com a inflação.
Na política internacional já deu sinais importantes de maior abertura em relação ao mundo?
É. Em termos de soft power, do poder simbólico. Mas vamos ver o resto. Tem o Afeganistão, o Iraque, a Palestina e o Estado de Israel. O que vão fazer com a proliferação atómica, com o clima, com o meio ambiente.
Na sua opinião, este ambiente de crise global facilita ou dificulta a resposta a esses desafios?
Facilita. As coisas só mudam na crise. Quando tudo vai bem, ninguém quer mudar nada.
Disse também, na sua intervenção no Estoril, que porventura vão ser necessários novos valores, novos comportamentos, novas maneiras de encarar a nossa vida e a convivência entre culturas diferentes.
Eu gostaria que fosse assim, mas não sei se vai ser. Eu acho que uma das coisas boas do soft power do Brasil é essa. O Brasil tem uma certa capacidade de aceitar o outro. O mundo vai precisar de desenvolver essa capacidade. A Europa precisa. Está tentando. Se não, é a guerra de todos contra todos. É preciso mais espírito de tolerância, mas é preciso também que os grandes líderes se incumbam disso. Obama tem a virtude de ser ele próprio um exemplo disso. Porque ele é negro, viveu na Indonésia, o pai nasceu no Quénia, é doutor em Harvard e é Presidente dos EUA.