O Quénia está mais quente, mas Deus também pode estar zangado
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/23-11-2009/o-quenia-esta-mais-quente-mas-deus-tambem-pode-estar-zangado-18261524.htm
Por Edmund Sanders
Em Muranga, num planalto com vista para o Monte Quénia, os quenianos que continuam a adorar a montanha como morada divina olham ansiosamente para o cume de neve a derreter e questionam-se: será que Deus morreu?
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As primaveras muito quentes e os leitos de rios secos estão a tornar a vida muito difícil para os sete milhões de quenianos que dependem do escoamento das águas do pico da segunda montanha mais alta de África para sobreviver. Em Nairobi, capital do país, os descongelamentos reduzidos têm contribuído para faltas de energia, quando os caudais dos rios alimentados pela montanha não são suficientes para fazer funcionar as centrais hidroeléctricas.
Mas para os quenianos que continuam a praticar religiões tribais e veneram o Monte Quénia como a morada de Deus, as alterações ambientais significam mais do que uma ameaça ao seu modo de viver. Para eles, a neve a derreter e outras mudanças na sua montanha estão a causar uma crise de fé.
"Este é o sítio onde o nosso Deus habita, e está a ser destruído", declara Mwangi Njorge, de 95 anos, um daqueles quenianos, sobretudo idosos, que continuam a fazer sacrifícios à divindade que, acreditam, mora no Monte Quénia. Está preocupado de que a neve a desaparecer seja um sinal da fúria de Deus. "Deus está muito zangado e, se as coisas não se alterarem, temo que ele nos possa abandonar para sempre."
A comunidade científica está dividida quanto às causas do derreter das calotas de gelo em África, mas muitos especialistas acreditam que a diminuição de neve no Monte Quénia é um dos exemplos mais flagrantes em todo o continente no que toca às alterações climáticas e ao aquecimento global.
A montanha, de 5200 metros de altura e localizada na linha do equador, perdeu 92 por cento da sua cobertura glacial ao longo dos últimos cem anos, e especialistas prevêem que em 2050 a neve terá desaparecido completamente. O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas avisou num relatório de 2007 que países como o Quénia sofrerão muito com a subida das temperaturas e apontou especificamente para a vulnerabilidade de ecossistemas montanhosos como o do Monte Quénia.
As histórias dos adoradores do Monte Quénia colocam rostos e nomes de pessoas concretas na crescente oposição entre países desenvolvidos, que são acusados de contribuírem para a maioria das alterações climáticas do globo através das suas emissões de dióxido de carbono e outra poluição, e as regiões em vias de desenvolvimento, como África, que estão a pedir 67 mil milhões de dólares por ano como compensação pelos custos económicos e sociais.
Os adoradores da divindade do Monte Quénia já incorporaram a neve derretida nas suas tradições orais, explica Jeffrey Fadiman, professor da Universidade do Estado da Califórnia em San José, que passou vários meses naquele majestoso ponto de referência geográfico a recolher as tradições e histórias orais das tribos locais.
"Os anciãos consideram o glaciar a derreter como uma punição aos mais novos, por estes terem abandonado e violado as suas tradições", diz Fadiman.
Não surpreende que os primeiros povoadores chegados ao Quénia venerassem a montanha. Envolto em neblina e coberto ao longo de todo o ano com uma brilhante cobertura de neve, o Monte Quénia causou admiração e inspirou lendas a cada tribo que dirigiu o seu olhar para a montanha. Os habitantes chamam-lhe Kirinyaga, ou seja, "montanha do brilho".
Os académicos conseguem datar as tradições orais referentes ao Monte Quénia até há cerca de 500 anos, quando tribos como os Kikuyu e os Meru chegaram à região. A vida e a religião centravam-se na montanha. Rezavam virados para o Monte Quénia e orientavam as suas casas em direcção ao pico. Os animais destinados ao sacrifício eram colocados face à montanha antes de serem mortos.
Ao longo dos anos, o extinto vulcão permaneceu como o centro da história do país. Os rebeldes Mau Mau esconderam-se nas suas florestas durante a luta pela independência face ao regime colonial britânico. Jomo Kenyatta, o primeiro Presidente do Quénia, deu à sua autobiografia o título De Frente para o Monte Quénia.
"Era tão branco, tão belo, podíamos vê-lo de qualquer sítio", recorda Mwangi Njorge.
Quando era um miúdo, conta Joaquim Gitonga, de 76 anos, padre católico reformado, todos aqui na aldeia de Muranga se maravilhavam com a misteriosa fonte dos picos brancos do Monte Quénia. Vivendo no equador, ninguém na aldeia tinha noção do que era o gelo ou a neve, por isso assumiam que os brilhantes picos brancos eram um sinal da natureza divina da montanha.
Hoje, o Monte Quénia dificilmente inspira a mesma admiração, dizem os idosos.
"Olhe só para ele", diz Mwangi Njorge, mirando a montanha através da névoa do fim de tarde. "Tão castanho e árido. É uma imagem muito feia."
Gitonga, que foi convertido por missionários cristãos quando era criança, diz que a regressão dos glaciares poderá ser o golpe final nos tradicionais adoradores do Monte Quénia, cujo número está já a diminuir devido ao cristianismo, ao secularismo e ao maior acesso à educação. "Lentamente, os costumes tradicionais estão a desaparecer."
Florestas abatidas
Em geral, crê-se que o aquecimento global está a contribuir para que o gelo do Monte Quénia se derreta - mas parte das transformações ambientais da montanha é causada por actividades locais, afirmam alguns especialistas.
Vastas florestas verdes foram abatidas. O desenvolvimento - de plantações de marijuana, de pastagens para o gado, e para o turismo - tem cobrado o seu preço.
O activista ambiental Fredrick Njau afirma que o abate e transporte de troncos de árvores, a produção de carvão e outras explorações comerciais se desenvolveram desenfreadamente durante a presidência de Daniel Arap Moi [de 1978 a 2002], quando responsáveis governamentais deram carta branca aos seus amigos e aliados para lucrarem com as florestas do Quénia.
"O Governo efectivamente deu um tiro no próprio pé", declara Njau, coordenador de projectos no Movimento Cintura Verde, baseado em Nairobi.
Não se sabe exactamente quanto da floresta do Monte Quénia se perdeu, mas uma pesquisa do Serviço de Vida Selvagem do Quénia em 1999 referenciou quase 80 mil quilómetros quadrados de terras cujas árvores tinham sido recentemente abatidas. Hoje, no sopé do monte, os cepos são quase tão comuns quanto as árvores.
"Isto é um pecado contra Deus", clama John Irungu, um lavrador local que ajuda a manter um santuário onde se acredita que os primeiros Kikuyu se terão instalado.
Para os adoradores tradicionais, a pior afronta chegou há uma década, quando um empresário imobiliário com bons relacionamentos no mundo da política começou a construir uma estalagem nos terrenos do santuário.
"Deus interveio", diz Allen Kamau, chefe de um grupo de oração que se reúne regularmente no santuário. No meio da construção, um gigantesco ramo de árvore caiu em cima do hotel e o empresário abandonou o projecto.
"Parece que Deus não queria este edifício", diz Kamau, sorrindo.
O ramo de árvore caído é apenas uma parte dos castigos de Deus, opina Kamau. Ele e outros do seu grupo crêem que a causa da maioria dos problemas do Quénia - incluindo uma devastadora seca e os distúrbios após as eleições de 2008, que causaram mais de mil mortos - se deve ao abandono das tradicionais religiões do Monte Quénia e à destruição da montanha.
"Todos os nossos problemas estão relacionados com isto", afirma Kamau. "As pessoas estão a adoptar um modo de vida moderno. Viraram as costas às tradições e deixaram de fazer sacrifícios. Fingem que são deuses."
A alguns quilómetros dali, numa floresta do Monte Quénia, centenas de vaqueiros do Norte do país dirigem as suas reses montanha acima à procura de pastos. De regiões afectadas pela seca muitos pastores têm afluído ao Monte Quénia ao longo dos últimos seis meses, trazendo com eles dezenas de milhares de vacas, cabras e outros animais para se alimentarem com a erva e até mesmo com os rebentos das árvores que os ambientalistas plantaram para recuperar a floresta.
Quando lhe disseram que estava a invadir uma montanha que alguns quenianos consideram ser a casa de Deus, Lenaipoya Kaelo olhou para a direita, depois para a esquerda, e depois encolheu os ombros.
"Não vejo Deus por aqui", respondeu. "Para além disso, é a religião deles, não a nossa. Sou cristão. Estamos apenas a tentar que os nossos animais se mantenham vivos. Vão ter que aguentar connosco."
No santuário, os adoradores dizem que a única coisa que podem fazer é rezar. Cerca de uma dúzia de homens e mulheres reúnem-se solenemente, viram-se para o Monte Quénia e iniciam um sacrifício especial para pedir chuva.
Há meses que a seca não dá tréguas, e até o lendário ribeiro Gathambara, que se diz nunca secar, é agora apenas um fiozinho de água.
Um dos homens mais idosos entoa uma oração e os outros elevam as mãos em direcção à montanha, uma cabra sacrificial é conduzida até um leito de folhas. O grupo demorou semanas até conseguir reunir dinheiro suficiente para comprar uma cabra saudável e totalmente branca para ser morta e queimada como oferenda.
Antes do sacrifício, a cabeça do animal foi suavemente colocada na direcção da montanha, enquanto uma profetisa local, com a cabeça enrolada por um lenço multicolorido, prevê um rápido êxito desta acção, e que em breve choverá.
Mas o serviço já terminou, os adoradores já regressaram a casa, e o céu continua azul e sem nuvens.
Semanas depois, os adoradores continuam à espera de chuva, e de Deus. Os seus olhos, cheios de esperança, estão virados para o distante pico da montanha.
Exclusivo PÚBLICO/Los Angeles Times

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