"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, novembro 12, 2009

um dia vamos esquecer a hepatite

2010 quer ser o princípio do fim do vírus esquecido
Quarenta anos depois de ter descoberto a vacina contra o vírus da hepatite B, Baruch Blumberg lamenta que o investimento até hoje não tenha sido maior, mas deposita grandes esperanças no ano que vem. Lourenço e João contam como é viver com esta doença.
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/12-11-2009/2010-quer-ser-o-principio-do-fim-do-virus-esquecido-18202637.htm
Por Romana Borja-Santos


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Imagine que tem uma laranja esquecida no cesto da fruta lá de casa. Quando a compra, vem viçosa e brilhante. Mas os dias passam e a laranja, pouco a pouco, perde o brilho e fica seca. O cesto está num local pouco visível e ninguém repara. A laranja continua a envelhecer e a casca fica manchada. Depois mirra e, finalmente, ganha bolor. É nesta altura que um mosquito denuncia o fim da vida do fruto. Já não há nada a fazer. A laranja tem de ir para o lixo. A hepatite B é assim. Não avisa. Quando dá sintomas, é porque provavelmente é tarde de mais - um dos motivos para ser conhecida como uma "doença esquecida".

Baruch Blumberg, que recebeu em 1976 o Nobel da Medicina por nove anos antes ter identificado o vírus desta doença, não a esqueceu e faz um balanço - entre o desalento e a esperança - dos 40 anos da descoberta que realizou em 1969: a vacina contra o vírus da hepatite B (licenciada depois em 1981).

À margem do congresso anual da Associação Americana para o Estudo das Doenças do Fígado, que decorreu este mês em Boston, nos Estados Unidos, o investigador admitiu ao P2 que levou algum tempo para a vacina ser aceite e lamentou que, nas últimas décadas, tenha sido pouco o investimento na luta contra a hepatite B - por oposição a outras infecções, como a sida, que parecem afectar menos pessoas, lembra. Acredita, contudo, que em 2010, com várias campanhas, o vírus vai estar no centro das atenções e iniciar um percurso para desaparecer - é pelo menos esta a convicção do Nobel.

Para o próximo ano estão previstas várias iniciativas, a nível mundial, para dar a conhecer a doença, insistir na prevenção e garantir o tratamento aos portadores do vírus.

Algumas estimativas da Organização Mundial de Saúde apontam para que em todo o mundo existam mais de 350 milhões de pessoas com hepatite B crónica (o HIV afecta 33 milhões), e muitas delas desconhecem que são portadoras do vírus B. As zonas mais afectadas são a China, Índia, África, Alasca, Amazónia e Europa de Leste, mas, com os movimentos migratórios, são cada vez mais os países com bolsas desta infecção, que pode provocar, numa primeira fase, inflamação do fígado e evoluir para fibrose, cirrose e cancro hepático.

Portugal é um dos países onde se regista uma baixa ou média prevalência de hepatite B - ou seja, 120 mil pessoas estão infectadas (o HIV atinge 20 mil a 30 mil).

Mesmo assim, e apesar das queixas quanto ao investimento, é com um sorriso que Baruch Blumberg admite que as contas feitas apontam para que a sua descoberta tenha salvado mais de 300 milhões de pessoas. E o mais curioso é que o investigador praticamente tropeçou no vírus. "Descobri-o sem procurar directamente", conta o Nobel, de 84 anos. Blumberg estudava o comportamento de várias populações perante algumas doenças, quando identificou no sangue de um aborígene australiano um antigénio que mais tarde mostrou fazer parte do vírus B. "A investigação baseada na curiosidade conduz a descobertas inesperadas", diz.

Este foi o primeiro passo. Mais tarde conseguiu produzir a vacina. "Mas a investigação leva tempo e é necessário acumular dados suficientes para que as pessoas aceitem que há um valor acrescentado." E explica: "Temos de nos convencer a nós próprios, de convencer os outros e de convencer os governos de que é realmente eficaz." E foram necessários 12 anos para que a vacina fosse licenciada. Ao fim de 28, a vacinação em massa ainda não é uma realidade e este continua a ser o principal sonho de Blumberg, visto que a doença não tem cura - apesar de algumas pessoas eliminarem sozinhas o vírus - e os rastreios ainda são poucos para a apanhar numa fase inicial.

É com orgulho que o investigador diz que esta foi também "a primeira vacina contra o cancro" e que, até ao momento, só existe mais uma, a do HPV, relacionado com o cancro do colo do útero. A vacina é dada em três doses e em Portugal faz parte do Plano Nacional de Vacinação para os jovens.

Dois casos silenciosos

Em geral a hepatite B só se manifesta numa fase avançada e já são necessários tratamentos com antivirais. Além da icterícia (tom amarelado da pele), urina escura e fezes claras, pode ter sintomas semelhantes aos de uma gripe: cansaço, febre, dor abdominal e nas articulações ou erupções cutâneas.

Lourenço tem 48 anos e é artista plástico. Só quer ser identificado pelo primeiro nome. João tem 57, trabalhou na área de gestão de crédito, e prefere um nome fictício. Nenhum deles foi salvo pela descoberta do Nobel. Entram nas estatísticas dos que descobriram a doença por acaso e que praticamente a desconheciam antes de saberem o veredicto.

Lourenço deu sangue pela primeira vez há 13 anos. Três anos depois foi dar de novo. "Soube que tinha hepatite B da forma mais cruel. Disseram-me que não podia dar sangue, porque na minha ficha constava que tinha a doença. E eu não sabia, nem nunca tinha tido nenhum indício." Já João comprou uma casa em 1998 e foram as análises que fez para o seguro que lhe revelaram a realidade: "Foi um estrondo. O que me revoltou é que nunca fui uma pessoa de comportamentos de risco e de repente vi-me confrontado com uma doença que para mim significava morte."

"Há uma ideia errada de que é uma doença de prostitutas, drogados e bêbedos", corrobora a presidente da Associação SOS Hepatites. Apesar de se tratar de um vírus transmissível sexualmente, Emília Rodrigues refere que muitos dos casos de infecção são o reflexo de objectos mal desinfectados, infecções em massa na tropa, partilha de lâminas de barbear ou de escovas de dentes. A hipótese de susceptibilidade genética nunca foi comprovada.

E é este preconceito social que leva Lourenço e João a preferirem resguardar-se. Um preconceito que quase levou o casamento de João a juntar-se às crescentes estatísticas de divórcios: "Levou muito tempo até a minha mulher acreditar que eu não tinha tido nenhum caso extraconjugal. Mas continuo sem saber como contraí a doença. Desde pequeno que tinha alguns problemas e até tive de tirar a vesícula. Na tropa tive um problema de icterícia, mas os episódios passaram e sem deixar lesões."

Lourenço suspeita de uma relação sexual desprotegida, mas adaptou-se bem à nova realidade, apesar de não ter dito nada à família e os amigos o terem aconselhado a contar apenas quando é necessário ou houver risco de contágio. "Tenho muita energia, como o que quero e não deixei de beber álcool."

Nenhum dos dois tem sintomas e, não fosse a ameaça do estigma social e o check-up anual a que se devem submeter, esqueceriam a doença. Por agora o vírus está como que adormecido e a sua carga é tão baixa que não justifica qualquer medicação. Devem apenas ter hábitos de vida saudáveis. Mas nem sempre é assim: uma em cada 12 pessoas no mundo tem hepatite B e uma em cada quatro vai morrer com cancro do fígado induzido pelo vírus. Aliás, só o tabaco ganha à hepatite como causa deste cancro.

Para Emília Rodrigues, um dos problemas é os médicos de família raramente fazerem testes de despistagem; além disso, quando se deparam com a doença, nem sempre reencaminham os doentes para especialistas.

Hugo Cheinquer, da Divisão de Gastrenterologia e Hepatologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no Brasil, presente também em Boston, aconselha as pessoas a pedirem ao seu médico "para fazer análise às transaminases [uma enzima do fígado]". "[Muitas ficam] com a falsa impressão de que esta não é uma doença assim tão mortal e acabam por nos chegar às mãos quando a solução é apenas um transplante de fígado."

"Temo-nos movido muito devagar e podíamos ter salvado muitas vidas, se as pessoas tivessem sido vacinadas. É uma doença esquecida. Por termos uma vacina não está tudo feito", acrescenta Samuel So, da Universidade de Medicina de Stanford, nos Estados Unidos, outro dos participantes no encontro. Defende ainda que é preciso educar a classe médica, pois "40 por cento dos médicos em São Francisco, por exemplo, pensam que há cura para a hepatite B e outros tantos acham que não há nada a fazer". Mas o médico é optimista e também ele acredita que 2010 será "o princípio do fim" do vírus: "Um dia vamos dizer que a hepatite está morta."


A jornalista viajou a convite da farmacêutica Bristol-Myers Squibb