"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, novembro 10, 2009

Reacção em cadeia

Quem derrubou o Muro
http://www.publico.pt/Mundo/quem-derrubou-o-muro_1409100

09.11.2009 - 22:12 Por Jorge Almeida Fernandes

Votar | 4 votos 19 de 22 notícias em Mundo « anteriorseguinte »
O dia 9 de Novembro de 1989 ficou para a memória colectiva como a data de implosão do império soviético na Europa. No entanto, a História explica que a Cortina de Ferro foi destruída pela Polónia, pela Hungria e por Gorbatchov.
Na nossa memória, as "transições para a democracia" na Polónia e na Hungria são um "antecedente" da queda do Muro de Berlim. Mas a história de 1989 pode ser lida ao contrário. As revoluções - no sentido de mudança radical da ordem vigente - ocorreram na Polónia e na Hungria. Produziram a seguir uma reacção em cadeia que "explodiu" em Berlim e, por fim, fez tombar como dominós os regimes da Checoslováquia, Bulgária e Roménia.

A queda do Muro é o ícone do fim do comunismo europeu. As imagens de milhares de alemães orientais a passar a fronteira e, depois, a demolir o muro à picareta, impressionaram para sempre milhões e milhões de espectadores.

Desde a sua construção em 1961, o Muro era o símbolo da Guerra Fria e da divisão da Europa. E a sua queda inevitavelmente arrastaria outra questão escaldante que transformaria, uma vez mais, a geografia política da Europa: a reunificação alemã.

Berlim não é o motor, é o apogeu, aquele momento que tem "um antes e um depois".

Há um modelo?
A ideia de "fim do comunismo" encobre as diferenças. Não foi um simples fenómeno de "contágio". É um cacho de processos distintos.

Na Polónia, há uma sociedade mobilizada e uma oposição forte contra um partido comunista fraco. Na Hungria, há uma oposição fraca e são os comunistas reformadores quem organiza o "suicídio" do regime, dissolvendo o partido e construindo a oposição.

Sob a vigilância omnipresente da Stasi, não havia oposição na RDA. Será preciso a Hungria abrir a fronteira com a Áustria para provocar o êxodo que desestabilizará o regime. E Moscovo terá um papel determinante no afastamento de Honecker.

A Checoslováquia do "socialismo de rosto humano" de 1968 nunca recuperou da invasão dos tanques soviéticos. Não havia oposição, havia "dissidentes". Só após a queda do Muro a juventude de Praga se sublevará: a "revolução de veludo" triunfa em dez dias.

Na Bulgária, o ditador Todor Jivkov é destituído por um golpe palaciano, inspirado por Moscovo. A 25 de Dezembro, o romeno Ceausescu é fuzilado, após um simulacro de insurreição manipulada por comunistas com ligações ao KGB.

Polónia: a sociedade triunfa
A "ressurreição" polaca remonta a 1978, ano da eleição de João Paulo II, que galvanizou os católicos e o nacionalismo polaco.

O maciço movimento operário de 1980, iniciado em Gdansk, traduziu-se na criação do primeiro sindicato livre do mundo comunista - o Solidariedade. É um sindicato-partido, reunindo operários e intelectuais, a quem a Igreja oferece a logística. Ultrapassado, o partido comunista (POUP) nomeia secretário-geral o chefe das forças armadas, general Jaruzelski. Em 1981, Jaruzelski decreta o estado de sítio, dissolve o Solidariedade e prende os principais dirigentes. Argumentará mais tarde ter querido prevenir uma invasão soviética.

O totalitarismo exige a passividade e os cidadãos eram activos. A tarefa do Solidariedade era exactamente "o renascimento da sociedade civil". E assim foi, mesmo durante o estado de sítio.

A situação torna-se insustentável em 1988, com crise económica, greves maciças, impotência do regime.

Dois homens, Jaruzelski e Lech Walesa, tomam uma decisão arriscada: negociar uma transição. Muitos comunistas a temiam, pensando (justamente) que seria o princípio do fim. A dúvida dos democratas era outra: iriam legitimar um regime ditatorial? A maioria apostou na "eficácia do contágio democrático".

Na Mesa-Redonda de Fevereiro-Março de 1989, chega-se a um compromisso histórico. O Solidariedade é legalizado. A liberdade de imprensa e o pluralismo político são reconhecidos. São marcadas eleições "livres a 35 por cento": a oposição podia concorrer apenas em 35 por cento dos círculos e a todos os lugares do Senado.

As eleições de Junho são uma vitória por KO: o Solidariedade ganha todos os "35 por cento" e 99 dos 100 lugares do Senado. Forma-se o primeiro governo não comunista da Europa de Leste, presidido por Tadeusz Mazowiecki.

Em 1980, o Solidariedade tinha como bandeira: "A vós o poder, a nós a sociedade." Em 1989, impõe: "A vós a presidência, a nós o governo." Como penhor perante Moscovo e o Pacto de Varsóvia, os comunistas mantêm o Interior e a Defesa e Jaruzelski é eleito Presidente da República. Por um ano. Nas eleições "a 100 por cento" de 1990, o Solidariedade obtém a maioria absoluta. E Walesa é eleito Presidente da República.

A revolução polaca conjuga dois factores: o movimento social e o realismo e a imaginação dos seus políticos. "Pode imaginar-se tudo menos ir a Marte de bicicleta", resumiu um dos seus estrategos, Adam Michnik.

Hungria: revolução por cima
Os húngaros permaneciam marcados pelo esmagamento da insurreição nacional de 1956 pelos tanques soviéticos. Moscovo colocou no poder Janos Kadar, que promoveu uma política de "reforma económica sem reforma política". Era o "comunismo do goulash". Havia algumas liberdades desde que não se discutisse o monopólio do partido (PSOH).

Muitos intelectuais e tecnocratas aderiram ao PSOH, porque era lá "que se podiam fazer coisas". A sociedade alheou-se. Em plena perestroika, os reformistas do PSOH percebem que o regime tem os dias contados. Afastam Kadar. Sucede-lhe outro "pragmático", Karoly Grosz, que aceita renovar o comité central. Um tecnocrata, Miklos Nemeth, assume a chefia do governo. Sob impulso do mais lúcido dos reformistas, Imre Pozsgay, logo em Janeiro é aprovada a lei do multipartidarismo e eliminada a censura. Gorbatchov adverte Nemeth de que os húngaros estão a pôr em risco a liderança do partido. E surpreende-o: "Mas, evidentemente, camarada, a responsabilidade é vossa, não é minha."

Dias depois, Pozsgay faz um teste: na ausência de Grosz, declara à rádio que 1956 não foi uma "contra-revolução" mas um "levantamento popular". No dia seguinte, é a manchete de todos os jornais. Pozsgay e a sua equipa fecham-se num gabinete à espera da reacção do Kremlin. Moscovo nada diz. Eles concluem: podemos avançar.

As notícias da Polónia aceleram a mudança: num primeiro desafio, a 2 de Maio, perante as televisões, é cortado o arame farpado na fronteira com a Áustria, ou seja, a Cortina de Ferro é simbolicamente rasgada. A seguir, é a reabilitação do herói nacional de 1956, o comunista Imre Nagy, fuzilado pelos soviéticos. A tarefa seguinte é ajudar a construir e unir uma oposição para fazer eleições. O PSOH dissolve-se em Outubro. É criado um partido socialista. A Hungria deixa de ser "República Popular". As eleições realizam-se em Abril de 1990: ganha a oposição.

O objectivo dos reformadores era fazer uma democratização política controlada, instaurar a economia de mercado, mas sem romper com o Pacto de Varsóvia. As massas pouco se agitaram. Preferiram votar.

O enigma de Moscovo
O silêncio de Moscovo foi o enigma da época. Havia opiniões divergentes e discussões furiosas na direcção soviética. O que cedo Gorbatchov decidiu - mas evitando que se soubesse - foi a renúncia à intervenção militar, à "doutrina Brejnev". Recusou os pedidos de "assistência fraterna" feitos pelos "duros" de Praga e Berlim-Leste.

O "imobilismo" dos comunistas do Leste exasperava Moscovo. O exemplo da Polónia favoreceu a ideia de uma partilha do poder entre comunistas e oposição. A transição húngara criou a expectativa de uma reforma conduzida pelos comunistas.

Ainda antes da queda do Muro, é patente que Moscovo não tem ilusões sobre a mudança dos regimes na Europa Central e Oriental. Tal como considera inevitável uma gradual reunificação alemã. A obsessão é outra: esses países deveriam manter-se neutrais - na época chamava-se "finlandização" - e permanecer no Pacto de Varsóvia. Foi mais uma ilusão do idealista Gorbatchov.

O seu papel foi determinante. Não apenas pela perestroika, que está na origem de tudo. Mas também pelo seu "silêncio". Ao longo de 1989, cumpriu a palavra: "Mas, evidentemente, camarada, a responsabilidade é vossa, não é minha."

Reconhece hoje Der Spiegel: "O destino da Alemanha e do resto da Europa foi decidido em Varsóvia, Budapeste e Moscovo."