o coração afro-americano
Isto é a América
O Harlem, coração afro-americano de Manhattan, quase não assinalou o aniversário da eleição de Obama. Mas não se deixem enganar. O Harlem nunca mais será o mesmo. A geração Obama vive nesta América e quer mudar. Por
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/07-11-2009/isto-e-a-america-18171410.htm
Susana Moreira Marques, em Nova Iorque
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Não era isto que Bartholdi e Eiffel tinham em mente quando construíram a estátua da liberdade e a ofereceram.
O ferry-boat atraca na ilha de Manhattan ao pôr do sol. À saída do barco, uma mulher empunha um cartaz com o nome do actual Presidente dos Estados Unidos da América. Forma-se uma pequena multidão em redor dela.
É 4 de Novembro. Precisamente há um ano, à hora do pôr do sol, as mesas de voto das eleições presidenciais continuavam abertas e ainda não se sabia quem celebrar. Barack Obama, o sujeito de nome esquisito que tinha aparecido do nada e ressuscitado o sonho americano, ainda não tinha sido eleito.
Agora, pode-se comprar um preservativo com a cara de Obama e o seu conselho: "Use with good judgment" ("Use com bom senso"). Na verdade, pode-se escolher entre Obama, McCain ou Palin para passar a noite. Os turistas compram. E a mulher que vende preservativos eleitorais faz bastante mais sucesso do que duas estátuas-estátua-da-liberdade, acenando desesperadas às crianças com tochas fluorescentes a "iluminar" a América.
Não era com certeza isto que a poeta americana de origem judaico-portuguesa, Emma Lazarus, tinha em mente quando dedicou um poema ao "Novo Colosso": "Give me your tired, your poor, / your huddled masses yearning to breathe free" ("Dai-me os seus fatigados, os seus pobres, / as suas massas ansiosas por respirar livremente").
É isto a América?
O metro sobe Manhattan e, paragem a paragem, as massas assardinham-se.
Um homem consegue, apesar de tudo, abrir o jornal The New York Times com o título da vitória de Michael Bloomberg (terceiro mandato) nas eleições municipais do dia anterior.
Quase ninguém desce na Rua 125. O metro só se esvaziará mais acima, na 161, a estação mais próxima do estádio dos Yankees.
É por causa do basebol que Ivry Attee não se vestiu um pouco melhor e tem apenas jeans e uma T-shirt onde se lê: "Mostra o que vales." É para o estádio que vai a seguir. Depois de jantar e de mostrar a sua solidariedade com outros membros do grupo Harlem4Obama, com quem trabalhou durante a campanha eleitoral presidencial, e com quem trabalha ainda, inserido no esquema da administração Obama, Organizing for America.
O bar Moca Lounge, onde decidiram encontrar-se, fica na 119. No ano passado, quando a esta hora chegavam os primeiros resultados eleitorais, estavam seis quarteirões acima, no centro do Harlem, a olhar para um ecrã gigante com centenas de pessoas. "Eu chorei", confessa. "Era preciso chorar."
No Harlem, a eleição de um Presidente afro-americano era um evento que acontecia uma vez na vida. Agora, diz Ivry Attee, "todos os dias temos um Presidente negro".
Chamam-lhe pelo primeiro nome, chamam-lhe Barack.
"Barack conseguiu", repete Lee Moulton. "As pessoas estão a sempre a dizer que, se trabalharmos arduamente, conseguimos. Barack é o argumento para essa ideia."
Têm menos de trinta anos, são afro-americanos. Todos os dias têm um Presidente negro. Todos os dias fazem alguma coisa pelo seu Presidente, pelo seu país, pela sua comunidade. Mas nem todos os dias são idealistas.
"Eu não acredito em política." Lee Moulton ainda está vestido com a roupa do dia no mundo financeiro, um sobretudo azul-escuro clássico, um cachecol impecavelmente dobrado em redor do pescoço alto. Tem um aperto de mão eloquente: "Olá, eu sou da geração Obama."
Ele quer dizer que trabalha com um grupo que tem como objectivo incentivar jovens a interessar-se por política. Mas Lee Moulton, nascido nos Estados Unidos há 25 anos, filho de pais imigrantes da Libéria, é a geração Obama.
Lee Moulton não ensina que a política é boa. Nem má. "A política é um instrumento", diz. "Usem esse instrumento", explica ele aos jovens ainda mais jovens do que ele.
A geração Obama sabe que a política é feia e talvez em nenhum sítio tão feia como aqui. As televisões mostram um país extremista e zangado. A realidade, acha Lee Moulton, é que é um país apático.
Todos os dias, o seu Presidente recebe ameaças de morte. "Isto é a América", apresenta Lee Moulton.
Mudar de vida
Isto é o Harlem. Isto é a América de Brian Benjamin e de Makeba Lloyd.
Makeba Lloyd acaba de vir de uma reunião com membros da comunidade: discutiram tudo, desde como promover a não-violência até estilos de vida saudáveis, este último tema sendo a especialidade de Makeba Lloyd, que gere uma pequena empresa de produtos naturais. Na reunião, encontrou pessoas com quem cresceu. Trabalhar com elas é uma forma de retribuir qualquer coisa à comunidade que a viu crescer.
Brian Benjamin nasceu no hospital do Harlem. E era nisso que pensava, quando, há pouco tempo, estava no hospital do Harlem num debate local sobre a reforma da saúde, um debate organizado por ele.
Barack Obama mudou de vida em 1983: "Decidi trabalhar com a comunidade. A ideia não era detalhada; não conhecia ninguém que ganhasse assim a vida", escreveu na sua autobiografia, Dreams from my Father (em português, A Minha Herança). Barack Obama despediu-se do emprego numa empresa financeira do centro de Manhattan e passou três meses a trabalhar numa campanha política no Harlem. Não conseguiu ganhar a vida, e acabou por ir para Chicago, onde a ideia de trabalhar com a comunidade iria ganhar contornos mais definidos.
Brian Benjamin mudou de vida em 2008. Brian Benjamin mudou de vida faz hoje um ano e é isso que devia estar a comemorar.
O movimento - que ele tinha começado no Harlem, com uma estrutura espontânea e amadora como tantos outros grupos de apoio a Obama nos Estados Unidos - não podia terminar na noite de 4 de Novembro de 2008. Harlem4Obama transformou-se no Harlem4 - Center for Change.
Brian Benjamin despediu-se do seu emprego numa empresa financeira no centro de Manhattan. "Decidi que só vou fazer coisas com significado", diz na sua voz calorosa, com um gesto que é quase um abraço. "Estou a tentar ganhar a vida a fazer a diferença."
Sylvia"s, um ano depois
São dez da noite e não há quase ninguém na rua, isto é a América e é quarta-feira. As luzes piscam como uma árvore de Natal nas janelas do restaurante de comida Soul, Sylvia"s. Algumas pessoas acabam de comer.
O filho de Sylvia também acaba de comer ao lado do lugar da mãe.
Por cima da cadeira vazia de Sylvia, está uma fotografia emoldurada de Sylvia com um Obama mais jovem. Há um ano, ela, uma matriarca do Harlem, estava sentada no seu lugar e esperava o resultado das eleições. Toda a gente se aglomerava em redor do bar ao lado da sua mesa, próximo da televisão.
Agora, há seis pessoas no bar, sete a contar com o barman, todas a olhar para a televisão. Está sintonizada na Fox Sports. Um rapaz hispânico de palito na boca diz que está aqui está ali, e aponta para a televisão. A acreditação que traz pendurada confirma. Ele e uma rapariga de Atlanta estão à espera da comida que encomendaram no Sylvia"s para alimentar a equipa da Fox Sports que está no estádio dos Yankees.
As outras quatro pessoas fazem uma pequena festa de aniversário. "O 4 de Novembro é um grande dia", brinca a aniversariante. "Primeiro, eu nasci", ri-se, levando a mão ao peito. "Depois, no ano passado, Barack Obama foi eleito. E hoje, os Yankees vão ser campeões."
O barman olha para o televisor, mas também não percebe nada. Está há 19 anos nos Estados Unidos, 18 no Sylvia"s, mas quando chegou tinha 22 anos, novo mas velho para tomar o gosto ao basebol.
7-3, aplausos, yeahs, os Yankees estão quase a ganhar o jogo contra o Phillies de Philadelphia. São 23h00 e, no ano passado, a esta hora, a televisão anunciava o novo Presidente eleito dos Estados Unidos e, neste bar, as pessoas abraçavam-se. Quase imediatamente, a música começara a chegar das ruas invadidas do Harlem.
O barman sorri ao lembrar-se da noite do ano passado e oferece-me uma bebida. "Que pena que não se celebre o aniversário da eleição", digo.
Ele volta a sorrir, continua a olhar na direcção da janela como se revisse os carros e as bandeiras e a alegria, e encolhe os ombros: "The Americans..."

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