a vida a cores
A vida a cores à sombra de Tchernobil
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/03-11-2009/a-vida-a-cores-a-sombra-de-tchernobil-18140608.htm
Passaram quase 25 anos, mas em Khoiniki, cidade bielorrussa atingida pela radiação libertada pelo acidente da central nuclear de Tchernobil, pouco ou nada mudou. A vida está à espera. Nos talhos, nos quintais, nas pequenas casas de madeira que parecem saídas de um filme de Emir Kusturica. Fotos de Vasily Fedosenko/Reuters
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A uns 50 quilómetros para norte do imponente sarcófago de cimento que selou o reactor número 4 da central nuclear de Tchernobil - cuja explosão a 26 de Abril de 1986, do outro lado da fronteira, na Ucrânia, causou o maior acidente nuclear civil de sempre em todo o mundo -, o quotidiano na cidade bielorrussa de Khoiniki continua a ser alimentado pela estratégia de "zona de agricultura" que as autoridades soviéticas puseram em marcha para manter a zona auto-suficiente.
Khoiniki foi a cidade mais violentamente atingida em todo o território que é hoje bielorrusso e ucraniano, com a explosão do reactor a libertar dez vezes mais o volume de radiação das bombas largadas em Hiroxima e Nagasáqui - juntas. Demorou dois anos a tirar toda a população da zona estrita, a "nódoa" púrpura com que são marcados nos mapas locais os 30 quilómetros de "exclusão total" em volta da central.
Logo fora desse anel pouco ou nada mudou nas últimas duas décadas e meia para os habitantes das aldeias e vilas dos 215,5 hectares de território bielorrusso atingido pela radiação. A vida está em suspenso, sobretudo desde o início do período pós-soviético, com a Bielorrússia a viver o regime repressivo - e amiúde de negação - do Presidente Aleksander Lukachenko.
A produção e comércio de carne de porco da enorme exploração criada em Khoiniki em 1999 constituem uma das principais actividades na cidade, alimentando os funcionários da Reserva Natural de Polesski, que monitoriza a força de recuperação da natureza selvagem na região. É nesta pequena cidade da Bielorrússia que a reserva tem o seu quartel-general, numa vizinhança de edifícios de apartamentos, lojas muito rudimentares, aquilo que passa por ser um restaurante e um par de "bares nocturnos".
Vinte quilómetros adiante está a aldeia de Dublin, logo à saída da zona de "exclusão total", e ali, tal como nas outras zonas afectadas, a população olha ainda com cepticismo para as medidas de contenção. Muitos insistem que estão agora expostos a níveis de radiação mais baixos do que aqueles com que viveram décadas infindas à sombra de Tchernobil antes do acidente nuclear.
Mas por toda a região as cicatrizes persistem: as taxas de cancro da tiróide entre as crianças está 30 vezes acima da norma e raras são as famílias em que não há pelo menos uma criança com cancro, defeitos congénitos ou alguma espécie de doença misteriosa. A esperança média de vida ronda os 46 anos. Remover tumores no hospital local, em Goltem, é uma rotina.
Não há até hoje quaisquer dados consensuais sobre o número de mortos provocados pela explosão de Tchernobil. Em 2005 a ONU fixou em 50 o número de pessoas que morreram em consequência directa do acidente, calculando que outras quatro mil vítimas ocorreriam no futuro - um número contestado por várias organizações não-governamentais, que prevêem 16 mil a 200 mil mortes adicionais.
Estimativas oficiais de Kiev registam mais de 25 mil mortes só entre os "liquidadores", os trabalhadores das operações de limpeza, a maior parte deles ucranianos, russos e bielorrussos. E mais de 2,3 milhões de pessoas são dadas como "tendo sofrido com a catástrofe" - incluindo as 4400 que eram crianças e adolescentes em 1986 e que foram operadas entre esse ano e 2006 devido a cancro da tiróide, a consequência mais evidente da exposição à radiação. D.F.

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