"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, novembro 04, 2009

Hoje só são permitidos dois slogans: "Morte à América" e "Morte a Israel"
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/04-11-2009/hoje-so-sao-permitidos-dois-slogans-morte-a-america-e-morte-a-israel-18149286.htm

Por Margarida Santos Lopes

Regime colocou os Guardas da Revolução e a milícia Bassij em estado de alerta máximo, para impedir manifestações da oposição no dia que assinala a instituição da teocracia

Quando os EUA se tornaram o "Grande Satã"

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As autoridades iranianas avisaram que hoje só serão permitidas "manifestações antiamericanas em frente da antiga Embaixada dos Estados Unidos em Teerão". Todas as outras - sobretudo as convocadas pelo campo reformista a que, ironicamente, pertencem alguns dos que, em 4 de Novembro de 1979, ocuparam o "ninho de espiões" - serão reprimidas "com força".

Para impedir a repetição dos protestos em massa de Junho, após o anúncio da reeleição do Presidente Mahmoud Ahmadinejad, e de Setembro, durante as comemorações do Dia de Jerusalém, o regime mobilizou as suas duas maiores forças: os Guardas da Revolução (Pasdaran) e a milícia Bassij (Mobilização).

Dois candidatos derrotados em Junho, Mir-Hossein Moussavi e Mehdi Karroubi, apelaram aos seus apoiantes para voltarem às ruas, mas o chefe da polícia de Teerão deixou bem claro que só serão consideradas "legais" as manifestações cujos slogans sejam "Morte à América" e "Morte a Israel". Os que gritarem "Abaixo o Ditador" (numa alusão a Ahmadinejad e/ou ao Supremo Líder, Ali Khamenei) serão confrontados pelos paramilitares.

Talvez para assegurar que a teocracia se mantém consolidada, apesar das suas facções desavindas, da revolta da minoria sunita, da pressão sobre o programa nuclear e da presença das forças americanas nas suas fronteiras (Iraque e Afeganistão), Khamenei adoptou ontem um tom invulgarmente duro em relação a Barack Obama.

O ayatollah, que reapareceu em público na quinta-feira, negando rumores sobre a sua morte, frisou: "Esse novo Presidente americano enviou mensagens, orais e escritas, propondo virar a página e cooperar para resolver os problemas do mundo. (...) Aparentemente, diz negociar mas, ao mesmo tempo, ameaça e indica que, se as negociações não conduzirem aos resultados que espera, vai fazer isto ou aquilo. A nação iraniana não se deixará enganar pelo tom conciliatório dos EUA e defenderá os seus direitos, independência e liberdade."

Em 4 de Novembro de 1979, foram jovens que, receosos de rivais internos e inimigos externos, enfrentaram uma superpotência. Em 1999, foram jovens - 70 por cento da população - que se revoltaram nas universidades, exigindo mudanças. Em 2005, foi a desilusão dos jovens com o reformista Mohammad Khatami que levou o ultraconservador Ahmadinejad ao poder. Em 2009, foram eles que deram vida ao movimento verde de Moussavi (um ex-revolucionário).

Um erro

Muitos dos antigos radicais que em 1979 ameaçaram, vendaram, interrogaram, mantiveram em isolamento e proibiram 52 reféns americanos de falarem uns com os outros, durante 444 dias, reconhecem hoje que a ocupação foi um erro monumental.

"Para uma geração de norte-americanos, a ocupação da sua embaixada foi uma violação flagrante da lei internacional por um regime desprezível", escreveu Ray Takeyh, em Hidden Iran - Paradox and Power in the Islamic Republic. "Para Khomeini [o fundador da República Islâmica], era a ocasião de transformar a sua visão de uma sociedade islâmica numa ideologia de poder sem os constrangimentos próprios de uma democracia, como coligações e dissidentes."

Três décadas depois, a embaixada dos EUA é hoje um centro de treino dos Pasdaran e um museu dos "crimes da América".