"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sábado, novembro 07, 2009

a primeira cidade comunista comunista é uma cidade fantasma

A primeira cidade comunista em solo alemão é hoje uma cidade-fantasma
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/07-11-2009/a-primeira-cidade-comunista-em-solo-alemao-e-hoje-uma-cidadefantasma-18173250.htm
Por Maria João Guimarães,em Eisenhüttenstadt

Eisenhüttenstadt era o orgulho da antiga RDA, uma cidade-modelo criada à volta de uma fábrica de aço. Hoje está a ficar deserta e os seus jovens só pensam em ir para oeste

Mulheres deixam o Leste mais depressa

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Reportagem

As ruas de Eisenhüttenstadt são amplas e os prédios estão bem arranjados, com jardins espaçosos e zonas verdes. Já há poucos sinais dos antigos arranha-céus pré-fabricados do tempo da ex-RDA, os plattenbauten: a maioria foi destruída depois de serem abandonados pelas pessoas que lá viviam. De vez em quando, surge um lembrete de que estamos numa antiga cidade-modelo comunista, fundada em 1950 pelo regime da Alemanha de Leste: uma obra de arte pública típica da época, feita com o ferro produzido na fábrica local.

Mas ao passear pela cidade apercebemo-nos de que falta qualquer coisa: é possível andar quarteirões inteiros sem ver ninguém, no centro há uma ou duas pessoas na rua; há uma solidão acentuada pela dimensão larga das avenidas, pelos relvados ao lado dos passeios, grandes edifícios - tudo quase sem pessoas.

Em 20 anos, muito mudou em Eisenhüttenstadt, que foi também chamada Leninstadt, a cidade de Lenine. Perto da estação de comboios está Toni Serowy, que trabalhou na fábrica que deu origem à cidade, a EKO, durante dez anos. Veste um fato de treino estafado e fuma um cigarro. Dá uma gargalhada - quase teatral - quando ouve que uma jornalista estrangeira está a escrever um artigo sobre Eisenhüttenstadt. "Boa sorte", diz, antes de dar outra risada, esta mais amarga. "É uma cidade-fantasma", sublinha, explicando: "A cidade tinha 50 mil habitantes, hoje tem 30 mil. A fábrica empregava 12 mil pessoas, hoje emprega 3 mil."

Abana a cabeça: "É como num navio a afundar; os ratos estão todos a fugir." Toni Serowy tem 47 anos e saudades do tempo em que a fábrica funcionava a pleno gás, antes da queda do muro. Ele ainda trabalhou lá nessa altura - entretanto foi um dos muitos que foram sendo despedidos, e hoje é electricista, trabalhando por conta própria. "A cidade começou a morrer depois de cair o muro", conclui.

Um pouco mais à frente na antiga avenida Lenine, onde está hoje um Burger King - e que é aliás o único restaurante visível -, passam dois rapazes adolescentes, um pouco borbulhentos, com bicicletas pela mão.

Matthias Fischer, 18 anos, começa por dizer que gosta de viver aqui. "Quer dizer... mais ou menos, nem tudo é negativo", explica. "Mas não há futuro, não há trabalho", contrapõe. "Por isso penso ir embora." Para onde? "Oeste." Onde no Oeste? "Não faço ideia." Fazer o quê? "Não faço ideia."

Muitas pessoas acabam o liceu, pegam numa mota ou entram num comboio, e vão para oeste, "não interessa para onde", diz Tony Serowy. "E já não voltam."

Steffan Frülih, 26 anos, e Christian Prütz, 24, trabalham numa empresa de imobiliário; são uma espécie de intermediários entre os inquilinos e os proprietários de vários blocos de apartamentos da cidade. Têm opiniões diferentes sobre como é viver aqui: Steffan gosta - "é a minha cidade natal, onde tenho família e amigos", diz; Christian não: "é uma cidade velha, a média de idades é de 45, noutras cidades é de 29, e eu sinto-me cada vez mais aborrecido", queixa-se.

Steffan lembra-se de a cidade ser viva. "Mudou muito - há muitos edifícios que foram destruídos depois de ficarem vazios, quando a população foi saindo. Não há trabalho, a economia está má... toda a gente vai para oeste", nota. "O meu pai trabalhou na fábrica, agora está subcontratado. É uma vida mais difícil", admite Steffan. Mas não gostava de voltar para o regime da antiga Alemanha de Leste. Nem Christian: "Havia um bom sistema escolar, toda a gente tinha emprego, as pessoas não tinham medo do futuro... Há pessoas mais velhas que acham que antes era melhor. Mas nós preferimos viver neste sistema: podemos viajar, comprar o que quisermos."Turismo de História

Eisenhüttenstadt poderá tentar tornar-se uma tracção turística: afinal é a "primeira cidade socialista em solo alemão", e noutros países como na Polónia cidades deste género, como Nowa Huta, a "cidade ideal" comunista, começam a fazer parte de percursos do "turismo de História". Pensando nisso, Eisenhüttenstadt tem um centro para receber turistas e um museu da "vida de todos os dias" na antiga Alemanha de Leste.

No museu (onde está uma única visitante) está Andreas Ludwig, o director, que curiosamente é um alemão ocidental e nem vive ali, mas sim em Berlim - "numa hora e meia chego cá", explica. "Tentámos fazer o museu em Berlim, mas por razões de política cultural não foi possível", conta. "Berlim quer museus maiores, nós queríamos um museu que contasse, através dos objectos de todos os dias, a História da RDA. Queríamos questionar, através destes objectos, qual é o envolvimento pessoal na História."

Antes de se despedir, Ludwig ainda diz que sabe duas palavras em português: "Obrigado e bacalhau." São as palavras que ficaram do tempo que passou em Portugal, após o 25 de Abril, quando fez traduções no Alentejo em troca de dormida e comida.