Aqui a morte nunca descansa
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/04-11-2009/aqui-a-morte-nunca-descansa-18147905.htm
Por Bob Pool
Quem não tremer nem ficar com náuseas perante a fotografia da vítima de uma colisão entre uma moto e um camião está pronto a entrar neste museu de Hollywood. Qual o interesse? Talvez as pessoas saiam daqui com uma perspectiva melhor da vida
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O Dia dos Mortos e de Halloween já passou, mas não para Cathee Shultz e J. D. Healy. Ao longo de mais de 18 anos, o casal tem coleccionado os pertences de serial killers, as cabeças mumificadas de assassinos em série decapitados e outros objectos relacionados com a morte, como fotografias de locais de crimes famosos e autópsias. Partes da colecção estão expostas desde o começo do ano no seu Museu da Morte, em Hollywood.
"É muito detalhado e real. Olhe para essa imagem atrás de si. É a nossa fotografia de teste", diz Cathee Shultz a um visitante que está prestes a pagar os 15 dólares da entrada no museu.
Se a fotografia da vítima de uma colisão entre uma moto e um camião não o fizer ficar a tremer ou com náuseas, então está pronto para passar as barras de uma cela da zona dos condenados à pena de morte que esperam ser executados na Prisão Estatal de San Quentin, e seguir depois para a área de exposição, diz Cathee.
Passando por uma alcova de bebé onde está encaixado um caixão talhado à mão e datado do início do século XX, iniciamos a visita e ficamos de queixo caído e o estômago começa a dar voltas.
No início, a visita é bastante inofensiva. A primeira sala é dedicada a materiais referentes a funerais, com uma selecção de caixas de fósforos e paredes cobertas de cartões-de-visita de agências funerárias e as ventoinhas com o símbolo de casa mortuária que se usava nos velórios nos velhos tempos antes do aparecimento do ar condicionado.
Estão aqui antigos equipamentos mortuários e velhas garrafas de líquido de embalsamar, agora vazias. E é continuamente exibido um muito explícito e detalhado filme de instruções sobre como embalsamar um cadáver.
John Howell, um turista de 54 anos proveniente de Branford, estado do Connecticut, não quer ver o vídeo, mas não resiste. "Lá na nossa terra não temos nada deste género", explica. O seu filho Jeff, de 29 anos, já não aguenta ver mais. Avança e pára em frente a uma vitrina vidrada que contém a cabeça de um homem. Uma legenda identifica-a como os restos guilhotinados de Henri Landru, o Barba-Azul Francês que foi executado em 1922, após ser considerado culpado da morte de 11 mulheres.
"É mesmo a cabeça dele", exclama, espantado, Jeff Howell, empregado de restaurante e morador em Los Angeles.
Mais à frente no museu existe um átrio onde estão em exibição fotografias horríveis de acidentes de viação com vítimas mortais, e também uma janela que se abre para o que parece ser um quarto de dormir. Lá dentro, num beliche, estão duas figuras de ténis e roupas negras com sudários roxos a tapar as suas cabeças.Vítima desmembrada
É a reconstituição do suicídio colectivo do culto Heaven"s Gate ocorrido em 1997, perto de San Diego, em que 30 membros do grupo, esperando conseguir uma viagem para o Além a bordo de um cometa que se aproximava da Terra, se envenenaram. Um vídeo de recrutamento feitos pelos elementos do culto passa em loop. Legendas explicam que o beliche, um dos sudários e um dos pares de ténis são autênticos - e ainda mantinham o inconfundível cheiro a morte quando chegaram do local da morte.
Surgem também edições originais de primeiras páginas de jornais que relatam detalhadamente terríveis episódios de morte e canibalismo, e centenas de fotografias: imagens dos locais dos assassínios da "família" de Charles Manson, do esquartejamento de Elizabeth Short, conhecida como "Dália Negra" ou da morte do Presidente John F. Kennedy. Um conjunto de fotografias mostra dois assassinos e a vítima que desmembraram.
Uma vitrina de taxidermia inclui um cão de raça Chihuahua que morreu juntamente com a actriz Jayne Mansfield num acidente de automóvel em 1967. Ali ao lado, num pequeno auditório são exibidos intermináveis vídeos e filmes de mortes reais - dizem-nos que aqui não há simulações. Uma sala é dedicada a serial killers como John Wayne Gacy e Lawrence Bittaker. Na década de 1970, Gacy assassinou 33 pessoas na área de Chicago, e vários originais das suas pinturas de palhaços, assinadas por ele, estão pendurados nas paredes. Uma vitrina exibe cartões de parabéns feitos à mão com desenhos de Bittaker, que matou cinco mulheres na zona de Los Angeles.
Cathee Shultz diz que ela e o marido conseguiram os trabalhos e as cartas de Gacy e Bittaker da maneira mais prosaica: pediram-lhes. Gacy foi executado em 1994; Bittaker está à espera de o ser.
"Escrevemos aos serial killers e enviámos-lhes canetas, papel, selos e um vale postal de 10 dólares", explica Shultz. "Gacy telefonava-nos a dizer para irmos levantar. Ele até começou a vender as pinturas que fazia."
"Alguns dos objectos que estão no museu apareceram por acaso. O nosso maior golpe de sorte foi a cabeça de Henri Landru. Um neurologista de Malibu tinha a cabeça, mas a mulher dele não gostava nada daquilo. Depois de me ter visto num programa do Canal História acerca de execuções, mandou-me um email e ofereceu-nos a cabeça", conta Shultz. "Noutra ocasião, alguém entrou pela nossa porta com os vídeos sobre embalsamar e deu-nos as cassetes. Você ficaria surpreendido se soubesse tudo o que nos entra pela porta dentro."
Réplicas de guilhotina
Cathee Shultz (de 47 anos) e J. D. Healy (de 48) vivem em Hollywood. Ela é pintora e criou as salas de exposição do museu nos antigos estúdios de gravação e salas de produção do edifício situado no nº 6031 do Hollywood Boulevard, que antes foi a sede de uma editora musical. Ele é carpinteiro e construiu as réplicas de guilhotina e cadeira eléctrica presentes no museu.
O casal, que está casado há 25 anos, iniciou o museu em San Diego em 1995, e durante algum tempo estabeleceram a sua base noutro local de Hollywood. O actual museu abriu após um proprietário de uma casa que Shultz e Healy tinham renovado lhes ter emprestado dinheiro para relançarem a iniciativa. Cathee Shultz afirma que o museu se financia a si próprio.
"A minha esperança é que as pessoas aqui percebam que a vida é curta e devem vivê-la ao máximo, que até um mau dia é um bom dia", diz Healy. "Quero que as pessoas saiam daqui com uma melhor perspectiva sobre a vida."
O primeiro visitante de hoje foi uma mulher que teve um relacionamento com uma das vítimas do Heaven"s Gate. "Ela queria ver se ele estava no vídeo. Fiquei com ela durante toda a visita. Não estava zangada por termos aquilo em exibição, estava fascinada. Disse que só veio cá para ver aquilo", conta Shultz.
John Howell, o turista do Connecticut, ficou especialmente impressionado com as fotografias do assassínio de John Kennedy: "Fiquei muito surpreendido. Não sabia que elas existiam." Dina Castañeda, estudante de Psicologia de 23 anos de Santa Fé Springs, visitou o museu com um amigo, Artemio Lomas (24 anos), técnico informático de Anaheim. Dina diz que vai elaborar um trabalho para uma cadeira da faculdade, descrevendo os seus sentimentos acerca do que viu aqui.
"O pior de tudo foi o caixão do bebé", explica, tremendo só de pensar na sala mortuária. "Fiquei cheia de medo."
Exclusivo PÚBLICO/Los Angeles Times

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