"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, dezembro 11, 2009

11 de SetembroSe alguém escreve "Diz-me se estás bem", isso é de interesse público?
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/11-12-2009/11-de-setembrose-alguem-escreve-dizme-se-estas-bem-isso-e-de-interesse-publico-18391381.htm
Por Rita Siza, Washington

Confissões, pedidos de desculpa, declarações de amor. A divulgação de 570 mil mensagens enviadas no dia 11 de Setembro de 2001 suscitou a polémica. A vida íntima de muitas pessoas foi devassada, com a divulgação de nomes e números de telefone de quem as escreveu. E a segurança do país foi posta em causa, argumentam os críticos. Foi pedida uma investigação

Desabafos, alertas e súplicas: "Se não me ligas já para me dizeres que não estás morto, mato-te"

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Vários advogados americanos puseram em causa o interesse público da publicação de milhares de mensagens alfanuméricas de pager trocadas ao longo do dia 11 de Setembro de 2001, enquanto os Estados Unidos viviam o primeiro atentado terrorista da sua história. A divulgação da informação, por ordem cronológica, desde as três da manhã até à mesma hora do dia seguinte, foi feita pelo site Wikileaks.

A informação, cuja fonte não é atribuída, é essencialmente anódina no que diz respeito à explicação do que aconteceu naquele dia. Não introduz nenhum novo elemento nem acrescenta nada à vasta quantidade de informação disponível sobre o que se passou - o que poderá, talvez, explicar a indiferença com que os media norte-americanos lidaram com o assunto. Nem mesmo os adeptos das teorias da conspiração lhes encontraram, por enquanto, utilidade. A sua publicação não deixou, contudo, de estar rodeada de controvérsia, e mereceu já comentários a vários especialistas jurídicos, que alegam que o direito à privacidade de milhares de pessoas foi violado sem que tal facto fosse justificado pelo interesse público das suas comunicações particulares.

O pacote de mais de 570 mil mensagens, que sem dúvida serão acrescentadas à colecção de factos do 11 de Setembro, pode não contar nenhuma história nova, mas abre uma minúscula janela para as histórias dos milhares de pessoas envolvidas e/ou afectadas pelos acontecimentos daquele dia. Pessoas que, surpreendidas, assustadas ou desesperadas pelas imagens transmitidas pela televisão, usaram os seus pagers para trocar mensagens obviamente pessoais e íntimas: confissões, pedidos de desculpa, declarações de amor...

A maioria das mensagens corresponde, no entanto, a alertas automáticos e protocolos de resposta de sistemas informáticos, a números telefónicos ou códigos usados pelas autoridades e serviços de emergência. A sua divulgação no site http://911.wikileaks.org/ levanta algumas questões de segurança. "Temos de nos perguntar como foi possível aceder a estas mensagens. E temos de nos perguntar até que ponto as comunicações sensíveis em redes à partida protegidas podem ser tão facilmente interceptadas", comentou um especialista em segurança na Internet.

O congressista republicano de Nova Iorque Pete King pediu a abertura de uma investigação. "Houve uma óbvia fuga de informação com ramificações na vida pessoal de milhares de pessoas e mais significativamente na segurança doméstica do país e esse facto não pode passar impune", considerou.

Pouco tempo depois de dois aviões embaterem contra as torres do World Trade Center, tanto o serviço de Internet como os sinais de telefone fixo e móvel foram cortados; as telecomunicações em Nova Iorque ficaram circunscritas às frequências de emergência e aos pagers alfanuméricos. As redes da Skytel, Arch Wireless e Metrocall continuaram activas, enquanto todos os outros serviços falharam. Essas três empresas compõem a chamada rede Mobitex, que começou a ser usada pelos serviços de emergência e militares no início da década de 90.

A companhia de telecomunicações USA Mobility, cujas mensagens de pager constam entre aquelas publicadas, tornou público o seu "desconforto" pelo facto de o seu arquivo poder ter sido acedido, copiado e publicado na Internet.

Devassa da intimidade

O site Wikileaks, criado em 2006, tem por missão a promoção da transparência entre os governos, as instituições, as empresas e o público em geral. É mantido segundo o princípio da fuga de informação (leak, na gíria jornalística norte-americana) principalmente por fontes anónimas, que disponibilizam relatórios, pareceres e outro tipo de documentos confidenciais ou sob reserva que, de outra maneira, estariam inacessíveis à maior parte da população.

Os gestores do site recusaram-se a revelar como tiveram acesso a estes milhares de mensagens, mas sublinharam confiar que o material é fidedigno. "Pelo contexto que a nossa fonte nos forneceu, temos fortes razões para acreditar que todas estas mensagens são verídicas", referiu um porta-voz do Wikileaks, acrescentando que essas mensagens foram originadas no Pentágono, FBI, Federal Emergency Management Agency, departamento de polícia de Nova Iorque e bancos de investimento dentro do World Trade Center.

O mesmo porta-voz justificou a decisão de publicar as mensagens alegando que se trata de "informação com valor histórico". E acrescentou: "Estas mensagens são um registo significativo e completamente objectivo de um dos momentos mais determinantes do nossos tempos."

As autoridades norte-americanas não confirmaram se as mensagens são ou não genuínas. A polícia e os bombeiros da cidade de Nova Iorque disseram que não podiam garantir que correspondiam às reais comunicações dos respectivos departamentos e os serviços secretos simplesmente escusaram-se a falar sobre o assunto.

Vários analistas independentes validaram, contudo, a veracidade das mensagens, mas questionaram o seu real valor. E as suas dúvidas nem dizem tanto respeito à possível exposição dos códigos das agências de segurança.

As suas reservas têm a ver com a divulgação não autorizada dos números telefónicos, endereços de e-mail e das relações pessoais e detalhes da vida privada das pessoas apanhadas nestas "escutas".

Um blogue mantido por elementos do exército norte-americano lamentou que estas trocas pessoais estejam agora disponíveis no ciberespaço. "Não há nenhuma razão para a partilha destas mensagens, a não ser a alimentação do sensacionalismo e do voyeurismo sobre a vida de pessoas comuns, que nem sequer sabemos se sobreviveram ou não aos ataques. É uma devassa total da sua intimidade e uma exploração dos seus sentimentos mais profundos", critica um militar da Navy Seal (a tropa de elite da Marinha).

Para alguns críticos, a decisão da Wikileaks de disponibilizar este material veio ferir a sua própria credibilidade. "É uma leitura interessante, mas isso não pode escamotear o facto de que a sua publicação é errada. São mensagens pessoais que não têm relevância para o interesse público. O Wikileaks desceu ao nível dos tablóides", comentou um dos utilizadores do site.

Um outro deixou uma dúvida: "Só porque alguém escreve "Diz-me se estás bem" no dia 11 de Setembro, isso é do interesse público? Isso tem valor histórico?" E lembra que o nome e o número dessa pessoa está identificado nesta lista. "E se a mensagem não foi para a mulher, mas sim para a amante?", questiona.

O professor de Ciências da Computação Eugene Spafford, da Universidade de Duke, diz que a lição a tirar deste caso é que "os utilizadores de mensagens de texto, em pagers ou telemóveis, já não podem esperar que a sua privacidade esteja protegida".

"Aquilo que enviamos ou recebemos nos nossos aparelhos pode ser interceptado e disponibilizado em tempo real", avisa este professor. "Ou então a informação pode ser guardada e recuperada muitos anos depois, como agora. Num ou noutro caso, a conclusão é a mesma: a privacidade nas telecomunicações não existe."