"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Espaço

O futuro já está a começar... ou continuará a ser adiado?
01.02.2010 - 09:32 Por Clara Barata

http://www.publico.clix.pt/Ciências/o-futuro-ja-esta-a-comecar-ou-continuara-a-ser-adiado_1420753

Há 40 anos que sonhamos com bases lunares, mas não é ainda garantido que seja mesmo desta vez que elas se concretizam. E regressar à Lua nos tempos mais próximos não é consensual. Há quem prefira ir a Marte primeiro.
Branca e árida, sem os azuis do mar e os farrapos das nuvens que cobrem o planeta a que chamamos casa. Redonda, cada vez maior, cheia de marcas e cicatrizes de impactos de meteoritos é como os quatro astronautas a bordo da cápsula Orion vimos a Lua a aproximar-se, cada vez mais perto, ao longo dos quatro dias de viagem desde que saímos de Cabo Canaveral. Agora chegou a altura de passar para o módulo de alunagem Altair, que nos fará pousar no pólo sul desta bola poeirenta que fez sonhar as gerações de humanos que ergueram os olhos para o céu e viram aquela bola brilhante e misteriosa.

“Uma magnífica desolação”, chamou-lhe Buzz Aldrin, o segundo homem que deixou as pegadas do seu pesado fato de astronauta impressas no solo arenoso da Lua. As palavras dele vêm-me à lembrança quando olho pela escotilha do Altair; bem mais que o “pequeno passo para um homem, um grande passo para a Humanidade” de Neil Armstrong, o primeiro a saltar na Lua, onde cada passo nos pode transformar em cangurus, porque só tem um sexto da gravidade na Terra.

Com Buzz na cabeça, olho para algo com que ele sonhou, mas que só quase 60 anos depois começa a tornar-se realidade: parecem latas de salsichas dispostas em formação por um campista desleixado, agora cobertas do rególito lunar, a terra e a areia mais fina que a fina areia da Terra que as cobrem. Não parece muito, mas é a primeira base humana permanente na Lua.

Foi construída pelos robôs que para lá foram enviados em missões anteriores — levavam materiais insufláveis, como tendas super high-tech para um acampamento mesmo do outro mundo, para construírem os compartimentos que vão ser a nossa casa durante a próxima semana. Por cima, colocaram uma camada de rególito que tem pelo menos 2,5 metros de espessura — para nos proteger dos raios cósmicos, que bombardeiam sem misericórdia a Lua, que não tem atmosfera para a proteger. A actividade dos robôs foi seguida 24/24 horas a partir das sondas em órbita da Lua (e transmitida em directo na Internet, o site da NASA até ficou várias vezes indisponível, nos primeiros dias, tal era a curiosidade).

Nós os quatro vamos lá ficar sete dias, mas podíamos lá ficar até 210 dias — é a capacidade máxima de alimentos e carga que a Orion e o Altair poderiam levar, a partir da Terra.

Vamos abrir a porta, é agora.

De volta ao presente

Flashback para o presente: isto poderia ser o diário de um dos quatro astronautas que formarão a primeira tripulação da tão sonhada base lunar — há planos para elas desde que o Presidente John F. Kennedy lançou o desafio de os Estados Unidos se tornarem no primeiro país a pôr astronautas no satélite natural da Terra.

Em 2004, outro Presidente dos EUA, George W. Bush, propôs que se regressasse à Lua em 2020, depois de um abandono de 48 anos (a última missão Apolo foi em 1972). Contando com os atrasos naturais — e os problemas de que parece estar a sofrer o desenvolvimento dos novos foguetões com que os EUA querem mandar humanos para o espaço (Ares I e Ares V), contemos com um regresso já mais para perto de 2030. Isto se os planos do programa Constelação vingarem, e não sofrerem alterações significativas depois da apreciação a que estão a ser submetidos por uma comissão independente, liderada pelo especialista no sector aeroespacial Norman Augustine.

Espera-se ansiosamente o relatório Augustine para o fim de Agosto — o foguetão Ares I, que seria o veículo que levaria as tripulações para a órbita da Terra, depois de aposentado o vaivém ( já em 2010), está a ter problemas que alguns engenheiros da NASA consideram demasiado sérios. Tanto assim é que se formaram grupos dissidentes, que defendem a adaptação de outros foguetões já existentes (como os do tipo Júpiter) para transportar voos tripulados, e para terem a potência suficiente para chegar à Lua, em vez de desenvolver novos lançadores.

A nomeação desta comissão de avaliação “reflecte a realidade da existência de muitas críticas ao programa Constelação”, comenta John Logsdon, historiador da era aeroespacial do Museu Smithsonian do Ar e do Espaço (Washington) e professor de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade George Washington.

“Creio que a comissão Augustine vai fazer recomendações que incluirão alternativas à actual arquitectura. Mas serão apenas isso, recomendações. Cabe ao Presidente e ao Congresso decidir se devem ser aplicadas e como o devem ser”, considera Jeff Foust, editor do site SpaceReview.com, frequentado por cientistas e engenheiros da NASA, entusiastas do espaço e especialistas do sector, que contribuem com artigos de opinião.

Copiando a estação espacial

Mas, se os planos se mantiverem, o regresso dos norte-americanos à Lua será a próxima grande aventura.

“Uma primeira base na Lua seria muito espartana”, diz Haym Benaroya, director do Departamento de Engenharia Mecânica e Aeroespacial da Universidade de Rutgers (em New Jersey, nos EUA). “Poderia ser apenas uma ou duas estruturas cilíndricas — como latas de sopa — e teria capacidade para alojar três a seis pessoas durante cerca de seis meses”, explica, através de correio electrónico. Em 2008, Benaroya foi co-autor de um artigo na revista científi ca Acta Astronáutica, em que fazia uma revisão do muito trabalho de investigação das duas últimas décadas sobre como poderia ser uma casa humana na Lua.

“Terá uma estrutura modular muito semelhante à Estação Espacial Internacional: módulos de metal cilíndricos, importados da Terra, cobertos com rególito, para os proteger dos micrometeoróides e da radiação”, diz por sua vez Florian Ruess, da empresa HE2 — Habitats for Extreme Environments, uma empresa alemã formada por engenheiros aeroespaciais e especialistas em estruturas com ideias para desenvolver tecnologias novas para a exploração lunar.

Estes módulos terão de proteger os astronautas dos pequenos meteoritos que constantemente bombardeiam a Lua e dos raios cósmicos, pois o nosso satélite natural não está envolto numa atmosfera protectora, como a Terra. Além disso, terão de isolar os astronautas e os seus equipamentos do terrível pó lunar, extremamente abrasivo. Pode até nem se ver mas infiltra-se em tudo, nos fatos, nos pulmões, nos equipamentos dos astronautas das missões Apolo que até deixavam de funcionar. Pensase que 20 por cento destas poeiras lunares são ainda mais fi nas do que aquela em que fi caram preservadas as pegadas dos astronautas das missões Apolo, e 50 por cento é mais fi na que a areia mais fi na da Terra.

Estes módulos, insufláveis ou construídos a partir de uma espécie de basalto, criado com as rochas da Lua, terão de ser “a habitação, o laboratório e os armazéns” da primeira base. “Talvez sejam usadas estruturas insufl áveis para criar espaços grandes de forma barata [como pesam pouco, custariam menos a trazer da Terra], por exemplo para fazer estufas”, para cultivar plantas, escreve Ruess, numa mensagem de e-mail.

Há quem já tenha pensado muito nisto e feito contas precisas — por exemplo, quanto à área mínima de uma colónia. As missões Gemini, que levaram dois astronautas americanos ao espaço de cada vez, durante a década de 1960, demonstraram que uma pessoa consegue aguentar- se sentada numa cadeira numa missão que não supere as duas semanas: não tinham mais do que 0,57 metros cúbicos de espaço.

Mas, para missões maiores, as recomendações da NASA apontam para um mínimo de 20 metros cúbicos para cada pessoa; na Estação Espacial Internacional, incluindo áreas de ha- bitação e de trabalho, cada astronauta tem 120 metros cúbicos, e essa deveria ser a medida de uma base na Lua. E, curiosamente, uma boa parte desse espaço devia ser em altura, pois existindo apenas um sexto da gravidade terrestre no nosso satélite natural, os saltos dos astronautas serão bem altos e comuns...

E o que poderiam fazer de útil os astronautas na Lua? Para além de a explorarem, poderiam começar a procurar minerais e outros materiais nativos que seriam usados para expandir a base e, quem sabe, dar até origem a explorações industriais ou comerciais lucrativas.

“Os astronautas usariam o seu tempo para estudar as redondezas e começar a construir uma infra-estrutura, a expandir as instalações”, diz Benaroya. “Usariam um veículo lunar, para explorarem de carro a área em torno da base, que provavelmente será no pólo sul”, porque está mais tempo exposto à luz do Sol, e é também mais provável que lá exista água — um bem que parece escasso na Lua. “O principal argumento contra uma base na Lua é a falta de água”, diz Florian Ruess. “Será preciso transportar toneladas de água para lá, para manter a tripulação, sintetizar combustível, etc.”

Competição chinesa

Na NASA há uma disputa que ameaça eternizar- se entre as estratégias “Lua Primeiro” e “Marte Directo”. Depois de quatro décadas em que nos limitamos à órbita da Terra, há quem defenda a necessidade de retomar a capacidade de viajar até à Lua — coisa que nenhum país ou empresa está hoje habilitado a fazer —, para aí ensaiar missões mais longas, até Marte. Mas outros defendem que não deveríamos perder tempo com algo que já fi zemos e que o melhor seria avançar já para uma missão tripulada a Marte.

Nos últimos tempos, surgiu uma terceira opção: viagens até asteróides cuja rota em torno do Sol os aproxime da Terra. “Há muito interesse em ir a Marte, mas é pouco provável que alguém consiga ter a tecnologia e o fi nanciamento para suportar uma expedição até lá nas próximas duas décadas. Uma alternativa ao regresso à Lua seria organizar missões tripuladas até asteróides na proximidade da Terra. Essas missões durariam meses e exigiriam a mesma energia que ir a Marte”, diz Jeff Foust.

A verdade é que o cenário mais próximo para a NASA será um frustrante hiato de pelo menos cinco anos (2010-2015), entre a aposentação definitiva da frota de vaivéns e o início do funcionamento das cápsulas de passageiros Orion montadas em foguetões Ares. E, durante esse período, os EUA, que ficarão dependentes das cápsulas Soiuz russas para chegar à Estação Espacial Internacional, podem ver a China triunfar como a terceira potência espacial.

Pode ser uma afronta ao orgulho americano? Será que o próximo astronauta na Lua será chinês?

“A China está empenhada num programa de exploração espacial e voos tripulados, mas tudo isto é arriscado e difícil. Nos próximos cinco anos, não estou a ver os chineses a fazer algo de muito diferente do que fi zeram até agora”, comenta Henry Hertzfeld, especialista em assuntos económicos e legais das tecnologias espaciais da Universidade George Washington. O que fi zeram até agora foi colocar astronautas em órbita e, no ano passado, realizaram os primeiros passeios espaciais.

“No futuro próximo, a China está é empenhada em desenvolver pequenas estações espaciais”, diz Foust. “Alguns responsáveis chineses sugeriram que era possível haver uma expedição tripulada à Lua entre 2025 e 2030. Mesmo que fosse verdade, seria depois do calendário norte-americano — embora, claro, os planos possam mudar.”

Logsdon aposta noutro tipo de novidade: “Não acredito que a China tenha mesmo um programa activo de missões tripuladas à Lua. A próxima (e primeira) mulher na Lua será provavelmente dos Estados Unidos ou da Rússia.”

E as empresas privadas que estão a tentar ir ao espaço, o Prémio X fi nanciado pela Google (30 milhões de dólares a distribuir pelas primeiras três equipas que consigam fazer aterrar uma nave na Lua, movimentar-se com um robô na superfície do satélite fazendo pelo menos 500 metros, e transmitir imagens e outros dados para a Terra, tudo isto até 31 de Dezembro de 2012)?

“Há que distinguir duas categorias: por um lado, há muitas empresas apostadas em fazer voos suborbitais, com um potencial mercado para turistas ricos. Depois há outras que estão a tentar chegar mesmo ao espaço e fazer coisas úteis, como a SpaceX, que está a colaborar com a NASA”, diz Hertzfeld. “Mas é altamente improvável que consigam chegar à Lua. Podem é restar pequenos serviços, ser uma espécie de camiões espaciais para órbitas baixas.”

Porque a verdade, nua e crua, é que os custos da aventura espacial não diminuíram assim tanto nestes 40 anos. Cada quilo transportado para o espaço custa cerca de 22 mil dólares. “Não conseguimos tornar a exploração espacial barata — continua a ser quase tão cara, e não vejo no horizonte grandes modifi cações a esta situação”, comenta Hertzfeld.

Isso quer dizer que, na falta de uma Guerra Fria, que estimule politicamente a competição espacial, não haverá grandes saltos, como o da chegada do homem à Lua em menos de uma década, talvez cedo de mais para ter continuidade? “Nos anos 60, convergiram uma série de coisas; a Guerra Fria, a competição tecnológica, os Estados Unidos não tinham um grande défi - ce. Não vejo que aconteça nada de semelhante nos próximos tempos”, diz Hertzfeld.