Pyongyang executa responsável da reforma monetária
Por Francisca Gorjão Henriques
Relatório do International Crisis Group alerta para instabilidade do país, que prepara a sucessão
http://jornal.publico.pt/noticia/19-03-2010/pyongyang-executa-responsavel-da-reforma-monetaria-19022360.htm
Uma reforma monetária que esteve na origem de várias manifestações na Coreia do Norte custou a vida ao responsável das Finanças que a liderou, noticiou ontem a imprensa sul-coreana. Vários analistas não têm dúvidas: Pak Nam-ki não passou de um "bode expiatório", num momento em que o regime prepara a sucessão.
Pak Nam-ki era director do Partido dos Trabalhadores para o Planeamento e Finanças e foi demitido no início de Fevereiro pelo próprio líder norte-coreano, Kim Jong-il. Na semana passada, Pak, de 77 anos, acabou por ser executado numa caserna em Pyongyang por um pelotão de fuzilamento, adianta a agência Yonhap.
O seu crime foi ser "filho de um burguês que conspirou para se infiltrar nas fileiras revolucionárias para destruir a economia nacional", continua a agência, citando fontes próximas do processo.
Em finais de Novembro do ano passado, as autoridades decidiram proceder a uma valorização do won (a moeda norte-coreana), provocando uma subida em flecha dos preços, uma corrida inesperada aos bens de consumo e protestos de desagrado em vários pontos do país. Uma nota de 100 won poderia ser trocada nos bancos por uma nova de 1. Mas com limites: cada pessoa só poderia trocar até 100 mil won, ou seja, 526 euros, com muitos norte-coreanos - que lutam já com várias adversidades económicas para sobreviver - a perderem praticamente todas as suas economias.
A primeira valorização em 17 anos visava controlar a inflação e as transacções no mercado negro, mas em vez disso a inflação subiu - os produtos nas prateleiras dos supermercados esgotaram-se rapidamente porque muita gente gastou em bens de consumo o que não conseguia trocar nos bancos - e acentuou a falta de bens alimentares. Houve também uma corrida à compra de yuan chineses e dólares americanos.
"Reforma desastrosa"
Num relatório publicado no dia 15, o International Crisis Group referia-se a esta medida como "uma reforma monetária desastrosa", que veio juntar-se a uma "deterioração do problema crónico de segurança alimentar". E alertava que a Coreia do Norte está a ser sacudida por "sanções internacionais [impostas depois de um ensaio nuclear], escolhas políticas extremamente débeis e vários desafios internos que têm o potencial de desencadear a instabilidade".
Muitos norte-coreanos desafiaram o regime de mão-de-ferro e foram para a rua em protesto. Alguns incidentes com as autoridades provocaram 12 mortos na cidade de Hamhung, a 5 e 6 de Dezembro, de acordo com o que noticiou então o diário sul-coreano Chosun Ilbo.
Nada disto é visto com ligeireza por parte do Governo, sobretudo tendo em conta as possíveis mudanças que deverão estar a ser preparadas. Desde que em Agosto de 2008 Kim Jong-il sofreu um acidente vascular cerebral que a sucessão ocupa o centro das preocupações - a Coreia do Norte é o único regime comunista em que o poder é passado de pai para filho.
A morte de Pak serviria, assim, para acalmar os ânimos em vésperas do anúncio de que o filho mais novo de Kim, Kim Jong-un, será o próximo líder. "O sentimento geral é que a liderança fez de Pak Nam-ki um bode expiatório", diz a fonte da Yonhap.

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