Huckleberry Finn
http://jornal.publico.pt/noticia/11-01-2011/nova-edicao-apaga-a-palavra-nigger-219-vezes-20971489.htm
Nova edição apaga a palavra "nigger" 219 vezes
A New South Books vai reeditar a obra-prima de Mark Twain, rasurando o termo ofensivo "preto" ("nigger") e substituindo-o por "escravo". O objectivo, diz, é evitar que Huckleberry Finn seja banido das escolas. Se fosse vivo, Twain provavelmente reagiria explicando qual é a diferença entre um relâmpago e um pirilampo... Por Luís Miguel Queirós
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PartilharImprimirComentarEnviarDiminuirAumentarAproveitando o recente centenário de Mark Twain (1835-1910), uma editora sediada no estado norte-americano do Alabama, a New South Books, prepara-se para lançar uma controversa reedição censurada de As Aventuras de Huckleberry Finn. Ao longo de todo o texto, as palavras "nigger", forma considerada ofensiva de referir uma pessoa de cor (para usar o português politicamente correcto), e "injun" (forma igualmente considerada ofensiva de referir os índios americanos) serão respectivamente substituídas pelos termos "slave" (escravo) e "indian" (índio).
A editora New South Books e o responsável pela edição - o professor Alan Gribben, um especialista na obra de Twain que ensina na Universidade de Auburn, também no Alabama - terão achado que talvez fosse um bocadinho forçado de mais pôr personagens do início do século XIX a utilizar a expressão "native american" (nativo americano).
Se o termo "injun" só aparece ocasionalmente, a palavra "nigger" ocorre, segundo o editor, 219 vezes (total que presumivelmente inclui as ocorrências do plural "niggers"). A editoraassegura que, em todos os casos, sem excepção, o termo depreciativo foi substituído por "slave". O que quer dizer que, para citar apenas um exemplo, onde, no capítulo VI, líamos "according to the old saying, "Give a nigger an inch and he"ll take an ell"" ["de acordo com o velho ditado "Dá uma polegada a um preto e ele tira uma vara""], teremos agora, por assim dizer, um novo velho provérbio.
Gribben argumenta que esta medida terá um efeito duplamente benéfico: fazer desaparecer "dois epítetos nocivos" e "contrariar a censura preventiva" que tem levado a que, por todo o mundo, "importantes obras literárias" sejam "retiradas dos currículos". E que As Aventuras de Huckleberry Finn é uma importante obra literária é algo que poucos se atreverão hoje a negar. Hemingway escreveu: "Toda a literatura americana vem de um livro de Mark Twain chamado Huckleberry Finn. [...] Não houve nada antes. Não houve nada tão bom desde então." Das várias edições portuguesas da obra, a mais recente é da Relógio d"Água, com uma nova tradução de Sara Serras Pereira.
A favor de Gribben, há que dizer que "nigger" (em Portugal, mas já não no Brasil, "preto" traduz melhor a intenção depreciativa do termo) é hoje, provavelmente, a palavra com maior potencial ofensivo da língua inglesa, ainda que, em contexto informal, possa ser usada sem intenção ofensiva, quando ambos os interlocutores são negros. A própria imprensa, quando se vê obrigada a usá-la, opta frequentemente pela expressão "the N-word" (a palavra [começada por] N).
Gribben também não está a exagerar quando afirma que o livro vem sendo banido de currículos escolares pela inusitada frequência da palavra maldita. Nas últimas décadas, têm sido muitos os protestos de pais a exigir que os seus filhos não sejam "forçados" a ler na escola as aventuras de Huck Finn e do seu amigo Jim, um escravo fugitivo, ao longo do Mississípi. Segundo a Associação das Bibliotecas Americanas, é mesmo o livro cuja presença nas salas de aulas dos Estados Unidos tem sido mais contestada. Um caso a que a imprensa deu relevo, por causa da polémica pública que desencadeou, ocorreu em 2003 no liceu público de Renton, no estado de Washington, quando Beatrice Clark, presidente da associação conjunta de docentes, pais e alunos da escola tentou impedir um professor de dar a ler o livro numa disciplina que era frequentada pela sua neta Phair, de 16 anos. Em declarações a um jornal de Seattle, Phair afirmou: "Senti-me humilhada e horrorizada por se estar a ensinar esse livro, que tem a palavra "negro" 215 vezes." (Ter-lhe-ão escapado quatro, já que, a confiar na contabilidade de Gribben, serão mesmo 219.) A sua avó, que apenas conseguiu que o liceu nomeasse uma comissão para estudar a forma mais adequada de apresentar a obra aos alunos, argumentou: "Não é apenas uma palavra: carrega o sangue dos nossos antepassados; chamavam-lhes isso quando estavam a ser linchados, ou enquanto eram enforcados."
Na verdade, a polémica é antiga a ponto de o próprio Twain ainda ter apanhado com ela. A edição inglesa da obra saiu em 1885 e a americana foi publicada logo no ano seguinte - ou seja, 20 anos após a emancipação dos escravos nos Estados Unidos -, mas o romance reporta-se ao Sul da primeira metade do século XIX, anterior à eclosão da guerra civil. Twain foi muito criticado pela presença do racismo no livro, mas sempre se recusou a alterar fosse o que fosse.
"Podemos aplaudir Twain como um autor realista proeminente que registou a fala de uma determinada região durante uma época histórica específica", reconhece Gribben. Mas acrescenta que os "insultos raciais abusivos" são "repulsivos para os leitores de hoje".
Muitos académicos ingleses e americanos já se insurgiram contra o que consideram ser uma despropositada concessão ao politicamente correcto. Geff Barton, director da escola secundária inglesa King Edward VI, acha "deprimente" que "não se confie nos jovens para perceber o contexto das obras", e, numa alusão à personagem shakespeariana do agiota judeu Shylock, pergunta: "Também vamos ensinar uma versão purificada d" O Mercador de Veneza?"
O pirilampo e o relâmpago
A questão de se saber se uma obra que promove o racismo ou outras ideologias igualmente repugnantes deve ser ensinada, ou mesmo lida, ainda que se lhe reconheça qualidade literária, é antiga e não tem respostas consensuais. Mas o que distingue este caso, como sublinhou a professora de Literatura Americana Sarah Churchwell, da universidade de East Anglia, é que As Aventuras de Huckleberry Finn não só não é um livro racista, como é claramente um livro anti-racista. Confessando ter ficado "incandescente de raiva" quando soube que se preparava esta edição, defende que "o problema não está no livro, mas sim no ensino".
"Os livros de Twain não são apenas textos literários, mas também documentos históricos, e a palavra em causa é icónica, porque codifica toda a violência da escravatura", diz a académica. E acrescenta: "A questão do livro é que Huckleberry Finn começa por ser um racista numa sociedade racista e depois deixa de ser racista e abandona essa sociedade." Para Churchwell, a rasura do termo "nigger" vai ocultar dos leitores "a evolução moral do carácter" do protagonista.
Twain, de resto, era um crítico feroz do racismo e contribuiu financeiramente para as primeiras associações de direitos civis que surgiram nos Estados Unidos. E basta passar os olhos por meia dúzia de ocorrências da palavra "nigger" no seu livro para se perceber como esta é eficazmente utilizada para mostrar até que ponto o racismo estava entranhado na sociedade sulista anterior à guerra civil. Veja-se, no capítulo 32, o diálogo no qual Huck conta à sua tia Sally que viu um naufrágio. "Santo Deus! Alguém ficou ferido?", pergunta a tia. "Ná. Morreu um negro [nigger]", responde o rapaz. "Bem, foi uma sorte, porque às vezes há mesmo pessoas que ficam feridas", replica a tia.
A palavra "nigger" foi sempre ofensiva, e era-o na época em que Twain escreveu o livro. Se a usou 219 vezes, não foi decerto por acaso, sobretudo tendo em conta que se trata do homem que, numa carta enviada em 1888 ao padre George Bainton (que a publicou no seu livro The Art of Authorship), escreveu: "A diferença entre a palavra quase certa e a palavra certa é deveras vasta - é a diferença entre um pirilampo e um relâmpago."

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