Documentos secretos agora revelados
Regime da ex-Checoslováquia implementou sistema de doping estatal
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1267439&idCanal=1031
17 de Agosto de 2006
POR Duarte Ladeiras
O regime comunista da antiga Checoslováquia pôs em prática, durante mais de uma década, um sistema de doping estatal, administrando esteróides e outros dopantes a desportistas de várias modalidades, com o objectivo de demonstrar a superioridade do desporto do Bloco de Leste em relação aos rivais do Ocidente.
"A aplicação consciente de esteróides anabolizantes ajudará a contribuir para uma promoção política do desporto no Estado comunista e o prestígio do país", escreveu o antigo presidente da Associação de Desporto Checoslovaca, num dos vários documentos divulgados esta segunda-feira pelo jornal "Mlada fronta Dnes" (MfD).A documentação, que permaneceu secreta durante décadas, prova que o comité central do Partido Comunista da Checoslováquia aprovou um programa de dopagem sistemática, concretizado por um grupo restrito e organizado de médicos, treinadores e dirigentes desportivos de topo. Este esquema tinha muitas semelhanças com o que a ex-República Democrática Alemã (RDA) começou a aplicar, a uma escala mais abrangente, antes dos Jogos Olímpicos (JO) de Munique 1972, permitindo-lhe rivalizar com os gigantes EUA e União Soviética, mas causando sequelas graves na saúde de milhares de atletas. Dados que confirmam as suspeitas sobre a forma como vários países do antigo Bloco de Leste conseguiram tornar-se potências desportivas.O sistema checoslovaco iniciou-se antes dos JO de Montreal 1976 e prolongou-se pela década de 1980, período em que o antigo país, agora dividido em dois (República Checa e Eslováquia), conseguiu alguns dos seus melhores resultados desportivos. Segundo os documentos agora descobertos, esteróides como nandrolona, norandrosterona e estanozolol foram administrados em modalidades como o halterofilismo, atletismo, hóquei no gelo e esqui, entre outras, não havendo discriminações entre seniores e juniores. Alguns atletas desconheciam que as substâncias eram dopantes, mas outros sabiam e procuravam receber doses extra. Os atletas que rejeitavam a dopagem eram expulsos das equipas nacionais.Tal como a ex-RDA, a antiga Checoslováquia tinha também montado um sistema para evitar que os seus desportistas fossem apanhados pelos controlos antidoping em provas internacionais, apesar de estes serem ainda muito inconsequentes naquele período. De acordo com o Mfd, o laboratório antidopagem de Praga realizou nesse período centenas de testes para detectar quais os desportistas que tinham nos seus corpos quantidades de dopantes que ultrapassavam os limites máximos legais e não iriam baixar o suficiente até às provas.Entre os registos de análises positivas encontra-se um teste efectuado, antes dos Mundiais de 1987, ao lançador do disco Imrich Bugar, campeão do mundo em 1983 e europeu em 1982 e medalha de prata nos JO de Moscovo 1980. "Não entendo. Até este dia acreditava que estava tão limpo como a palavra de Deus", disse Bugar, reagindo com choque quando o Mfd lhe mostrou os registos do teste.Assim como na ex-RDA, o esquema causou danos aos desportistas. Segundo a Reuters, entre os documentos obtidos pelo jornal checo encontra-se uma carta escrita à mão por um halterofilista pedindo ajuda às autoridades comunistas, pois deixara de poder ganhar dinheiro devido aos problemas de saúde – doença crónica no fígado e outros danos causados pelos esteróides, segundo um médico que ele consultara.

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