"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, junho 14, 2007

Olhando o sofrimento dos outros
http://dn.sapo.pt/2007/06/14/artes/olhando_o_sofrimento_outros.html
14 de Junho de 2007
POR NUNO CARVALHO

Albert Camus escreveu que só havia um problema filosófico verdadeiramente sério, e ele era o suicídio. Em A Ponte, estreia de Eric Steel na realização, sondam-se algumas possíveis respostas a esse problema que é ainda tabu nas nossas sociedades alegadamente avançadas. A prová-lo está a enxurrada de vozes demagógicas que condenaram este documentário sobre os suicídios na Ponte Golden Gate (São Francisco), algumas achando talvez que os suicidas não merecem atenção, outras mostrando-se indignadas pelo facto de o filme revelar imagens reais de alguns dos suicídios.É claro que esta opção levanta questões éticas, mas elas decorrem sobretudo do facto de a morte ser o maior tabu do nosso tempo, nomeadamente a morte auto-infligida, tornada infame pela moral judaico-cristã. Ao terem lugar no espaço público, hoje sujeito a uma lógica de cobertura panóptica, essas mortes estão à vista de todos, tornam-se públicas e colectivas, e as câmaras de Steel mais não são do que espectadores de actos que, afinal, têm até uma certa dimensão exibicionista. Admitimos que possa haver um certo voyeurismo mórbido no filme, mas só uma profunda hipocrisia moral negaria a evidência: a curiosidade voyeurística faz parte da natureza humana e satisfazê-la não é esse pecado mortal que certas consciências bem-pensantes nos querem fazer crer. De resto, que é o ecrã de cinema mais do que uma janela indiscreta sobre a intimidade dos seres? O que importa em A Ponte não é tanto discutir a legitimidade moral de algumas das suas imagens, nem sequer a honestidade dos seus processos, pois é sabido que há sempre uma certa "imoralidade" na raiz de muitas das melhores obras de arte. O que convém salientar é que este filme aposta em compreender a natureza do suicídio, revelando histórias marcadas por severas doenças mentais e formas extremas de sofrimento, contribuindo assim para livrar os suicidas dos anátemas que ainda hoje os perseguem. A morbidez do tema é redimida pelo espírito de plácida e poética melancolia que perpassa o filme. Quanto às suas imagens eventualmente chocantes, dir-se-ia que, tendo em conta a letargia moral em que vivemos, incapazes de olhar com olhos de ver o sofrimento dos outros, é um soco no estômago que todos nós, cúmplices da indiferença, merecemos.

EUA quiseram inventar uma 'bomba do amor'
http://dn.sapo.pt/2007/06/14/internacional/eua_quiseram_inventar_bomba_amor.html
14 de Junho de 2007
ABEL COELHO DE MORAIS AFP (imagem)

A Força Aérea dos EUA admitiu ter-se interessado nos anos 90 por um projecto de "bomba do amor" que devia despertar um irreprimível desejo sexual nas fileiras do adversário, neutralizando a sua vontade de combater, na melhor escola da expressão make love, not war, isto é, "não façam a guerra, façam amor".O projecto foi apresentado por um investigador do laboratório da base aérea de Brooks, no Texas, sendo recusado pelo Departamento de Estado. O objectivo era a criação de "uma arma afrodisíaca capaz de afectar os comportamentos do adversário, assim como outros bioquímicos, entre os quais um destinado a tornar o inimigo fotossensível", segundo o documento de apresentação do projecto. Este propunha ainda o desenvolvimento de uma substância que atraísse sobre o inimigo a atenção de "criaturas irritantes que causem danos", como abelhas. As substâncias seriam pulverizadas, quer sobre alvos militares ou áreas civis, e a sua neutralização obrigava a medidas de descontaminação. Segundo a ONG americana Sunshine Project, é falso que a proposta tenhe sido recusada de imediato. Em Dezembro de 2004 divulgou provas de que o projecto estava ainda contemplado em documentos do Pentágono, em 2000 e 2001.

domingo, junho 03, 2007

Fidel Castro aparece na televisão cubana
"El Comandante" mais perto da recuperação total
http://expresso.clix.pt/Actualidade/Interior.aspx?content_id=397108
3 de Junho de 2007
POR Pedro Chaveca

Cada vez com melhor aparência, o eterno revolucionário encontrou-se com o presidente do partido comunista do Vietname. O regresso ao poder pode estar para breve.


REUTERS/Juventud Rebelde/Handout
Longe das últimas imagens Fidel Castro encontra-se visivelmente com melhor aparência
13:08 domingo, 03 JUN 07





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Depois de mais de quatro meses de ausência televisiva Fidel Castro de 80 anos volta à ribalta. A seguir à visita de Hugo Chavez a 30 de Janeiro, ontem foi a vez do líder do partido comunista do Vietname, Nong Duc Manh, viajar até Havana.
A reunião com Manh decorreu durante mais de duas horas, no final Fidel Castro, envergando o seu já conhecido fato de treino, abraçou energicamente o vietnamita e recordou a visita feita a Hanoi em 1973, durante a guerra que opôs o país do sudeste asiático aos EUA, “o Vietname é um país que nunca esqueceremos”.
Embora sejam imagens pouco espontâneas e previamente estudadas, Castro parece estar efectivamente a recuperar e a distanciar-se cada vez mais da imagem do idoso acamado de há meses atrás.
Manh também quis enaltecer a saúde de ferro do seu aliado, “ele estava muito feliz. Fui inundado pela emoção. Fidel falou de muitas coisas importantes”, disse ao sair de uma reunião com o vice-presidente cubano, Carlos Lage.
Para além do apoio dado ao “El Comandante”, a visita teve também como objectivo encetar uma parceria entre os dois países para a exploração de petróleo no golfo do México.
Muitos segredos e poucas certezas
Castro foi sujeito a uma intervenção cirúrgica aos intestinos em Agosto de 2006 e desde então delegou o poder presidencial no seu irmão, Raul. O prolongado período de convalescença do mais famoso cubano da história, tem sido, aliás, tema para muitas especulações.
Quanto ao demorado processo de recuperação Castro, num dos seus muitos ensaios, apontou culpas a uma operação mal sucedida.
A dieta alimentar e os diagnósticos médicos do líder cubano permanecem no segredo dos Deuses, mas as especulações apontam para uma infecção intestinal que tem como consequência a formação de bolsas no cólon.
Ainda que alguns governantes cubanos garantam que Castro está a caminho da recuperação total e que em breve regressará à cadeira do poder, nenhum avança se esse regresso será total ou limitar-se-á a funções meramente “decorativas”.
Um receio que o povo cubano começa a sentir, enquanto vê o seu presidente de 48 anos tornar-se gradualmente no patriarca de Cuba, ao remeter-se a lugares menos intervenientes na política da ilha.

Mentira foi mantida durante um ano
A farsa do rim
http://expresso.clix.pt/Actualidade/Interior.aspx?content_id=397034
3 de Junho de 2007
Simon Kuin, correspondente em Amesterdão

Até os operadores de câmara foram apanhados de surpresa. Afinal, o «Big Donor Show» da estação de televisão holandesa BNN foi uma farsa.


EPA/Vincent Jannink
A doadora (segunda a contar da direita) posa com o restante elenco do concurso
18:57 sábado, 02 JUN 07





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Lisa, a mulher que era supostamente uma doente terminal, e que iria doar o seu rim em directo a um de três concorrentes no «reality show», era uma actriz. Ninguém sabia de nada, pelo menos até dois minutos do fim do programa. Salvo o apresentador e os três candidatos ao transplante.
A farsa tinha sido preparada com precisão militar há cerca de um ano. "Durante a última semana, a minha grande preocupação foi que o nosso plano não fosse descoberto", disse Laurens Drillich, o director da BNN. Mas nem o primeiro-ministro da Holanda, Jan Peter Balkenende, pressentiu perigo.
Poucas horas antes da emissão, numa primeira declaração sobre o «Big Donor Show», Balkenende condenou o propósito da BNN e disse que o programa dava "uma má imagem da Holanda no estrangeiro."
A fim de não criar suspeitas, a BNN enganou a comunicação social, incluindo o Expresso. Inquirida sobre a provável recusa dos médicos na Holanda, por motivos éticos, de fazer o transplante, a BNN respondeu que "já tinha os contactos necessários".
Uma “proeza excelente”
Com o objectivo de chamar a atenção para o problema da falta de órgãos para transplante, a BNN não olhou a meios para atingir os fins. Por isso, mesmo depois da revelação de que tudo não passava de uma mentira, o escândalo continuou. Joop Atsma, deputado cristão-democrata, que tinha pedido medidas do governo para travar o programa, disse depois da emissão que era um "concurso de mau gosto".
Mas o ministro responsável pela comunicação social, Ronald Plasterk, que há poucos dias tinha qualificado o programa como "inoportuno e sem ética", disse agora que achava o programa uma "proeza excelente".
O «Big Donor Show» teve um público de 1,2 milhões de espectadores (numa população de 16 milhões). Para a BNN, trata-se de um êxito. «Agora toda a gente sabe o que pode acontecer a um doente renal que está numa lista de espera para transplante», disse Patrick Lodiers, apresentador do programa.
Na Holanda, há uma lista de espera de 1.400 pessoas que precisam de um transplante de órgãos, na maioria dos casos rins. Em média, é preciso esperar 4 anos e meio para um transplante de rins. Muitas pessoas não podem esperar tanto tempo. Anualmente, 200 morrem sem terem recebido o desejado transplante.