"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, outubro 24, 2008

'Pílula do esquecimento' apaga as más memórias
http://dn.sapo.pt/2008/10/24/ciencia/pilula_esquecimento_apaga_mas_memori.htmlVÍTOR MARTINS e MARTA CERQUEIRA

Inovação. Um grupo internacional de investigadores apagou, de forma selectiva, memórias do cerébro de ratos, através da manipulação de uma molécula. Nos humanos, a técnica é mais complexa, mas espera-se que, no futuro, alguns medos e recordações traumáticas possam ser apagados
Apagar memórias de forma selectiva é agora possível. O sofrimento causado pela recordação da perda de alguém, um medo que não se consegue controlar, as lembranças de um conflito podem ser suprimidas, segundo um estudo realizado por uma equipa internacional.

Investigadores do Brain e Behavior Discovery Institute, nos Estados Unidos, e do Institute os Brain Functional Genomics de Shangai, na China, descobriram uma molécula que, quando devidamente implementada, apaga recordações de forma selectiva, deixando as restantes recordações intactas.

O estudo, apesar de inovador, apresenta ainda algumas limitações porque, tal como reconhecem os próprios autores, foi realizado em ratos e a técnica utilizada seria muito mais complexa se aplicada clinicamente. No entanto, apresenta-se como uma ferramenta útil para criar futuros medicamentos neste sentido.

Alfa-CaMKII é conhecida como a molécula da memória e controla, de uma forma ainda pouco conhecida, a criação e armazenamento de lembranças. O processo em laboratório consistiu numa alteração genética, aumentando a actividade da molécula Alfa-CaMKII. Depois desta alteração, os ratos foram sujeitos a várias provas de memória, como o reconhecimento de objectos ou condicionamento do medo, e descobriram que apresentavam uma maior dificuldade para recordar que os ratos normais.

A memória compreende quatro diferentes estágios: a memorização, o fortalecimento, o armazenamento e a recordação de informações e eventos anteriormente memorizados.

Os testes realizados pretendiam saber em que fase do processo de memorização actuava a enzima. Após provas realizados, verificou-se que os ratos eram capazes de apreender e manter a memória. No entanto, durante a fase de recordação, a actividade excessiva de CaMKII impedia a recuperação de lembranças recentemente adquiridas. Essa dificuldade de recordação surgia porque as memórias desapareciam. Os ratos eram incapazes de recordar aquilo que lhes dava medo.

Apesar de tudo, é prematuro falar de uma "pílula do esquecimento", visto que o procedimento não foi ainda aplicado a seres humanos.

A ciência desde há muito que deu a conhecer a memória, não como um compartimento fechado e isolado, mas cujo armazenamento pode ser alterado ou mesmo vir a desaparecer. Existe um pequeno período conhecido como "período janela", que ocorre depois de se evocar uma memória, na qual esta pode ser eliminada. |

Primeira visita a Israel da sobrinha neta de Goering
http://dn.sapo.pt/2008/10/24/internacional/primeira_visita_a_israel_sobrinha_ne.html
LUMENA RAPOSO

Trauma. Holocausto levou-a a ser operada para não ter filhos

Primeira visita a Israel da sobrinha neta de Goering

"Não queria trazer monstros ao mundo. Temia ter em mim a maldita semente da dinastia Goering", disse Bettina Goering. Em entrevista ao diário israelita Yediot Aharonot, acrescentou: "Ser uma Goering é uma herança muito pesada."

Bettina, de 52 anos, é neta do irmão de Hermann Goering e prepara-se para realizar a sua primeira visita a Israel, onde irá participar no Festival de Cinema Judaico. Entre os vários filmes está um documentário de Cynthia Connop, que segue os encontros entre Bettina e a artista judia Ruth Rich, cuja família desapareceu nos campos de extermínio nazi.

A sobrinha-neta do homem que, em 1939, foi indicado como legítimo sucessor de Adolf Hitler, conta como sentiu "vergonha e culpa" ao descobrir que o nome da sua família estava associado ao Holocausto - um sentimento que a levou, aos 13 anos, a consumir drogas e aos 30 a ser operada para não ter filhos. Surpreende-a que os judeus que encontra na América Latina não a odeiem por ser uma Goering, mas sente-se muito mal quando descobre que o judeu com quem acaba de "fazer amor" é um sobrevivente do Holocausto, com um "número tatuado no braço".

Hoje, Bettina vive em Santa Fé, entre duas famílias judias que se odeiam e que ela tenta aproximar; trabalha com Ruth sobre o trauma do silêncio. Das vítimas e algozes

sexta-feira, outubro 17, 2008

Última sobrevivente do 'Titanic' leiloa recordações
http://dn.sapo.pt/2008/10/17/internacional/ultima_sobrevivente_titanic_leiloa_r.html
HUGO COELHO
Raro. Coleccionadores cobiçam mala de roupa dada pelo povo de Nova Iorque

Millvina Dean espera juntar três mil libras para pagar mensalidade do lar

A única testemunha viva do naufrágio do Titanic vai vender as suas recordações do navio para pagar a mensalidade do lar. Segundo a BBC, Millvina Dean, de 97 anos, espera juntar três mil libras (3800 euros) no leilão que se realiza amanhã.

Os coleccionadores poderão comprar cartas enviadas pelo Titanic Relief Fund - fundo de ajuda às famílias afectadas pela tragédia - para a mãe de Millvina. Nessa correspondência pode ler-se que a senhora Dean tem direito a uma libra, sete shillings e seis pences de indemnização por semana. Pinturas raras do Titanic - incluindo uma do navio da White Star a abandonar o porto de Southampton - são outros dos objectos disponíveis.

Mas a peça principal do leilão é uma mala com roupas que foram dadas à família de Dean à chegada a Nova Iorque. "A mala é um objecto muito emotivo e raro e representa aquilo que o povo de Nova Iorque fez pelos sobreviventes do naufrágio," disse o organizador do leilão, Andrew Aldridge. "Mas também mostra a situação em que ficaram os sobreviventes quando desembarcaram nos Estados Unidos. Muitas pessoas perderam tudo, menos as roupas que traziam no corpo."

Millvina Dean tinha nove semanas quando, no dia 10 de Abril de 1912, embarcou no Titanic. Com a sua família - pai, mãe e irmão - deixava para trás o Reino Unido. À frente, para lá do oceano, tinha o país das oportunidades e o Texas para onde planeava emigrar.

O resto da história é conhecido: ao quinto dia de viagem em pleno Atlântico norte, o Titanic embateu contra um icebergue e afundou-se, arrastando para o fundo do mar cerca de 1500 passageiros que não cabiam nos botes salva-vidas. Colocada numa mala, Millvina salvou-se com a mãe e o irmão. Para trás ficou o pai, Bertram Dean, com outros homens que se sacrificaram pelas famílias.

Nillvina Dean tornou-se na última sobrevivente do naufrágio do Titanic depois da morte de Barbara Dainton no ano passado. Do lar onde vive disse ao jornal Southern Daily Echo: "Eu vim para aqui depois de ter partido a anca, há dois anos. Não sou mais capaz de voltar para a minha casa. Estou a vender as coisas porque preciso de pagar a mensalidade do lar."

quinta-feira, outubro 16, 2008

Paleontologia
A conquista da terra começou por um pescoço
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1346207&idCanal=13
15.10.2008 - 21h31 Nicolau Ferreira
Foi na água que começaram as adaptações que permitiram as primeiras investidas dos animais em terra — como ter um pescoço. É isso que revela o fóssil do Tiktaalik roseae, que em 2006 fez as parangonas do mundo científico por ser um elo na passagem dos peixes para os tetrápodes, os vertebrados que colonizaram a terra e deram origem aos anfíbios, répteis, aves e mamíferos.

Dois anos e muito estudo depois, a anatomia interna do crânio do fóssil mostra os passos intermédios da transformação das estruturas que levaram animais incapazes de mexer a cabeça a seres que não precisam de água para se sustentar.

“Pensávamos que esta transição do pescoço e do crânio fosse uma passagem rápida”, disse um dos autores do estudo publicado amanhã na revista Nature, Neil Shubin, da Universidade de Chicago. “Faltava-nos a informação sobre os animais intermédios. O Tiktaalik preenche este buraco morfológico. Mostra-nos muitos dos passos individuais e esclarece a questão do timing nesta transição complexa.”

O vertebrado viveu há cerca de 375 milhões de anos no Devónico. Era um predador com 1,80 metros e vivia em águas pouco profundas. Os ossos foram descobertos em 2004 na ilha de Ellesmere, no Canadá. Tinha o crânio, o pescoço, as costelas e parte dos membros como os tetrápodes, mas as mandíbulas primitivas, as escamas e as guelras eram iguais aos dos peixes.

Os novos estudos deram mais informação. “Vemos que as características do crânio que antes eram associadas a animais que viviam em terra apareceram primeiro como adaptações a águas pouco profundas”, explicou o primeiro autor do estudo, Jason Downs.

A cabeça do Tiktaalik tinha uma construção mais sólida do que os seus antepassados e era móvel relativamente ao resto do corpo, o que permitia sustentar-se no leito dos cursos de água. O fóssil tinha um osso mandibular que nos peixes coordena o movimento, a alimentação e a respiração, mas muito reduzido. Nos tetrápodes a estrutura também é mínima e evoluiu para um dos ossos do ouvido. Todas estas mudanças foram essenciais para o que estava por vir, a colonização da terra.

terça-feira, outubro 14, 2008

A mulher em notas turcas
http://dn.sapo.pt/2008/10/14/internacional/a_mulher_notas_turcas.html
LUMENA RAPOSO

Polémica. Laicos descontentes com a escolha da escritora desconhecida

Para Aliye, a maternidade era o contributo da mulher para a civilização

As notas só começam a circular a partir de Janeiro, mas a polémica já aí está a marcar o quotidiano da Turquia. O rosto de uma mulher, sem lenço, irá aparecer nas novas notas de 50 liras turcas e, mal o anúncio foi feito pelo Banco Central, choveram críticas contra a instituição.

Curiosamente, as críticas não partiram dos radicais ou conservadores muçulmanos, mas dos laicos, que acusam o banco de ter cedido à pressão dos islamitas ao escolher Fatma Aliye - uma escritora desconhecida, segundo alguns - em vez de optar, por exemplo, por Halide Edip Adivar, um ícone feminista e escritora que lutou ao lado de Kamal Ataturk, o pai da Turquia moderna.

"Personalidade duvidosa" é como o deputado Mustafa Ozyurek, do Partido do Povo Republicano (laico), classifica Aliye. Por seu turno, Hulya Gulbahar, do grupo Kader - que defende a participação das mulheres na política -, recorda que Fatma Aliye lutou pela educação da mulher, mas , para ela, a contribuição da mulher para a civilização deveria fazer--se através da maternidade e do seu papel tradicional na família. Uma posição algo distante da de Adivar.

Um matemático, um compositor, um arquitecto e um místico sufista do século XIII fazem parte do grupo, escolhido pelo comité do banco, para figurar nas novas notas.

segunda-feira, outubro 13, 2008

As mulheres mais bonitas de cuba

Korda queria conhecer as mulheres mais bonitas de Cuba

13.10.2008, Sérgio C. Andrade
Exposição revela a face apagada
da obra do fotógrafo
http://jornal.publico.clix.pt/


Acabar de vez com a ideia de que Alberto Korda (Havana, 1928-Paris, 2001) foi o autor de uma só fotografia - a de Che Guevara, Guerrilheiro Heróico, que o tempo transformou num ícone da Revolução - ou que foi o fotógrafo oficial da revolução cubana. É esta a principal virtude da exposição Korda conhecido, desconhecido, na Fonoteca de Havana, e que tem registado um êxito sem precedentes junto do público da capital cubana.
"Só dez por cento da sua obra tem a ver com o tema da revolução", diz a sua filha, Diana Díaz (o pai chamava-se Alberto Díaz Gutiérrez, e corre que escolheu o apelido Korda por causa da sua parecença fonética com Kodak!). No próximo mês de Dezembro, a exposição de Korda vai ser exibida em Madrid, na Casa da América, e é a pretexto disso que o jornal El País ouviu a filha do fotógrafo e também Cristina Vives, comissária da exposição em parceria com o jornalista Marck Sanders (os dois são igualmente autores do livro-catálogo homónimo já editado em Espanha).
"Korda não só foi uma testemunha de excepção dos anos épicos da revolução cubana, foi um artista incrivelmente moderno", diz Cristina Vives ao El País. "As fotografias de mulheres que ele fez no seu estúdio nos anos 50 são verdadeiramente revolucionárias. E esse trabalho de composição com modelos, ele iria mais tarde aplicá-lo aos líderes guerrilheiros."
A exposição, subdividida em cinco capítulos - Estúdios Korda, Os líderes, O povo, A mulher e O mar -, revela uma vertente marcante, e até agora desconhecida, da produção de Korda na década de 1950. Foram os anos em que ele decidiu virar-se para a fotografia de moda e montar um estúdio com o seu nome em Havana, "para poder conhecer as mulheres mais bonitas de Cuba", confidenciou o artista a Marck Sanders, na última entrevista que deu antes de morrer, de ataque cardíaco, em 2001, em Paris, onde se deslocara para acompanhar uma exposição individual.
Nas fotografias dessa época, Korda retratava os corpos e os perfis de modelos belas e exuberantes, como Norka ou Julia, que mais tarde viriam a tornar-se suas mulheres. Remonta a esse tempo "um espírito Estúdios Korda", que Cristina Vives reclama como sendo "arte de vanguarda".
Foi no final dos anos 50 que o fotógrafo se envolveu com os ideais e com o movimento revolucionário - um dia, fotografou A menina com a boneca de palha e viu aí a metáfora de um povo explorado e empobrecido num país a precisar de mudança.
Guerrilheiros e modelos
Durante uma década, dedicou-se à causa da revolução, que divulgou e celebrou em fotografias que correram o mundo e se tornaram célebres, como a do Guerrilheiro Heróico ou a Entrada de Camilo Cienfuegos e Fidel Castro em Havana. "Mas ele não foi o fotógrafo oficial do regime, foi antes um electrão livre", reclama a sua filha Diana, explicando que foi a sua amizade com Fidel que lhe permitiu captar instantâneos que ninguém mais conseguiu. Isso é agora visível na exposição (e no livro), em fotos inéditas ou pouco conhecidas do líder da revolução a comer um gelado com Che Guevara, em pijama, ou então rodeado por um grupo de excitadas "rainhas da rádio de Nova Iorque".
Mas até as suas fotos mais conhecidas dos protagonistas da revolução "têm um ângulo distinto" e manifestam "o seu meticuloso trabalho de edição, que convertia as imagens originais em algo diferente", nota Cristina Vives, acrescentando que Korda "retratou os guerrilheiros como se eles fossem modelos".
Há uma justificação histórica para o facto de a obra "pré-revolucão" e exterior a esta dimensão mais política ser a menos conhecida de Korda. Em 1968, e como aconteceu à maioria dos negócios privados, o seu estúdio em Havana foi nacionalizado e as chapas que retratavam o movimento de Fidel (cerca de 50 mil) foram depositadas no Arquivo Histórico do Conselho de Estado. O restante trabalho desapareceu - houve, na altura, quem achasse as fotografias "pornográficas".
Na década seguinte, Korda virou-se para a fotografia submarina (fundou mesmo o Departamento Subaquático da Academia das Ciências) e chegou a ganhar prémios internacionais, em Itália e no Japão, com as suas fotografias, mas também estas viriam a desaparecer.
Parte delas foi agora recuperada por Cristina Vives e Marck Sanders em velhas revistas - como a Carteles, onde Korda fotografava as beldades do cinema, que eram comentadas pela pena do escritor Guillermo Cabrera Infante, sob o pseudónimo de G. Caín, conta o El País -, e em arquivos privados.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Impossível

A simetria impossível do universo e as partículas fundamentais
http://dn.sapo.pt/2008/10/08/internacional/a_simetria_impossivel_universo_e_par.html
POR Luís Naves

há catorze mil milhões de anos
desapareceu a simetria no princípio do universo
ou as coisas duras deixariam de existir
(os cientistas provam-no com experiências)
as partículas
a matéria

como um lápis na vertical e depois inclinado
antes de cair
se o mundo começasse com quantidades iguais de duas coisas
a vida seria impossível
(ainda não aconteceu)

um desvio desequilibrou o mundo
e assim se explicam os cinco por cento do universo que compreendemos

Mais doenças à espreita com as alterações climáticas
http://dn.sapo.pt/2008/10/08/ciencia/mais_doencas_a_espreita_as_alteracoe.html

Relatório. As alterações climáticas causadas pelas actividades humanas podem ter consequências imprevistas na proliferação de agentes patogénicos. Um relatório apresentado no Congresso Mundial da Natureza da União Mundial para a Conservação faz uma lista de potenciais agentes patogénicos em alta
As alterações climáticas não se manifestam apenas nos seus efeitos mais visíveis, como é o degelo no Árctico e nos glaciares europeus, ou o prolongamento da época balnear nas praias mediterrânicas. A mudança climática causada pela concentração crescente de gases com efeito de estufa na atmosfera, terá também consequências directas na biodiversidade, com a extinção de espécies e a proliferação de outras. É no último caso que poderá haver implicações na saúde humana, com parasitas e insectos vários a expandirem os seus territórios e os seus efeitos negativos na saúde das populações humanas.

É esse, justamente, o prognóstico de um relatório apresentado ontem no Congresso Mundial da Natureza da União Mundial para a Conservação, a decorrer em Barcelona.

Num documento com o original (e sugestivo) título A dúzia mortal (Deadly Dozen, em inglês), uma equipa liderada por William B. Karesh, da Sociedade para a Conservação da Flora e da Fauna, passa em revista as repercussões que as alterações climáticas podem ter em 12 agentes patogénicos e suas consequências para a saúde humana.

Com o aumento das temperaturas e as alterações dos regimes de precipitação, é de prever a expansão territorial destes 12 magníficos, que, alertam os autores, citados pelo El Mundo, são apenas uma pequena amostra do que pode vir a acontecer nesta área.

Cólera, doença do sono, Ébola, tuberculose, febre amarela ou doença de Lyme, entre outras, estão à espreita, no horizonte das regiões desenvolvidas no hemisfério norte. |- F.N.

Um só olho

Direitos negados também em Israel e no Irão
Mulheres sauditas só devem mostrar um olho
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1345220&idCanal=11
07.10.2008 - 16h28 Margarida Santos Lopes
Entre as muitas restrições a que estão sujeitas as mulheres na Arábia Saudita poderá juntar-se mais uma: quando saírem à rua, se não usarem um lenço que lhes oculte todo o rosto, só poderão mostrar um olho. É o que determina uma “fatwa” (édito religioso) proposta pelo xeque ultraconservador Muhammad al-Habadan, defensor de “um reforço das regras da modéstia”.

Para o xeque, que respondia a dúvidas de ouvintes no canal de TV por satélite al-Majd, “a revelação dos dois olhos encoraja as mulheres a usar maquilhagem [que é proibida] e atrai demasiada atenção, o que é um comportamento corrupto, em conflito com os princípios islâmicos.”

Como fazer então a vida diária apenas com visão parcial? Explica o xeque, muito popular entre os crentes masculinos: “Quando forem às compras, as mulheres poderão retirar totalmente o pedaço de tecido que tapa um dos olhos para poderem usar os dois... num limitado período de tempo.”

As novas directrizes, aparentemente, ainda não em vigor no reino onde nasceu Osama bin Laden e onde impera a rígida doutrina islâmica do wahabismo, confirmam as conclusões do último relatório das Nações Unidas sobre a condição feminina nas sociedades muçulmanas nos últimos cinco anos: a Arábia Saudita é o país onde as mulheres têm menos direitos – nem sequer o de usar saltos altos.

Zelotas judeus pela castidade...

Esta “fatwa” foi noticiada pelo diário hebraico “Yedioth Ahronoth”, no mesmo dia em que também denunciava o fanatismo de judeus ultra-ortodoxos, “que para salvaguardar a castidade, colocam a lei de Deus acima do estado de direito”. Nas últimas semanas, “patrulhas da modéstia” – semelhantes à “polícia de prevenção do vício e promoção da virtude” em países islâmicos – foram acusadas de assaltar casas para agredir mulheres por “usarem blusas vermelhas” ou “conviver com homens”. Também atearam fogo a armazéns que vendem aparelhos de acesso à Internet e leitores de MP4, “para evitar que os devotos façam ‘download’ de filmes pornográficos”.

A romancista, dramaturga e jornalista israelo-americana Naomi Ragen, uma judia praticante que tem abordado o mundo problemático das mulheres “haredim” (literalmente, tementes a Deus), lamenta o aparecimento destes “vigilantes com olhos e ouvidos em toda a parte, muito parecido com o que se passa no Irão”.

Isto agrava o antagonismo entre a comunidade ultra-ortodoxa (600 mil almas) e a maioria secular de Israel. O “Yedioth” nota que, embora muitos judeus ultra-ortodoxos se declarem escandalizados com a violência, os extremistas sentem-se protegidos por rabis, que aprovam estas acções para assegurar a reputação de guardiões da fé.

Foi por pressão dos “haredim” que algumas ruas, restaurantes e centros comerciais de Jerusalém foram encerrados no “Shabat”. Em 1976, um governo dirigido por Yitzhak Rabin (assassinado em 2005 por um colono extremista judeu) caiu quando os seus parceiros de coligação ultra-ortodoxos o abandonaram em protesto contra a entrega de quatro caças F-15 americanos no dia de descanso judeu, que começa ao pôr-do-sol de sexta-feira e termina ao pôr-do-sol de sábado.

... e carro exclusivamente feminino no Irão

Entretanto, no Irão – onde a tradição xiita tem algumas semelhanças com o fundamentalismo dos “haredim” (as mulheres ultra-ortodoxas rapam a cabeça e usam perucas tapadas com lenços, porque também consideram que “o cabelo é pecaminoso”) –, foi anunciado que o principal construtor nacional de automóveis vai produzir um veículo exclusivamente feminino.

O novo carro terá caixa automática de velocidades, sistema electrónico de apoio ao estacionamento, aparelho de GPS, macaco de socorro para ser mais fácil mudar rodas e alarmes indicadores de pneus vazios. Os bancos traseiros terão ainda um sistema audiovisual para entreter as crianças.

Muitos veículos de luxo já hoje oferecem estes “extras”, mas a viatura da Iran Khodro – que será lançada em Junho para coincidir com o “dia iraniano da mulher” – irá distinguir-se pelos “interiores de materiais coloridos e confeccionados segundo o gosto das condutoras”.

Inicialmente, este carro será apenas vendido no Irão, mas poderá ser exportado também para a Síria e Venezuela, informam os jornais “The Guardian” e “Jerusalem Post”. Aumenta assim a segregação num país onde está, igualmente, em discussão um modelo de bicicleta que esconda as pernas e a parte de cima do corpo da mulher. No Irão, embora as mulheres possam conduzir carros (o que não acontece na Arábia Saudita), só têm licença para circular em motorizadas como passageiras. Nos autocarros, há uma divisória que as separa dos homens. E, recentemente, foi criado um serviço de táxis só para elas.

Investigação da assimetria que criou o Universo galardoada com Nobel da Física
http://jornal.publico.clix.pt/
08.10.2008, Clara Barata


Estudos de japoneses sobre mistério da matéria foram distinguidos, mas em Itália diz-se que ficou de fora o trabalho de Nicola Cabibbo


Se algum dia nos encontrarmos face a face com um extraterrestre, será que poderíamos dar-lhe um passou-bem interplanetário? Há sempre a possibilidade de ele ser feito de antimatéria, e não da matéria normal de que somos feitos, nós e as estrelas. Se ele fosse de antimatéria, nós e o ET acabaríamos por aniquilar-nos mutuamente. Deste encontro fatal restaria apenas radiação.
Mas o Universo só existe porque a matéria pesou ligeiramente mais no prato da balança do que a antimatéria - algo que seria o oposto exacto da matéria - há coisa de 14.000 milhões de anos, quando aconteceu o Big Bang. E qual a razão desse desequilíbrio? Não se sabe, mas os três cientistas galardoados com o Nobel da Física de 2008 foram pioneiros na investigação deste segredo fundador do Universo.
Um minúsculo desvio
Os cientistas descrevem o Universo como sendo feito pontinho a pontinho, por partículas mais pequenas que os átomos (como uma imagem digital é composta por pixels). Com o Big Bang, foi criada tanta matéria como antimatéria - que pode ser definida como o seu inverso, ou o reflexo no espelho. Houve uma ligeira desproporção que favoreceu a matéria: um desvio da simetria perfeita de apenas uma partícula extra de matéria por cada 10.000 milhões de partículas de antimatéria.
Mas essa ligeira diferença lançou as sementes do nosso Universo; bastou para criar as galáxias, as estrelas e os planetas, e permitiu a nossa própria existência.
Yoichiro Nambu, de 87 anos, um norte-americano nascido em 1921 no Japão, foi recompensado com metade do valor do prémio pela "descoberta do mecanismo de ruptura espontânea da simetria na física subatómica", diz o comunicado de imprensa da Academia de Ciências Sueca. Essa ruptura da simetria é precisamente o facto de haver mais matéria do que antimatéria no Universo.
Atrás de uma teoria de tudo
As ideias de Nambu são uma base importante do Modelo Standard da Física, a teoria com que os cientistas tentam descrever, de forma unificada, todas as forças e partículas dos Universo. Mas esta ambição da física de desenvolver uma "teoria de tudo" continua por satisfazer: ainda não consegue explicar a gravidade nem por que é que as coisas têm massa.
Aliás, o novo acelerador de partículas do CERN, na fronteira entre a França e a Suíça, tem como principal objectivo tentar descobrir uma partícula (o bosão de Higgs) que poderá explicar como as outras partículas têm massa.
Os japoneses Makoto Kobayashi, de 64 anos, e Toshihide Maskawa, de 68, recebem um quarto do milhão de euros do Nobel por terem prosseguido os estudos de Nambu, explicando que a ruptura da simetria supõe a existência de pelo menos três famílias de quarks - as partículas mais elementares da natureza, de que se compõem os protões e neutrões do núcleo dos átomos.
O trabalho destes três investigadores contribuiu para explicar a assimetria que resultou num Universo constituído sobretudo por matéria - a antimatéria continua a existir, mas é muito instável, por causa das interações com a matéria. Através do estudo das partículas subatómicas chamadas kaões, previram a existência de uma nova família de quarks. Os aceleradores de partículas confirmaram as suas previsões: o quark charm foi descoberto em 1974, o bottom em 1977 e o top em 1994.
Italiano de fora?
Mas o prémio deste ano não escapa a uma polémica: em Itália, dizem que ficou de fora o físico Nicola Cabibbo, que o jornal La Reppublica diz ser considerado o precursor da área de estudo dos japoneses (e norte-americano) galardoados.
"Estou feliz por ver o Nobel atribuído a esta área da física. Mas não posso esconder um pormenor que me enche de amargura: Kobayashi e Maskawa têm como único mérito terem generalizado, ou simplificado, uma ideia central cuja paternidade é atribuída ao físico italiano Nicola Cabibbo", disse ao La Repubblica Roberto Petronzio, presidente do Instituto Nacional de Física Nuclear de Itália.