"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, outubro 31, 2007

Deus em onda curta
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31.10.2007, Kevin Sullivan em Homoíne

Nunca houve tantas estações e tantas redes de rádio religiosas a difundir tantos programas, em tantas línguas, para tantos lugares. Das florestas de Moçambique aos desertos da Mongólia, são a maneira de escapar ao isolamento devido à distância, à falta de dinheiro ou à língua que falam
Quando o crepúsculo cai, Jaime Jeremias Matsimbe senta-se na terra cor-de-rosa, no meio da floresta de mangueiras e palmeiras, e começa a dar à manivela do seu rádio de onda curta, em busca da palavra de Deus.
Depois de girar várias vezes o pequeno manípulo, carregando o rádio como se estivesse a dar corda a um relógio, a voz de um pregador ecoa através do pátio cheio de cabras e de perus, a 30 quilómetros de distância da estrada alcatroada mais próxima. Matsimbe sorri, enquanto ouve o sermão de um pregador do Texas sobre Jesus e S. Paulo traduzido para uma língua local que é apenas falada nesta região, no interior de Moçambique."Fico muito contente por esta pessoa nos ter trazido a sua mensagem", diz Matsimbe, um agricultor de 59 anos e com 24 netos cuja língua materna, o xitshwa, é falado apenas por um milhão de pessoas. "Sentimos que há alguém que se preocupa connosco".Das florestas de África aos desertos da Mongólia e ao Médio Oriente, nunca houve tantas estações e tantas redes de rádio religiosas a difundir tantos programas, em tantas línguas, para tantos lugares.Apesar da globalização da fé estar a ser cada vez mais impulsionada pela Internet e pela televisão por satélite, as emissoras de rádio religiosas estão a gastar centenas de milhões de dólares num dos mais antigos meios de comunicação de massas."Nos países em desenvolvimento, para muitas pessoas o rádio é o único dispositivo disponível", diz Robert Fortner, especialista em rádio religiosa e director do Media Research Institute americano. "As pessoas ficam agarradas ao rádio como se fosse um barco salva-vidas depois de um tsunami".A rádio está a ajudar a apoiar o crescimento mundial da religião à medida que as emissoras religiosas vão expandindo a popularidade, o alcance e a influência das suas igrejas. E já atingem muitos milhões de pessoas, nos cantos mais distantes do mundo, que se encontram praticamente isoladas do resto do planeta devido à distância, à falta de dinheiro ou à língua que falam."Estes programas estabelecem uma ligação entre estas pessoas e o resto do mundo que, de outra forma, não existiria", diz Fortner. "Os destinatários dos nossos programas ficam a saber que existem outras pessoas no mundo que se preocupam suficientemente com eles para preparar programas na sua língua e falar com eles acerca dos seus próprios problemas."Para chegar aos "inatingíveis" das áreas rurais, onde a electricidade é ainda um sonho distante e mesmo as pilhas são um luxo, estas emissoras estão a distribuir centenas de rádios de manivela que custam 50 dólares.Na vila de Homoíne, 500 duros quilómetros a nordeste do Maputo, os pastores locais da igreja Metodista Unida e da igreja anglicana receberam novos rádios no mês passado e agora reúnem os seus paroquianos para ouvir os programas evangélicos."Isto traz mais pessoas à igreja" diz Xavier Muaga, o pastor anglicano. "Algumas pessoas começaram a ir à igreja e desistiram, mas estes programas convenceram-nas a voltar. Outros, que antes nunca vieram à igreja, agora vêm ouvir isto e querem tornar-se cristãos."Corão e músicaO crescimento das emissões religiosas deve muito à liberalização do espectro radioeléctrico que teve lugar nos anos 90, segundo analistas da indústria. Graham Mytton, que dirigiu o departamento internacional de estudos de mercado da BBC durante mais de 25 anos, faz notar que África tinha apenas duas estações de rádio não-estatais no final dos anos 80. Agora tem pelo menos 3000.Desde a dissolução da União Soviética em 1991, cerca de 2000 estações de rádio privadas, muitas deles com programação religiosa, desabrocharam nas quinze antigas repúblicas soviéticas, onde a liberdade de culto praticamente não existia antes disso. "As coisas começam a mudar lentamente, depois a mudança transforma-se numa cavalgada", diz Mytton.O cristianismo, a maior religião do mundo, com cerca de 2000 milhões de aderentes, é quem tem a maior presença nas emissões religiosas globais.Os programas cristãos vão desde leituras da Bíblia a cursos para pastores que não completaram a sua formação. Mas há também estações muçulmanas que emitem recitações do Corão, notícias e música. E existem em todo o mundo emissões de rádio patrocinadas por budistas e por seguidores de muitas outras religiões.Para além dos temas espirituais, as estações religiosas abordam questões práticas, têm programas sobre sida, cuidados básicos de saúde, higiene e aconselhamento familiar. Nalgumas estações, as notícias difundidas são escolhidas de acordo com critérios religiosos. Durante a controvérsia que teve lugar no ano passado, por exemplo, quando um jornal dinamarquês publicou caricaturas do profeta Maomé, alguns pregadores das rádios islâmicas ajudaram a mobilizar e a canalizar a indignação dos muçulmanos, que deu origem a violentos protestos em todo o mundo.Das 314 estações de rádio do mundo autorizadas a difundir os seus programas para além das fronteiras do país onde se encontram, 83 (26 por cento) são estações religiosas, de acordo com o World Radio TV Handbook. Pelo menos uma dúzia de grandes redes internacionais de rádio cristãs operam em centenas de países e difundem programas em pelo menos 360 línguas. A maior parte é oriunda dos Estados Unidos - que possui mais de 2000 estações de rádio religiosas - mas há muitas que são britânicas ou suecas. Dezenas de emissoras internacionais de menor dimensão funcionam em nações que vão do Canadá ao Chile e às Filipinas.A Trans World Radio, uma rede protestante aberta a todas as denominações e com sede nos EUA, é uma das maiores. Tem um orçamento anual de 40 milhões de dólares, obtidos através de doações, e emite para mais de 200 países.A Trans World opera hoje cerca de 2800 estações a nível global, mas eram 1600 em 2001, diz-nos Bill Damick, um responsável da rede que trabalha na Grã-Bretanha. Damick pensa que a programação cristã - em estações patrocinadas por denominações que vão dos Adventistas do Sétimo Dia ao Vaticano - está a crescer mais depressa em África e na América Latina que noutros países, mas ela está também a explodir na Ásia e na Europa do Leste. As redes de rádio islâmicas, na esmagadora maioria financiadas por governos, também cresceram nos últimos anos no Médio Oriente, África e Ásia, particularmente nos locais mais remotos. Estas tendem a concentrar-se em leituras do Corão, especialmente em nações como a Arábia Saudita, onde Estado e religião se encontram estreitamente ligados.Ao contrário da filosofia evangélica das rádios cristãs, as rádios islâmicas tendem a concentrar-se nas pessoas que já são muçulmanas. Ebrahim Moosa, director-adjunto do Centro de Estudos Islâmicos de Duke University, diz que a rádio permitiu que muitos muçulmanos aprofundassem os conhecimentos que possuem da sua fé, assim como a sua devoção. Muitas das estações muçulmanas estão também a difundir cada vez mais talk shows islâmicos e música pop, especialmente na Jordânia e noutras sociedades mais seculares. Estrelas como Sami Yusuf, um cantor pop britânico islâmico de 27 anos, cujas letras em louvor de Alá fazem sensação, agitam as ondas hertzianas. Muitas grandes emissoras de rádio hindus nos Estados Unidos, Europa e Índia também misturam orações com música pop, e notícias de Bollywood com programas sobre cozinha vegetariana. Estações budistas difundem cânticos tibetanos e notícias por todo o mundo, incluindo emissões clandestinas dirigidas ao interior do Tibete. As estações governamentais, comerciais e religiosas há muito que usam emissões em onda curta para atingir sociedades fechadas como Cuba ou a Birmânia - que recentemente foi palco das maiores manifestações anti-governamentais dos últimos 20 anos, lideradas por monges budistas."Esta é a única maneira que temos de fazer chegar a informação às pessoas na Birmânia", diz Htet Aung Kyaw, editor da Democratic Voice of Burma, uma rádio laica instalada na Noruega que emite em onda curta para o interior da Birmânia.Rádio-novela e sidaEm países como Moçambique, onde as rádios foram liberalizadas no início dos anos 90, a FM é uma verdadeira feira de religiões. No Maputo, os ouvintes podem escolher entre uma estação católica, duas protestantes e uma nova emissora islâmica.A Rádio Comunitária de Homoíne transmite desde o fim de 2001 e no ano passado a Trans World Radio começou a comprar tempo de antena na estação para emitir um novo programa cristão sobre HIV e sida, que é uma praga em ascensão nesta região de África. É Preciso Coragem é uma rádio-novela, produzida por um pastor local e com actores locais, que promove a moralidade, a fidelidade conjugal e defende a abstinência antes do casamento. Muitas pessoas disseram que era a primeira vez que ouviam um verdadeiro programa educativo sobre sida na sua própria língua."Era melhor do que um panfleto a dizer "Usa um preservativo"", diz Hussene Algy, o director de programas da rádio. "Este programa chegou a pessoas iletradas, que sabem muito pouco sobre HIV e sida e ensinou-as a recear a sida da mesma maneira que receiam o diabo".Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post