Obra de arte desconhecida durante séculos
A Tela Perdida de Tintoretto
Obra de arte desconhecida durante séculos
http://dn.sapo.pt/2007/11/05/tema/a_tela_perdida_tintoretto.html
POR Leonor Figueiredo
A enorme pintura a óleo que representa a Adoração dos Reis Magos, do célebre pintor veneziano Jacopo Tintoretto, que deixou de ser referenciada no século XVIII, encontra-se a salvo no Mosteiro beneditino de Singeverga, em Santo Tirso. É essa a convicção de especialistas que há meses se depararam, por acaso, com a tela de grandes dimensões (cinco metros de comprimento por dois de altura), depois de ter sido colocada na igreja abacial da Ordem Beneditina, parcialmente acessível ao público. O motivo da pintura é o mesmo que relatam autores italianos antigos que estudaram a obra de Jacopo Tintoretto.Muito há para se saber sobre esta pintura, através de exames técnicos exigidos para a autenticação de uma obra de arte, se a tal se quiserem dispor os monges, seus actuais proprietários, assim como o estudo pormenorizado de restauros que possa ter sofrido ao longo dos séculos. Investigar, principalmente, se a tela passou pelas pinceladas do famoso pintor das igrejas de Veneza do século XVI, ou se saiu da sua oficina, com intervenção de algum dos filhos."Eu ponho as mãos no fogo em como se trata de um Tintoretto, provavelmente feito a meias com o filho Domenico, o seu herdeiro artístico", revela, ao DN, o historiador de arte Vítor Serrão que analisou e estudou o quadro, quando se viu protagonista de uma coincidência, a partir do telefonema do seu amigo musicólogo Manuel Morais. "Há uns meses, estava a chegar de Madrid, onde fui, precisamente, ver uma grande exposição de Tintoretto no Prado, quando o Manuel Morais me liga a dizer que estava em Portugal, em frente de um Tintoretto. Pensei que estivesse a brincar, porque não há referência de Tintoretto no nosso país, nem em leilões nem em pinacotecas, e sabia que o pintor tinha servido sobretudo o mercado conventual. A sua obra destinava-se a confrarias, igrejas e irmandades italianas e, excluindo os retratos e a pintura profana e mitológica, os quadros estão todos em Veneza, porque Tintoretto não viajava. Com este raciocínio, a minha atitude foi de grande dúvida. Mesmo quando ele enviou uma foto do quadro continuei a duvidar. Naquela época ia muita gente comprar quadros a Itália, há imensas cópias."Na altura Vítor Serrão não sabia, mas o quadro havia já merecido o interesse do Museu Nacional de Arte Antiga, que o classificou como "a melhor pintura italiana do século XVI existente em Portugal", assim como da leiloeira londrina Sotheby's, que confirmou tratar-se de um Tintoretto. Linguagem inconfundívelEstávamos em Abril quando Manuel Morais vai passar uns dias com os seus amigos monges, onde tem tranquilidade para trabalhos de longo fôlego. Ao chegar chamam-lhe a atenção para o novo quadro da igreja, entretanto remodelada. O musicólogo, especialista em música maneirista, que corresponde à época do quadro, ficou impressionado quando viu a pintura. "Estive horas a olhar para ele", recorda ao DN. "De repente pergunto-me onde estou... mas é italiano, enfim, uma 'Epifania' maneirista... nem queria acreditar!" Semanas mais tarde vão os dois ao mosteiro com nova máquina fotográfica para grandes definições, com o objectivo de mandar imagens com qualidade para outros especialistas. "Analisámos longamente a pintura, conseguimos perceber o que é do Tintoretto e o que é do filho Domenico. Pensamos tratar-se de uma obra executada entre 1580 e 1590 por ambos", refere Manuel Morais. Vítor Serrão sublinha que a tela possui "uma linguagem inconfundível em que sobressaem o nível técnico, estilo e o preparo pictórico da época". E sustenta que a pintura "segue e desenvolve o modelo da 'Epifania' pintada na juventude de Tintoretto, datada de 1545, que há meses atrás esteve exposta em Madrid". No artigo que publicamos à direita, ambos põem a hipótese de a origem do quadro poder estar em Veneza, na igreja do Santo Spirito, porque pelo menos três autores dos séculos XVI, XVII e XVIII referem uma grande obra de Tintoretto ali existente, com o mesmo tema da tela de Singeverga. E que a identificação do doador que se vê no quadro, à direita, pode ser a pista italiana, por ser comum os ricos fazerem--se retratar como autores da encomenda.Na troca de e-mails entre Vitor Serrão e Miguel Falomir, grande especialista de Tintoretto do Museu do Prado, este admite tratar-se "de uma obra iconograficamente muito interessante da oficina de Jacopo Tintoretto, com figuras que recordam bastante o seu filho Domenico". E tal como os autores portugueses, data-a de final do século XVI.Repor a tela na históriaSe a hipótese em que acreditam for verdadeira, a de o quadro ser inequivocamente da autoria de Tintoretto, "vai explicar um dos hiatos e mistérios da obra e actividade do pintor", sublinha o historiador de arte, que rejubila com a presença da obra em Portugal. "É bom para o País e para a arte italiana", diz Vítor Serrão. Defende a constituição de uma equipa que estude a obra. "É importante repor o quadro na História da Arte onde ocupa lugar, e devolvê-lo à memória patrimonial da comunidade. Para isso servem as descobertas dos bens artísticos." Conclui: "A partir de uma migalha que se investiga há uma obra que ganha corpo. A História da Arte deve reabrir um diálogo interrompido no tempo com Tintoretto."Amanhã contaremos porque razão este quadro chegou aos monges adoradores de S. Bento de Núrcia, padroeiro da Europa, que vivem pacatamente na freguesia rural de Roriz, fazendo com que os doadores da tela de Singeverga se tivessem tornado nos maiores beneméritos do mosteiro.

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